Para dançar, não é preciso ouvir: basta “sentir o som”

A nova criação de Marco da Silva Ferreira cruza em palco oito adolescentes, entre ouvintes e surdos. Se, para alguns, o principal estímulo é a música, como é que dançam aqueles que não ouvem? Em Surdina estreia-se esta sexta-feira no Teatro do Campo Alegre, no Porto.

Dança moderna, teatro musical, dança
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JOSÉ CALDEIRA/TEATRO MUNICIPAL DO PORTO

No início, Leonela Capozzi, 17 anos, sentia “muita vergonha” de falar com os colegas surdos, “porque não sabia como”. A timidez era geral entre os oito adolescentes, três ouvintes e cinco surdos, do agrupamento de escolas Eugénio de Andrade, no Porto. Muito antes de chegar a palco com o espectáculo Em Surdina, do coreógrafo Marco da Silva Ferreira, esta sexta e sábado no Teatro do Campo Alegre, e para derrubar esta barreira, o grupo começou por fazer exercícios de proximidade e confiança. “Tivemos de olhar nos olhos uns dos outros e tocar uns nos outros, o que pode ser muito intimidante se não conhecemos a pessoa”, conta a aluna ao PÚBLICO.

Aos poucos, Leonela foi ganhando confiança e atentando às “conversas” tidas pelos colegas. “É interessante perceber que eles notam imensa coisa que nos passa ao lado e ver a forma como sentem o som através das vibrações”, explica. Num dos ensaios realizados no estúdio que fica por cima do palco principal do Teatro Municipal Rivoli, os adolescentes surdos pararam e, para surpresa de Marco da Silva Ferreira, colocaram as mãos no chão. “Para mim, existia ruído o tempo todo, por isso não me apercebi de qualquer mudança. Para eles, só começou a existir som a partir do momento em que se iniciaram os testes de som lá em baixo”, recorda o coreógrafo.

Foi a sensibilidade dos surdos face à reverberação que levou o coreógrafo a apostar “na física do som como elemento [construtivo do espectáculo]”. Ao longo de nove meses, o grupo desprendeu-se da milenar relação entre a música e a dança e encontrou-se para trabalhar, em alternativa, o som e o movimento. “Há uma procura de som no próprio corpo deles, os gritos que fazem os corpos reverberar e a vibração que sentem no próprio espaço”, elabora Marco da Silva Ferreira.

A importância da visão

À excepção da primeira cena, em que é interpretada a canção Dancing in the dark, de Bruce Springsteen – que volta a aparecer no fim, desta feita com uma espécie de “coro” em língua gestual portuguesa –, a música é um elemento secundário nos 40 minutos de espectáculo. Em vez disso, há uma batida pungente que se vai afirmando em crescendo e que foi escolhida a pensar na comunidade surda como público-alvo, de acordo com “[determinados] volumes e frequências que fazem o espaço vibrar mais [que o normal]”. A faixa é simples e marca o ritmo com a ajuda das luzes e das marcas assinaladas no chão.

“Eles têm uma enciclopédia visual e imagética enorme”, reconhece o coreógrafo, acrescentando que, “numa discoteca, podem não ouvir a música, mas vêem os amigos a dançar e sabem qual é o comportamento que devem ter”. Marco da Silva Ferreira reitera que a visão foi um instrumento essencial para estruturar Em Surdina. “Há uma parte em que a luz é um estímulo visual para mudar de cena, e o mesmo se aplica aos símbolos geométricos que estão no chão”.

O estímulo da adolescência

Nas primeiras sessões, Marco da Silva Ferreira apercebeu-se que, além da mímica, a competitividade própria da adolescência também servia de motivação aos alunos surdos. “Eles vêem a dança como uma actividade física, uns truques que podem aprender. No fundo, há uma certa urgência em fazer maior, mais rápido, mais lento, em fazer mais”. Nesse sentido, há um compromisso colectivo na forma como se apresentam, primeiro aos pares, funcionando como espelho uns dos outros, e, depois, em grupo, quando correm pelo palco ou fazem percussão com as mãos e os pés no chão.

Apesar da seriedade necessária para concretizar o projecto, também houve espaço para surdos e ouvintes serem quem são – adolescentes. Por entre os movimentos que jogam com a física do som e os traços de dança contemporânea, há referências da cultura actual como o dab, um gesto simples que, nos últimos anos, se tornou viral e deu origem a vários memes, ou o floss, a famosa dança do videojogo Fortnite, em que os braços balançam como um pêndulo à frente e atrás do corpo. “Eles sabem isso tudo e isso é vocabulário de dança”, nota, sublinhando que “a cópia também é um grande estímulo”.

Abrir horizontes

A assimetria na capacidade de comunicação não foi propriamente uma barreira ao projecto de unir dois universos diferentes no mesmo palco. Segundo Marco da Silva Ferreira, “a predisposição deles em fazer o projecto abriu logo uma série de possibilidades e permitiu que se conhecessem e integrassem facilmente”. Isac Ferreira, 17 anos, refere que só foram precisas “duas ou três sessões” para que todos conseguissem comunicar uns com uns outros, porque partilhavam a “vontade de participar”.

Os oito alunos foram acompanhados pela docente Olinda Cardoso e pelas intérpretes de língua gestual portuguesa Ana Rio, Maria João Gomes e Paula São Pedro. Com o passar do tempo, o entendimento de parte a parte começou a ser mais fluído. Eugénio Correia, 15 anos, refere que “a mímica e a comunicação com o olhar foram constantes”. Já Sofia Valente, 14 anos, afirma que “se [os colegas ouvintes] falarem devagarinho”, consegue perceber o que dizem, porque vai “fazendo leitura labial”.

Marco da Silva Ferreira reconhece que, ao longo dos nove meses, “o à vontade e a auto-confiança deles dispararam”. “No início, estavam mesmo muito retraídos e, de repente, através dessa noção de desafio e exercício físico, eu conquistei-os e eles conquistaram-me a mim”, conta o coreógrafo. Nota, no entanto, que a aprendizagem que todo o grupo leva para casa – ele incluído –? é “do tamanho da vida”. “Muitas vezes, os desafios aparecem e podemos desistir ou continuar. Eles continuaram”, termina. “O importante é estabelecer relações com o desconhecido e abrir horizontes. A técnica vai e vem.”