Afinal, se houve desastre nos exames este aconteceu na disciplina de História

Receios sobre os exames de Português e Matemática A não se confirmaram. Os resultados mantiveram-se positivos. Já a média a História A foi a que registou uma maior descida. Professores culpam Iave, que rejeita acusações.

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Nas 22 disciplinas sujeitas a exame, as médias dos alunos internos não foram abaixo dos 9,5 valores Paulo Pimenta

Os alunos do 12.º ano “sobreviveram” às alterações introduzidas este ano nos exames de Português e de Matemática A, mas o mesmo já não se passou com História A. Das oito disciplinas mais concorridas, esta foi a que teve a média mais baixa (9,5 numa escala de 0 a 20 valores) entre os alunos internos, que são os que frequentam as aulas até ao fim, e também aquela que registou uma maior descida por comparação a 2017, ano em que o resultado médio foi de 10,3 valores.

O exame de História A foi realizado por cerca de 20 mil alunos do curso de Línguas e Humanidades. Para a Associação de Professores de História (APH), a responsabilidade deste mau resultado recai sobre o Instituto de Avaliação Educativa (Iave), o organismo responsável pela elaboração e correcção das provas, por ter mudado o tipo de exame e “a cotação de todos os itens” sem aviso prévio. “A tutela não deu qualquer indicação de que estas mudanças iriam ocorrer”, frisou ao PÚBLICO o presidente da APH, Monteiro de Barros.

Por essa razão, o exame constituiu “uma surpresa muito desagradável para alunos e professores, que basearam o seu trabalho de preparação em determinadas expectativas, que foram completamente goradas”, acrescenta este professor. Quanto à alteração das cotações, Monteiro de Barros aponta, entre outros factores, para o facto de o valor atribuído à questão de desenvolvimento ter passado de 50 pontos para 20, “o que confundiu ainda mais os alunos e prejudicou claramente os que estavam mais bem preparados”.

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O tema proposto este ano para desenvolvimento foi o seguinte: “A submissão da economia e da cultura aos imperativos políticos de Portugal de finais da década de 1920 e a finais da década de 1930.” Monteiro de Barros lembra que a questão de desenvolvimento “exige concentração, análise e reflexão e, consequentemente um tempo relativamente longo de resposta”. Ora, acrescenta “tal não se coaduna com uma classificação e 20 pontos [em 200]”.

Em resposta ao PÚBLICO, o presidente do Iave, Helder Sousa, rejeita que tenha existido qualquer alteração na estrutura da prova. Houve sim, explicita, “ajustamentos na cotação atribuída aos itens da prova, como aliás em todas os demais exames”, mas segundo o presidente do Iave “não faz qualquer sentido afirmar que esse ajustamento foi responsável pela descida dos resultados médios observados, tanto mais que na disciplina de História B, sujeita ao mesmo tipo de intervenção técnica, se observou o fenómeno inverso [a média passou de 11,6 para 12,3]”.

Helder Sousa frisa, a este respeito, que “os alunos não aprendem mais ou melhor em função das cotações que uma prova, um exame ou um teste pode ter” e lembra que o resultado deste ano “não se distancia do padrão de anos mais recentes, que entre 2014 e 2018 oscilaram entre 9,5 e 10,7 valores”.

Português e Matemática em terreno positivo

Os professores de Português e Matemática também acusaram o Iave de ter alterado a estrutura e a cotação dos itens dos exames sem ter fornecido informações prévias. No mês passado, quando da realização do exame de Português, que é obrigatório para todos os alunos do 12.º ano e foi feito por 74.354 alunos, a associação de docentes da disciplina alertou que estas mudanças poderiam “vir a ter reflexos nos resultados”.  Também a Associação de Professores de Matemática (APM) e a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) consideraram que os alunos foram “prejudicados” com o tipo de exame que lhes foi proposto devido às alterações introduzidas e à existência de perguntas que remetiam para dois programas distintos.

“Ficou reunida a receita para o desastre”, alertou então o presidente da SPM, Jorge Buescu. Os resultados conhecidos ontem não vieram confirmar o prognóstico. Embora ligeiramente mais baixa do que em 2017, a média a Matemática A, um exame feito por cerca de 45 mil alunos, manteve-se em terreno positivo (10,3). “Os alunos estão de parabéns por terem conseguido sobreviver às adversidades”, afirmou Buescu.

O presidente da SPM frisou também que a descida registada (de 11,5 para 10,9) “não tem significado estatístico” e que tal veio provar que o novo programa da disciplina, que este ano foi pela primeira vez sujeito a exame, “não resultou no desastre que alguns tinham anunciado”.

“Esperávamos uma descida e esta ocorreu. Não contávamos com uma hecatombe e esta não aconteceu”, resume, por seu lado, o dirigente da APM, Paulo Correia, que disse “ser muito difícil atribuir a variação registada a um só factor, como o novo programa ou as alterações na prova”. “É bom que não tenha ocorrido nenhuma desgraça e isso deve ser valorizado.” Mas como nem tudo são rosas, a taxa de reprovações a Matemática A (14%) continua a ser a mais alta das 22 disciplinas com exame.

Também a presidente da Associação de Professores de Português, Filomena Viegas, manifestou o seu agrado pelos resultados alcançados e que contrariaram os receios expressos quando da realização da prova. A média nesta disciplina passou de 11,1 em 2017 para 11 valores em 2018. “As alterações não tiveram um efeito visível nos resultados. E isso mostra que os alunos estão preparados para lidar com estas mudanças”, comenta, frisando contudo que o Iave deve voltar às suas práticas anteriores e fornecer a alunos e professores informações pormenorizadas sobre as provas.

Progressos no 11.º ano

Satisfeitos estão também os responsáveis pela Sociedade Portuguesa de Química e pela Associação Portuguesa Professores de Biologia e Geologia. Os resultados dos exames Física e Química A e Biologia e Geologia estiveram durante anos entre os piores, mas agora este cenário parece pertencer ao passado. As médias de ambas as provas não só continuaram a estar em terreno positivo, como registaram duas das maiores subidas por comparação aos resultados de 2017. A Física e Química A o resultado passou de 9,9 para 10,6 e a Biologia e Geologia subiu de 10,3 para 10,9.

“É com satisfação que constato que a média de Física e Química A continua a subir, mas no entanto prefiro salientar a evolução expressiva da taxa de reprovações que baixou de 14 para 10%”, referiu o secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Química, Adelino Galvão. “Esta melhoria corresponde aproximadamente a mais 1200 alunos que atingiram um valor positivo numa disciplina tão importante para a formação científica dos cidadãos do século XXI”.

O presidente da Associação Portuguesa de Professores de Biologia e Geologia, João Oliveira, refere que a média do exame tem registado “uma subida consistente nos últimos três anos”, o que constitui “motivo de regozijo”. Como também o é a diminuição das retenções, que passaram de 8% para 6%.

Ao contrário do que sucedeu noutras disciplinas, “a prova de exame foi bastante equilibrada e adequada ao programa e às informações prévias sobre o exame”, destaca João Oliveira, que aponta também como factor de sucesso a existência de um programa que se tem mantido estável desde 2003.