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É inevitável pensar na origem específica deste cinema - um Israel nascido no cadinho explosivo do pós-Segunda Guerra, país polarizado e refém da sua história e da sua geografia

A comédia existencial do cineasta acidental

O israelita Nadav Lapid descobriu o cinema depois do jornalismo e da escrita, e explora nos seus filmes a “comédia existencial” de um país que define como uma “sopa caótica” onde o político e o pessoal são indissociáveis. A descobrir no Curtas 2018, a partir de sábado

“Aos 22 anos, depois de cumprir o serviço militar, tive de um dia para o outro uma visão, assim um bocado como Joana d’Arc! Ouvi uma voz quase divina que me dizia, ao contrário da Bíblia, “vai-te embora, baza deste país e nunca mais regresses”. Uma semana mais tarde, aterrava em Paris devido à minha admiração por Napoleão Bonaparte e Zinedine Zidane, sem sequer falar bem francês...”

Isto diz o israelita Nadav Lapid (n. 1975). Um cineasta quase “acidental”, que estudou filosofia, começou como jornalista desportivo e publicou contos e novelas – mas que, apesar da “visão”, acabou mesmo por regressar a Israel para se dedicar ao cinema. Com resultados significativos: logo à primeira longa, O Polícia (2011), levou para casa o Prémio Especial do Júri em Locarno, e à segunda – The Kindergarten Teacher (2014) – já estava na Semana da Crítica de Cannes. Ao telefone de Paris (onde monta Synonyms, a sua terceira longa), ri-se ao dizer que foi aí, na capital francesa, que descobriu verdadeiramente a 7ª Arte: “Cresci numa família muito cinéfila. O meu pai é um escritor que publicou bastante sobre cinema, e a minha mãe era montadora, mas o cinema não me interessava por aí além. Tinha um gosto muito banal, via basicamente os mesmos filmes americanos que toda a gente via. Sobretudo, lia muitos livros. Foi em Paris que descobri o cinema.” Recorda esses tempos de descoberta: “Era tão ignorante! Fui ver o Teorema de Pasolini sem saber bem no que me estava a meter e saí da sala completamente assoberbado! Depois disso, comecei a ver filmes ininterruptamente, e regressei a Israel para seguir estudos de cinema.”

Os resultados desses estudos podem ser vistos no Curtas Vila do Conde a partir deste fim-de-semana: a edição 2018 do festival dedica a sua retrospectiva In Focus ao israelita, autor de um cinema simultaneamente pensado e espontâneo, cerebral e à flor da pele, que estará igualmente presente em Vila do Conde (onde será jurado do festival) para uma conversa com o público (sábado, dia 21, às 15h). O Curtas exibirá as suas duas longas – apenas O Polícia (sábado, dia 14, às 21h) chegou à estreia comercial por cá, The Kindergarten Teacher (domingo, 15, às 23h15) ficou-se pela passagem no LEFFEST de Paulo Branco – bem como a integral das suas curtas (em duas sessões, quinta, dia 19, às 17h; e sexta, dia 20, às 23h30). A mais recente destas, From the Diary of a Wedding Photographer (2016), foi a grande vencedora internacional do Curtas nesse ano.

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Logo à primeira longa, O Polícia (2011), levou para casa o Prémio Especial do Júri em Locarno, e à segunda — The Kindergarten Teacher (2014) — já estava na Semana da Crítica de Cannes

É uma carreira ainda curta e razoavelmente espaçada, que Lapid explica ter menos a ver com o seu desejo de filmar e mais com as burocracias da indústria. “Escrevo relativamente depressa, mas tenho sempre problemas em convencer os decisores com os meus guiões,” confessa. “Sei que muitas das pessoas que os lêem até apreciam os meus filmes, mas o que eu filmo não é forçosamente o que está escrito. Ou antes, são as imagens que dão profundidade às palavras, mas também lhes invertem o sentido, criam estranheza no filme…”

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From the Diary of a Wedding Photographer

É uma relação tão simbiótica como contraditória, apropriada para um cineasta que começou por trabalhar na escrita e só mais tarde se virou para as imagens, como explica: “Nos meus filmes existe sempre um desfasamento entre as palavras e as imagens, uma espécie de contradição. Ora tenho momentos muito silenciosos ora momentos muito faladores. Ou ninguém diz nada, ou dizem-se só duas ou três palavras, ou então lançam-se grandes tiradas verbais... É como se houvesse um conflito entre os que falam muito e os que não dizem nada. As palavras têm um certo controlo sobre o filme, mas as imagens estão lá para as fazer perder esse controlo: mostram uma realidade que as palavras já não conseguem descrever, e isso lança o espectador para um sítio onde já não sabemos bem quais são as regras do jogo.”

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Um cineasta “acidental”, que estudou filosofia, começou como jornalista desportivo e publicou contos e novelas jerome bonnet

Exemplos. Em O Polícia, Lapid cruza dois quotidianos distintos – de um lado, a vida de um polícia de um corpo de elite anti-terrorista à beira de ser pai, do outro, a raiva incontida de uma aspirante a revolucionária que quer acordar a sociedade israelita do seu torpor anestesiado. The Kindergarten Teacher é a história de uma professora num jardim-escola, mulher casada, dois filhos crescidos, uma vida confortável; ao descobrir que um dos seus alunos tem um dom para a poesia, decide “protegê-lo” do mundo e desenvolver esse dom custe o que custar, contra tudo e todos. São personagens que sentem um qualquer chamamento do destino, que atravessaram uma qualquer linha invisível entre a rotina e a obsessão, que se transformaram sem dar por isso – gente que não é assim tão diferente de nós, como diz Lapid. “Por vezes as pessoas que estão mais próximas de nós são as mais neuróticas.”

É inevitável pensar na origem específica deste cinema – um Israel nascido no cadinho explosivo do pós-Segunda Guerra Mundial, país polarizado e refém da sua história e da sua geografia. Mas é significativo que os filmes de Lapid em nenhum momento abordem abertamente a questão israelo-palestiniana através da qual Israel é hoje percepcionado: é antes a “comédia humana” da identidade do país que aqui se explora, ou antes a “comédia existencial” como o cineasta prefere defini-la. “O meu cinema não é ideológico, não defende uma posição política em particular, e isso torna-o um bocadinho extra-terrestre,” pondera Lapid. “Em Israel, é completamente artificial tentar distinguir o político do pessoal, o público do privado, porque está tudo misturado. Aos 18 anos é-se adolescente mas é nessa idade que vamos para a tropa, o que é um acto profundamente político que não é de todo entendido desse modo. Nesse sentido, os meus filmes são uma espécie de radiografia dessa «sopa» caótica onde se confunde tudo, o político, o poético, o erótico, o corporal, o ideológico, a palavra, as ideias, o desejo sexual, a dança, a música… Cabe tudo neles.”

É um retrato de uma sociedade que, diz Lapid, “não tem subtexto” - no sentido em que por vezes o cineasta ouve uma frase ou uma afirmação que parece ser dita de forma irónica mas que na verdade é completamente a sério. “Quando reparo nisso, é muito inquietante, mas é também algo de muito israelita. Nos meus filmes, as pessoas não conversam realmente umas com as outras: apresentam-se, posicionam-se, declaram um ser, uma existência, uma identidade, sem auto-ironia nem inconsciência. Talvez por sermos um país muito recente, onde não existe muita ironia nem muita nuance, temos qualquer coisa de cru, de descomplexado.” Lapid avança uma outra pista: “Acho que é possível perceber que as minhas personagens têm boas intenções, um lado humano, tocante – podem ser pessoas, no limite, ridículas na sua ausência de ironia, mas ao mesmo tempo são carismáticas, impressionantes. Enquanto espectadores, não estamos em posição de troçar delas, ou de ter pena delas, ou de nos sentirmos superiores a elas. Mesmo que não concordemos com elas, acreditam naquilo que fazem, e não podemos ignorar a sua dedicação nem a sua força.”

É um paradoxo que Lapid diz existir mesmo dentro de si, ilustrando, entre risos, com a sua experiência de descoberta do cinema. “Quando cheguei a França, o meu vocabulário era muito pobre, e para treinar o meu francês comprei um número dos Cahiers du Cinéma. Não percebi muito ao princípio, eram textos ultra-complicados, mas aos poucos lá fui chegando e, quando regressei a Israel para estudar cinema, achava que os Cahiers eram a cultura do cinema mundial! Estava um bocadinho fora do mundo, achava que toda a gente lia a revista e que a principal coisa que um cineasta fazia de manhã era discutir a abordagem cinematográfica de Fassbinder...” Ri-se. “Quando cheguei à escola de cinema mais prestigiada de Israel, ninguém queria saber! Ninguém lia os Cahiers, estava-se tudo a borrifar! Foi um choque - mas o meu cinema reflecte esse choque, essa contradição. Sou israelita, mas nasci como cineasta em Paris, e essas duas culturas co-existem nos meus filmes: uma cultura erudita que pode ser também por vezes mole e sem vivacidade, confrontada com algo de mais selvagem, à beira do vulgar, do ignorante, mas que tem força e dinamismo.”