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Paulo Pimenta
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Tem nome de ave mas não voa: é um barco e move-se a energia solar

Nova proposta de passeios na ria faz-se a bordo de uma embarcação ecológica e silenciosa. E o melhor de tudo? Navega ao longo de canais e esteiros menos conhecidos.

Bem-vindos a bordo do Gaivinha, o barco que promete levar-nos por canais pouco  navegados da ria de Aveiro, ao encontro de uma fauna e flora ímpares e (estranhe-se) no maior dos silêncios. O convite é lançado pela Sterna.pt — mais um nome de uma ave —, que aposta em passeios especialmente vocacionados para a observação de paisagens e aves no seu habitat natural. Para levar a proposta a bom porto, a empresa turística aveirense recorre a uma embarcação totalmente movida a energia solar — é um dos barcos produzidos pela Sun Concept, empresa sediada no Algarve —, com vantagens para o meio ambiente e muito particularmente para o birdwatching.

“Já estamos a navegar. E este será o único barulho que irão ouvir”, avisa Gabriel Conceição, o skipper e guia de serviço, aludindo ao som do casco da embarcação a rasgar a água. Do motor, nem um sinal. Silêncio absoluto — tão absoluto que quando nos cruzamos com uma ou outra lancha movida a motor de combustão não conseguimos esconder o sorriso amarelo. A propulsão do Gaivinha é assegurada por um motor eléctrico, movido por sete baterias alimentadas por seis painéis solares. “Tem uma autonomia para nove horas a navegar, sem carregar”, acrescenta o nosso guia.

Outra das grandes mais-valias deste pequeno barco — ainda assim, com capacidade para 10 pessoas — reside nas características do seu casco: com um calado de apenas 40 centímetros, consegue ir a zonas da laguna aveirense inalcançáveis a muitas embarcações. O resultado? Poderá navegar por esteiros e canais que poucos conhecem e avistar paisagens naturais surpreendentes.

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Tivemos a sorte de partilhar esta aventura a bordo do Gaivinha com vários biólogos da Universidade de Aveiro, alguns deles bastante habituados a andar por aquelas águas a desenvolver trabalho de campo. “Mas em passeio é sempre melhor. E ainda mais com um barco movido a energia solar”, afiança Sizenando Abreu, um dos investigadores convidados para a viagem do primeiro domingo deste Verão. Juntamente com ele vieram também Ângela Cunha, Helena Silva e Sérgio Marques. E Cristina Ançã, técnica de radiologia, que veio por arrasto, desafiada pela amiga Helena — ainda bem, pensamos nós: assim já não somos os únicos pouco entendidos na matéria. “No fundo, somos todos apreciadores da beleza da ria”, resume Ângela.

Feitas as apresentações, prosseguimos viagem, entrando pela laguna adentro (talvez o termo nunca tenha feito tanto sentido), longe dos principais canais. “Este é esteiro do Gramato e para navegar aqui é preciso perícia”, nota Gabriel Conceição, com humor. À falta de sinalização marítima, enterraram-se uns paus no fundo para identificar as zonas de perigo — é uma espécie de sinalização feita por e para marinheiros “residentes”. “Estamos com apenas um metro de profundidade”, alerta o skipper, numa altura em que começamos, também, a avistar as primeiras aves (a primeira que identificámos foi uma garça cinzenta) e outras coisas mais — um tanto ou quanto excêntricas. Algumas das construções que estão implantadas na ria — eram os antigos palheiros de apoio às marinhas de sal — parecem querer, à viva força, dar nas vistas. Exemplos? Há uma que tem um azulejo de cada cor e feitio (será difícil encontrar desenhos repetidos), outra que, além de apostar na diversidade de azulejos, instalou garrafões a servir de defensas no cais. E o melhor de tudo: o nome da marinha começou a ser pintado numa parede, mas só terminou na seguinte (ficou “Espaven”, de um lado, e o “ta”, no outro). Sim, esta é uma ria de Aveiro que nem todas as pessoas conhecem — até mesmo algumas que nasceram e vivem à volta das suas margens.

Encontro da água salgada com a água doce

“Estão a ver aquelas aves a saírem da barreira de terra? São andorinhas-das-barreiras”, explica o nosso guia. Já era conhecedor da ria há muitos anos — muito por força da sua ligação à vela e, mais recentemente, também ao stand up paddle — , mas o trabalho que tem vindo a desenvolver junto de verdadeiros aficionados de birdwatching tem funcionado, para Gabriel Conceição, como uma espécie de curso intensivo. “Entre as aves mais avistadas estão o milhafre negro, a águia-sapeira, o corvo-marinho, a garça-vermelha, maçarico-das-rochas, pernalonga, pato-real, maçarico-galego ou o maçarico-de-bico-direito”, desvenda.

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Sem darmos por isso, entramos nas águas do rio Novo do Príncipe — último troço do rio Vouga, que desagua na ria —, onde, a cada Verão, é construído um açude temporário. “No Inverno têm de o tirar, porque o caudal do rio aumenta”, nota o nosso guia. Nas margens, alguns pescadores lúdicos vão tentando a sorte (à procura de robalo), de cana na mão.

O Gaivinha conduz-nos, depois, até ao esteiro das Duas Águas, onde “se encontram a água doce e a salgada”, explica Gabriel Conceição, que acabaria por ser interrompido pelo assobio de um maçarico-real. Antes de a viagem terminar ainda teremos a possibilidade de avistar uma garça-vermelha — na verdade, conseguimos estar a escassos metros dela — e uma sterna. E temos uma grande vantagem: além de binóculos, a bordo há três exemplares do Guia de Aves das Dunas de São Jacinto (dá para esclarecer dúvidas e ficar a conhecer um pouco melhor cada espécie).

Quase a chegar ao cais da secção náutica do Clube dos Galitos — localizado na zona da antiga Lota de Aveiro — fica a sensação que duas horas passaram a voar. E o desejo de voltar àquelas águas para explorar uma laguna que mais parece um labirinto — acredite: há por ali um verdadeiro emaranhado de canais e esteiros. Com uma extensão de 45 quilómetros e uma largura aproximada de 11 quilómetros, a ria de Aveiro tem muito para explorar e disso é exemplo a variedade de propostas de passeios turísticos promovidos pela Sterna.pt (ver caixa).

A partir da experiência que viveram naquele primeiro domingo de Verão, a bordo do Gaivinha, os biólogos Sizenando, Sérgio, Ângela e Helena dão o seu aval a esta nova proposta turística. “Tem todas as vantagens, tanto para o meio ambiente, como para os passageiros. A sensação de estar a ver a fauna em silêncio é logo outra”, avaliam os especialistas. “Só ficou a faltar o gin”, atiram, em jeito de brincadeira. Gabriel Conceição responde a sério, com a promessa de lhes proporcionar esse serviço extra numa próxima viagem. Em copos reutilizáveis, claro está — porque este é um barco amigo do ambiente — e com bebidas produzidas na região: espumante da Bairrada (M&M) e cerveja artesanal com salicórnia (Armazém da Alfândega).