Opinião

Ronaldo, Agnelli e o Fiat CR7

Este caso é mais uma prova que a soberba dos Floretinos Pérez deste mundo, nem ao nível Ronaldo tiram o chapéu.

A ida de Ronaldo para a Juventus pôs ao sol o que há muito se sentia no ar. Ronaldo não se sentia querido, nem respeitado pelo Real Madrid. Isto depois de há uns anos ter dito que estava triste. Custava a crer. Teria razão ou seria capricho de prima donna? Como sempre, a verdade às vezes tarda, mas não demora. E como um coelho saído da cartola, entrou-nos pelos olhos dentro um daqueles instantes clarificadores: “Ora: ai está”. Ronaldo acabava de ganhar mais uma Bola de Ouro, e em plena gala Florentino Pérez lambeu-se de atenção por um jogador de um clube rival, Neymar. Esta atitude do Presidente do Real Madrid teve o mérito de nos confirmar a escala da sua soberba. No momento em que Ronaldo ganhava a quinta bola de ouro, deixando novas marcas em recordes que se julgavam protegidos pela lei das impossibilidades, enchendo de títulos, recordações e alegrias o coração dos adeptos, de cifrões os cofres do Real Madrid, e criando um ambiente de animação de se tirar o chapéu ao Real Madrid, o seu responsável primeiro tirava o chapéu à passagem de Neymar... Um aspirante a concorrente no plano desportivo, com quilates ainda por pesar em factos desportivos, mas já acima de Ronaldo nos valores contratuais.

Jogo a jogo Ronaldo continuou a esculpir o lugar que cada vez mais parece ser o seu por direito, legitimado no relvado, no jogo jogado: o de melhor futebolista de todos os tempos. Com Ronaldo em campo, passou a ser habitual para o Real Madrid ganhar a Champions League, quando antes parecia encalhado no enguiço da Décima... bem tentavam mas não conseguiam. Conseguiram em Lisboa em Maio de 2014. Desde então é um ver se te avias, uma taça a seguir à outra e já lá mora a XIII, sempre com golos decisivos de Ronaldo, que na comparação efectuada pela UEFA está à frente de Messi em golos, embora bem atrás nos valores contratuais.

De par em par os holofotes do mundo, rodopiam à passagem de Ronaldo, rendidos à aura de grandeza dos seus feitos históricos, como nas palmas dos adeptos da Juventus após terem sofrido um golo de antologia que mais uma vez lhes desfazia o sonho de ganharem a Champions. Indiferente, Florentino Pérez no seu rendilhado sorriso mantinha os holofotes noutra direcção, ao que parece cavalgando a certeza que apesar dos feitos de Ronaldo, a sua idade não lhe daria opções na Europa onde necessita estar para continuar a esculpir a sua estátua no Olimpo do futebol. Em vez de expressar a Ronaldo gratidão, respeito e homenagem sentida, devido a ser uma lenda viva do Real Madrid e do futebol, o Presidente do Real Madrid preferiu a implacável afirmação dele próprio como o master do universo do Real Madrid, o dono da decisão sobre a escolha de quem é o herdeiro e o transmissor da identidade do Real Madrid na comunidade dos laços entre antepassados e vindouros. Ele é que é o Senhor, o dono do tira ou põe no Real Madrid. Nada de sentimentalismos, reconhecimentos ou venerações aos símbolos do presente, aos construtores da identidade de grandeza, aos heróis da memória futura do Real Madrid. Nada de novo que já não tivéssemos assistido em 2015 quando o Real Madrid mostrou a porta de saída a Iker Casillas ao fim de 25 anos. Nessa altura este símbolo do Real Madrid surgiu sozinho, desamparado na solidão da alameda da sala de imprensa, sem ninguém dos órgãos sociais do Real Madrid a seu lado. Desolador momento em que de voz embargada a tropeçar em lágrimas e soluços leu um texto que como então disse se comprometeu a ler.

Este é o ângulo da situação que envolve Ronaldo que atrai o meu interesse, pois penso que ela simboliza a cultura de liderança que se apoderou da sociedade e cuja lógica se sintetiza no “compra, usa e deita fora”, parafraseando um dito que ouvi há muitos anos no concurso Cornélia, da RTP. Por muitos prantos à cultura organizacional, a verdade é que a hora H mostra que predomina na liderança a mentalidade do “só há é gente para nos servir”. A relação dos jogadores com os clubes, tal como a vida nas entidades, incluindo empresas, transformou-se em algo parecido com a relação do passageiro com o autocarro. Um entra e sai na paragem que convêm, no horário que convém e que a transformação digital se não houver sabedoria no governo dos povos poderá vir a agravar. O amor à camisola, a lealdade, a dedicação como elos de pertença a uma comunidade portadora de uma identidade moldada no curso das gerações, parece ter perdido significado e deixado de ser valorizado ou estimulado. Jogar parece ter-se tornado sinónimo da obrigatoriedade de vencer. E quase tudo se consente para vencer. Até marcar golos com a mão como se comprovou no golo de Maradona, dito com a mão de Deus, e que sempre insisti em dizer que é o golo com a mão do Diabo e a negação do futebol como desporto. A meu ver esta cultura de liderança encontra personificação máxima em Florentino Pérez, e bem vistas as coisas é a cultura que está na origem da crise de 2007-2008, do laisser faire desde que ganhe. E cujo preço para a humanidade está perante todos, na série de escândalos que as notícias infelizmente avivam a cada dia, incluindo nos inenarráveis casos de incumprimento comprovado dos deveres fiscais, inclusive de estrelas do futebol, ou de corrupção e conflitos de interesse envolvendo instâncias e dignitários de primeira grandeza de que os Panama Papers são exemplo.

Este caso é mais uma prova que a soberba dos Floretinos Pérez deste mundo, nem ao nível Ronaldo tiram o chapéu. Ganharam o hábito de se servirem de tudo e de todos, para depois do alto da sua pequenez aviarem uma compaixão de vão de escada, traduzida em palmadinhas nas costas e em consolos ao ouvido de que nem sempre quem ganha, é quem mais merece. Neste sentido o caso Ronaldo confirma que o sistema de estímulos, incentivos e recompensas é o mais valioso instrumento de um país, região, clube, empresa ou família. E que cabe à liderança a responsabilidade social de proteger a identidade da entidade que dirige, desde logo expressando reconhecimento às pessoas, como parte essencial da afirmação da sua dignidade e de entreabrir um futuro sustentável para todos, incluindo para si própria. Pérez falhou neste reconhecimento em tempo devido, o que é algo que nenhuma declaração de despedida conseguirá disfarçar. Impôs o compra, usa e deita fora, e com isso ofereceu à família Agnelli a milionária produção do FIAT CR7,  e mais tarde ou mais cedo, a afición do Real Madrid, cantará a Florentino o seu reconhecido vete de paseo. Meu Querido Menino!