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Sim ao Museu das “Descobertas”, para que a história não se repita

Faça-se um museu imparcial, por favor, construído à luz da história e nem por isso politicamente correcto, mostrando as “Descobertas” tal como foram, sem negar ou glorificar a escravatura.

Dizem as vozes de protesto não a um Museu das Descobertas. Não só por não termos descoberto nada (nós, os nossos iguais, já estávamos lá) como, de caminho, chacinámos, escravizámos, saqueámos, incendiámos, conquistámos, oprimimos, violámos e vivemos do sangue e sofrimento de nações inteiras ao longo de séculos e séculos.

Acrescentam as vozes de protesto que a execução de um Museu “das Descobertas” (coloquemos então umas aspas) só é exequível na condição de o mesmo ser única e exclusivamente dedicado à penitência do povo português em nome de um perdão do tamanho de 500 anos: o perdão pela escravatura.

Tê-lo-ão, ao perdão, sob a forma de um museu. Mas um museu imparcial, por favor, construído à luz da história e nem por isso politicamente correcto, mostrando as “Descobertas” tal como foram, sem negar ou glorificar a escravatura, mas na certeza de que o pior da história não se repita, para bem de todos nós e de quem vier depois.

Felizmente, ou infelizmente, não é possível apagar a história. Aconteceu. Existiu. E não podemos voltar atrás. Não a esquecemos, não a queremos esquecer, e não temos nada de nos penitenciar, de joelhos e durante cem anos, para sempre com os olhos e o coração no chão. 

Eu não tenho, a minha família e amigos também não, talvez os nossos avós, e se assim for que se façam os julgamentos necessários, mas os portugueses nascidos em liberdade são tão livres como os escravos libertos, sendo a nossa única culpa termos nascido portugueses.

A não ser que agora nascer português seja politicamente incorrecto. Pelos vistos, é, e se calhar o debate não anda à volta de um museu, mas da luta entre dois povos, e um deles quer vingar-se.

Assim se explica a importância da história enquanto disciplina no ensino secundário, a mais mal dada, por sinal, nunca chegando ao 25 de Abril e à luta dos povos e resumindo-se a um exercício de memória e a um sem fim de datas sem sentido tantos anos depois. Porque os alunos são meros receptores, não é suposto discutirem entre si e com o professor, pensar, trocar ideias. São simples esponjas, umas boas, outras más, mas esponjas. Não fosse o Lobo Antunes e nunca teria sabido o que foi, e como foi, o 25 de Abril, o dele e o de tantos outros. 

Por isso a importância de um Museu, “das Descobertas”, porque a seguir ao mar há o espaço infinito e a promessa de nunca, mas nunca mais, escravizar um povo apenas por serem diferentes de nós.