Opinião

A rainha e o amazing deslumbrado

Isabel II deve estar muito divertida com esta visita, pelo que ela tem de caricato.

Trump é e será sempre uma fonte inesgotável de assunto e comentários. A propósito da sua actual visita ao Reino Unido, leio no PÚBLICO o entusiasmo com que encara o encontro com a rainha Isabel II. “Uma mulher fantástica”, como ele costuma dizer de quase tudo, dentro do seu paupérrimo léxico, em que amazing e extraordinary são verdadeiras bengalas de linguagem. Parece que a mãe era escocesa e – coitada da senhora – falava a Trump do modo como amava a monarca.

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Detive-me nesta notícia pela circunstância de Trump se apresentar como a encarnação do american dream, um self-made man que subiu a vida a pulso e que, entre nós, poderíamos apelidar de um “novo-rico”. Confesso desde já que seria interessante tomar chá com a cabeça da Commonwealth, não tanto por Isabel II parecer ser uma excelente conversadora, mas pelo patusco da situação, com aquelas mordomias bolorentas e aquelas baixelas a relembrar que o UK já foi great, but not any longer.

Deslumbrado, portanto. Um bebé em ponto grande, sedento de atenção e que a monarca, com a sua experiência de largas décadas, vai saber captar, mantendo-o, porém, à distância de segurança de alguém que, de todo, pertence à sua casta. Mais perto estarão os amados cães. Isabel II deve estar muito divertida com esta visita, pelo que ela tem de caricato. Os antigos colonizadores são agora visitados por um Presidente maravilhado com lustres e móveis, retratos e outros cómodos, mas que, provavelmente, arrasaria Buckingham para construir um condomínio de luxo. “Business as usual”, diria ele à sua interlocutora. Não fora a solenidade do acto, Trump era bem capaz de levar um contrato-promessa, just in case. Não sei se o inefável Duque de Edimburgo estará presente, mas tenho quase a certeza que ambos podiam ser “bbf’s”. Gaffe por gaffe, seria uma competição renhida e diz-se que Filipe faz rir Isabel, como talvez Donald – que não o Pato – faça ao menos sorrir a vetusta rainha.

Seria uma medalha ao peito para Trump escrever um tweet dizendo que fez rir Isabel II. Mas esta última já enterrou muitos primeiros-ministros e muitos Presidentes, pelo que o mais certo é lançar-lhe aquele olhar esfíngico típico da alta nobreza bafejada pelo divino, em que os comuns mortais não terão a mínima ideia do que lhe passará pelo real cérebro. Adivinho que contemple a cabeleira de Trump, que mentalmente reconheça o very typical da gravata a rondar locais anatómicos menos próprios e que pense que a Melania ama mesmo o Presidente, porque o interesse deve ser pouco.

May deve ter pedido ao pessoal do palácio para a rainha ser o mais agradável possível com o Presidente. Afinal, o "Brexit" está a correr mal para os seus lados e tem levado a uma sangria governamental. Se Trump mandasse, era tudo um tough "Brexit", pois nele nada é soft. Melhor: é meigo com ditaduras e claras violações de direitos humanos, se tal redundar em lucro para a confederação de interesses que o elegeu e o segura.

Isabel II terá uma história para contar aos netos: a vez em que aquele senhor deslumbrado do país outrora colonizado, inicialmente, por perigosos criminosos britânicos, entornou o chá nas caríssimas carpetes, fez um comentário desagradável ou tocou na rainha. Mais giro seria se Trump convidasse a monarca para uma selfie ou levasse na mala diplomática um contrato para a rainha ser “a cara” de campanhas publicitárias dos seus negócios. Imagino o clã Windsor a rir, sempre com os simpáticos canitos por perto, quando Trump já estiver do outro lado do oceano. O problema é que, cara Isabel, o homem tem poder – e muito –, é imprevisível – e muito – e vai-nos levando a todos, passo a passo, a um ataque de nervos. O antídoto é os demais países serem hábeis na negociação, mas com a certeza de que se se baixarem em demasia, mesmo a combinação de uma carismática rainha pode ficar à mostra...