Editorial

Valha-nos Merkel

Trump ameaça o comércio livre e o desenvolvimento económico e é um permanente perigo para a UE.

A guerra comercial desenterrada por Donald Trump não se vai ficar pelo aço e pelo alumínio, pelo Canadá, México, China ou União Europeia. Não deixa de ser irónico que a China, que demorou 15 anos a negociar a sua entrada na Organização Mundial do Comércio — que só se concretizou em 2001 —, seja a principal voz contra o proteccionismo económico. A cimeira da NATO que começa esta quarta-feira em Bruxelas tem tudo para acabar mal. E o encontro em Helsínquia com Vladimir Putin tem tudo para que a União Europeia (ou parte dela) desconfie ainda mais das intenções dos EUA. Trump tanto está a pôr termo a qualquer noção de comércio livre como a destruir qualquer laivo de multilateralismo. Como escreveu Ricardo Cabral no PÚBLICO, a actual guerra comercial é o fim de uma era de “comércio livre sob a égide da OMC” e parte do défice comercial dos EUA deve-se à deslocalização da produção para países como a China, tema caro a um eleitorado seduzido pelo simplismo do “America first”.

Trump terá sido o primeiro Presidente dos EUA a considerar obsoleta uma aliança atlântica, 70 anos após a sua fundação, que moldou a história mundial das últimas décadas e que foi o sustento do seu predomínio, mas não foi o primeiro a exigir que os países-membros aumentassem o seu orçamento de defesa. Obama e Bush fizeram-no também. É inegável que a Europa não se defende sozinha e que lhe falta capacidade de resposta para eventuais incursões russas. O paradoxo está à vista. A capacidade militar russa é significativamente superior ao tamanho da sua economia, comparável à da Itália, quando os países europeus são, no seu conjunto, quem gasta mais em armamento logo a seguir aos EUA. O “Brexit” também não é uma jogada de grande utilidade neste xadrez.

O pior que poderia acontecer era que a cimeira da NATO tivesse um desfecho semelhante ao do G7, no Canadá, e que o encontro de Putin fosse uma reunião de siameses, com as inevitáveis consequências numa Europa desunida e na qual não lhe faltam seguidores. Um Putin encorajado e inimputável quando olha para lá da Crimeia e que partilha com Trump a vontade de estraçalhar a UE é a última ameaça de que esta necessita.

Trump ameaça o comércio livre e o desenvolvimento económico e é um permanente perigo para a UE. Neste quadro, nem é possível definir o que é um aliado nem o que é um inimigo. Valha-nos Merkel.