Crítica

Nas, ressonância de testamento

A fotografia que faz capa do 12.º disco de Nas remete-nos para o que de mais interessante ele possui, perdendo pertinência quando o nova-iorquino se limita a celebrar a sua carreira.

A doce ressonância testamentária de um dos mais velhos rappers em actividade
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A doce ressonância testamentária de um dos mais velhos rappers em actividade

Nos últimos anos, consolidou-se o lugar-comum de que Nas, histórico e aclamado rapper nova-iorquino, não saberia, não teria gosto na escolha de instrumentais, e que essa crónica deficiência explicaria o facto de não ter criado outros álbuns do calibre de It Was Written (1996), Stillmatic (2001) ou, claro, Illmatic (1994, a sua estreia), talvez o clássico mais unânime na história do hip-hop americano (carimbo que não deixa de ter o seu revés, i.e., a elevadíssima expectativa com que cada seu novo álbum é recebido). Como todos os lugares-comuns, também esse tem muito de mimético e redutor, pois certamente que outros discos seus contabilizam excelentes beats, caso, para não ir mais longe, de Life Is Good (2012), o seu último trabalho (que belíssima peça é Stay, autoria do insuspeito No I.D.). Como quer que seja, foi, portanto, com expectativa (e, nalguns casos, desconfiança) que se ouviu o anúncio, por Kanye West, de que se encontrava a compor o novo álbum de Nas, não fosse o primeiro um inventivo e imprevisível criador cujo estilo de produção – mas o ponto é esse: não tem “um” estilo, os pontos de fuga são muitos – não é aquele que mais rapidamente se associaria à linha sónica de Nas (e não só por isso: também pela diferença de postura entre Nas, discreto, e West, sempre espaventoso, a que se soma o posicionamento político pró-Trump do segundo, de que Nas não poderia estar mais longe).

O resultado da colaboração é francamente positivo, reforçando a camisola amarela editorial de West no presente ano, e algumas das apreciações menos boas que se têm ouvido explicam-se por duas ordens de razão. A primeira reside na actual moda que garante pontos (ou likes) a quem condenar West na praça pública ou simplesmente desprezar ou ignorar os discos que tem lançado (a solo ou colaborativamente) nos últimos tempos – tudo porque West manifestou apoio a Trump, o que, se pode ser ominoso (e é-o para nós), não nos deve fazer perder de vista que, antes disso, há a música, e que convém ouvi-la sem palas de antemão (tudo isto levantando simultaneamente uma problemática questão: pode um apoiante de Trump ser anti-racista e denunciador da marginalização ou do abuso policial contra negros?). São os mesmos que não partilharão nas “redes sociais” (porque agora não é de bom-tom) os seus vibrantes versos políticos em Cops shot the kid, que West constrói a partir de um simples loop da Children’s story do saudoso Slick Rick, soltando-o (ao loop) apenas no final para deixar a voz deste último ecoar o modo como, de 1988 para 2018, pouco mudou para os afro-americanos no que ao racismo diz respeito: “The cop shot the kid/ I still hear him scream” (neste apavorante “still” se prolongando, perpetuamente, os traumas da sociedade americana).

A segunda razão – a de aqui se encontraria um Nas menos “poético” – entronca, em boa verdade, num erro comum entre os ouvintes de hip-hop: a propensão para confundir rap com poesia (“poesia urbana”, equívoco por excelência), forma, essencialmente, de tentar legitimar/justificar a sua condição “literária” ou, mais genericamente, a sua dignidade artística. É luta que, se ainda se poderia compreender há dez ou quinze anos atrás, está hoje francamente estafada: não só o rap dispensa muletas para valer como expressão artística (por vezes com resultados sublimes, noutros casos, ignóbeis, como, hélas!, qualquer manifestação criativa), como a circunstância de se estar insistentemente a sublinhar esse atributo só acusa um complexo de inferioridade que, reitere-se, hoje, é só desnecessário (Kendrick Lamar acabou de vencer o Pulitzer, senhores…) – até porque quem, surfando o pior dos caprichos (a ignorância), continua a afirmar que o rap “não é música” (Rui Veloso ainda há meses o disse de boca cheia), já não tem remédio. Como afirmou José Mário Branco recentemente ao Expresso, “Uma canção não é uma poesia servir de autocolante para uma música qualquer, é um objecto novo, uma linguagem diferente. É filha, mesmo no sentido genético, da música e da palavra (…). Nem a música nem a poesia precisam de muletas para nada. São duas artes importantíssimas que existem por si”.

Fazendo a ponte com NASIR, nem sequer Nas é dos rappers mais poéticos de que nos lembramos imediatamente (o que, e este é o ponto, não o diminui um milímetro), como de braggadocio (discurso ostentatório) sempre estiveram algumas das suas letras carregadas. Se everything, servida por um instrumental (e, já agora, um falsete) soberbo de West (é, sem cair em exageros, um dos melhores que já lhe ouvimos, épico na medida certa), não constitui uma das mais ricas e densas letras de Nas – mesclando a história política americana (abordada, de forma ainda mais “tratadista”, quando não aborrecida, em Not for radio, o pior instrumental do disco) com o ideal pan-africanista e relatos auto-biográficos –, então não sabemos quais serão as suas grandes canções. “Pray my sins don’t get passed to my children”, ouve-se em Adam and Eve (beat inflamadíssimo que sampla nada mais nada menos do que Kourosh Yaghmaei, “pai” do rock iraniano, e onde The-Dream brilha, como já fizera na faixa anterior, no refrão), palavras que – contraditoriamente, existencialmente – ecoam, já a fechar o disco, nas “Simple Things” a que Nas diz aspirar na vida: “I just want my kids to have the same peace I’m blessed with”.

Não sendo este, provavelmente, o último disco de Nas – nem o mais memorável (White Label, em que West volta a revirar o baú da música iraniana, e Bonjour revelam-se, descontando a excelência instrumental, perfeitamente dispensáveis, vazias que são de texto pertinente, a segunda delas contendo, porém, um dos versos simultaneamente mais ordinários, não confundir com misógino, e cómicos de que temos memória) –, a verdade é que Simple Things possui essa doce ressonância testamentária, de despedida de um dos mais velhos rappers em actividade e que, pelo meio de uma vida atribulada (sobretudo o turbulento casamento com Kelis), tem sabido conservar a bitola e a admiração do público e dos pares.