Trump reafirma apoio à NATO depois de lançar o pânico

Numa cimeira que foi um verdadeiro espectáculo mediático protagonizado pelo Presidente dos EUA, os aliados reforçaram o seu compromisso com o aumento da despesa na defesa, para responder à agressividade da Rússia.

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Donald Trump, Presidente dos EUA CHRISTIAN BRUNA/EPA

Foi um momento de puro pânico: assim que saiu a primeira fuga de que no Room One da NATO o Presidente dos Estados Unidos acabara de ameaçar retirar o país da Aliança Atlântica, as cadeiras na sala de imprensa caíram para trás, com os jornalistas a levantarem-se numa correria desenfreada e caótica em direcção à sala onde, nem meia hora depois, um exultante Donald Trump desmentia toda a informação e declarava que a reunião dos líderes fora “fantástica”, um “sucesso total”.

“Posso tirar o país da NATO quando quiser, mas já não será necessário porque toda a gente concordou em pagar mais”, afirmou Donald Trump, que desde que chegou a Bruxelas não parou de repetir que a repartição dos encargos com a defesa europeia não era justa e penalizava os Estados Unidos — e que os restantes parceiros, principalmente os “países ricos da Europa”, tinham de aumentar imediatamente as suas contribuições para chegar ao patamar de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), antes do prazo de 2024 com que se comprometeram na cimeira de 2014.

O Presidente dos EUA, que aparentemente não conseguiu digerir durante a noite o consenso anunciado pelos líderes após a reunião do Conselho do Atlântico Norte, confrontou os parceiros com “consequências graves” se não atendessem as suas exigências: segundo fontes da delegação norte-americana, Trump usou “palavras duras”, pondo em causa a “legitimidade da NATO” e indicando que Washington podia perfeitamente conduzir a sua política de segurança e defesa de forma unilateral.

Ameaça inédita

O seu discurso — que os parceiros claramente interpretaram como uma ameaça, absolutamente inédita na história da aliança —, produziu o efeito desejado. O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, trancou os líderes no Room One para uma sessão de emergência que baralhou toda a agenda planeada para o encerramento da cimeira (e obrigou os “convidados” do dia, os presidentes da Ucrânia e da Geórgia, a retirar-se da sala). Sobre o que se passou nessa reunião, e sobre a estratégia negocial assente na chantagem, Trump ofereceu respostas curtas e simples. “Ontem fui muito firme e hoje fui ainda mais firme”, garantiu o líder norte-americano, aparentemente despreocupado com a confusão que lançou e a irritação que provocou nos aliados. “A única coisa que fiz foi dizer-lhes que estava extremamente descontente com a situação.”

“Os Estados Unidos estavam a ser tratados injustamente. Mas agora já não. Agora a NATO é uma máquina bem afinada, os países vão pagar como nunca pagaram”, disse Trump, numa vitoriosa conferência de imprensa que teve de ser arranjada à pressa para refutar os alertas de breaking news que entretanto foram disparados sobre a ameaça da saída dos Estados Unidos da NATO. 

“A NATO é uma forte aliança e hoje ficou ainda mais forte. Os países concordaram em chegar de forma mais rápida aos 2%. E depois de chegarmos aí, vamos começar a discutir em aumentar o esforço até 4%, que me parece ser um valor mais apropriado”, disse Trump, gabando-se pelo facto de, depois de ter tomado posse, “os números [da despesa militar dos membros da aliança] terem disparado como um foguete”. 

No jornalismo não é recomendável carregar nos adjectivos, mas não há outra maneira de descrever o que se passou, nesses caóticos minutos em que a NATO esteve sob ameaça de dissolução, e durante os 35 minutos da conferência de imprensa em que Donald Trump repetiu que nunca a Aliança Atlântica esteve melhor: atípico, singular, anormal, bizarro, perplexo, insólito, confuso, surreal, perigoso, absurdo, incompreensível…

Talvez nunca se venha a perceber exactamente o que se passou, mas quando os nervos se recompuseram do choque, e apesar do big-show de Donald Trump, não houve uma grande mudança no acordo que os líderes tinham ratificado na véspera em termos de partilha de custos e responsabilidades, apenas ligeiros acertos que não são de substância mas de calendário — que mesmo assim, continua a apontar para 2024 como a data em que todos terão de chegar ao patamar de 2% do PIB.

Quando se dirigiu aos jornalistas, o Presidente dos EUA elogiou o “verdadeiro compromisso” dos aliados em avançar os seus planos nacionais e reforçar os investimentos em defesa de forma a conseguir mais 33 mil milhões de dólares e a chegar aos 2% do PIB “num período muito curto de tempo” (no Room One, Trump terá exigido que a meta fosse cumprida já em Janeiro de 2019). Mas um atrás do outro, os restantes chefes de Estado e governo vieram dizer que não havia razão para mexer na programação dos seus planos nacionais e respectivos orçamentos — que já incluíam o reforço de verbas que Trump disse ter conquistado. E não se pronunciaram sobre a sua oferta de os ajudar a aumentar o investimento, através da venda de equipamento militar em condições mais favoráveis: "Se quiserem, vamos ajudá-los a comprar o melhor equipamento militar do mundo."

Nada mudou

O primeiro-ministro português, António Costa, garantiu que Portugal mantém inalterada a proposta que apresentou ao secretário-geral da NATO, e que prevê um reforço progressivo do orçamento da defesa dos actuais 1,36% do PIB para 1,66% do PIB, com a parcela do investimento em capacidades militares a aumentar de 11% para 17%. O Governo prevê atingir a meta de 1,98% do PIB em 2024 com o recurso ao financiamento comunitário (e outros). 

Costa considerou que o cumprimento da meta acordada na cimeira de Gales de 2014 já constitui um “esforço [orçamental] considerável” para Portugal, tendo em conta as necessidades de financiamento de outras políticas públicas, da saúde à educação. “Quanto à duplicação do esforço [sugerida por Trump] não vemos razão para isso. Nós devemos ter um esforço correspondente às necessidades”, afirmou Costa.

O Presidente de França, Emmanuel Macron, também confirmou que o seu Governo respeitará o compromisso de investir 2% do PIB em defesa até 2024 (actualmente, Paris já gasta 1,8%), e rejeitou a leitura apresentada pela delegação norte-americana, de que a intervenção de Donald Trump tinha levado à revisão dos planos. “Não mudamos nada no comunicado final, que foi publicado ontem [quarta-feira] com todos os detalhes. Todos nós confirmamos o nosso compromisso com o objectivo dos 2% a atingir até 2024. Não sei que mais há a dizer”, declarou Macron.

Os líderes da Alemanha, Espanha e Bélgica — os “países ricos da UE” que foram repreendidos na sala por Donald Trump por, no caso dos dois últimos, reservarem menos do que 1% do PIB à politica de defesa — não se mostraram muito sensíveis às críticas do norte-americano. 

No fim da cimeira, o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, comprometeu-se a cumprir os planos fixados pelo executivo de Mariano Rajoy, e que prevê que Madrid aumente as suas contribuições até alcançar o patamar estabelecido em Gales (mesmo que a antiga ministra da Defesa, María Dolores de Cospedal, tenha a certa altura admitido que em 2024 os gastos com a defesa estariam ainda em 1,53% do PIB). “Tenho toda a intenção de cumprir o roteiro traçado pelo anterior Governo”, declarou Sánchez.

“O Presidente dos Estados Unidos veio aqui pedir aquilo que nós andamos a discutir há muitos meses, e que é uma mudança na forma como distribuímos entre todos os custos da nossa defesa comum”, afirmou a chanceler da Alemanha, Angela Merkel. “Tivemos de voltar a discutir a questão por causa de uma questão que foi levantada durante a manhã sobre o que podemos fazer para melhorar a nossa política de defesa. E o que eu disse foi que na Alemanha sabemos perfeitamente que temos de fazer mais, e que há muito tempo já estamos a fazer mais”, disse a chanceler, evitando nomear o Presidente dos EUA.

Não se falou de Putin

Na sua conferência de imprensa, entre outras considerações mais ou menos relacionadas com as matérias de defesa e segurança que se tratam na NATO, Trump voltou uma e outra vez à questão da partilha de custos e responsabilidades entre os vários aliados — e também à sua recente obsessão com o gasoduto Nord Stream-2 que liga a Rússia à Alemanha, que na véspera o levara a dirigir duras críticas à chanceler e a acusar o Governo de Berlim de estar “cativo” dos interesses do Kremlin. “Não gosto do pipeline da Alemanha, esse é um problema que ainda vamos ter de resolver”, admitiu Trump, que terá insistido, à porta fechada, que a chanceler respondesse ao seu apelo. “Angela, tens de fazer alguma coisa”, reclamou.

Com a sua birra, o Presidente dos EUA conseguiu evitar que a sua polémica reunião a sós com o homólogo russo Vladimir Putin, na segunda-feira em Helsínquia, dominasse a discussão com os aliados da NATO, que endureceram a sua posição face à Russa depois da anexação da Crimeia e da intervenção de Moscovo na Ucrânia. Ao contrário de muitos dos seus aliados, Trump repetiu que Putin não é seu inimigo — chegou mesmo a desejar que, no fim da cimeira na Finlândia, pudesse começar a tratá-lo por amigo. “Das poucas vezes que falei com ele demo-nos muito bem, mas precisamos de conhecer-nos melhor”, considerou.

Depois de lançar a confusão em Bruxelas, Trump partiu para Londres, onde já sabe que terá à espera milhares de manifestantes em protesto contra a sua visita. “Vai ser divertido”, antecipou, prometendo reforçar a sua mensagem anti-imigração na capital britânica. “Essa é uma mensagem muito forte. Foi por causa dela que ganhei as eleições, e penso que no reino Unido as pessoas concordam comigo. Foi por isso que votaram no ‘Brexit’. E eu vou avisar que têm de ter muito cuidado com a imigração, que está a tomar conta da Europa”, concluiu.