Presidente da CP admite alugar mais comboios à espanhola Renfe

Para minimizar a falta de material circulante CP deverá alugar mais comboios a Espanha e lançar concursos internacionais para a manutenção.

Janela, fachada
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guilherme marques

Carlos Nogueira, presidente da CP, disse esta quarta-feira no Parlamento que pretende reforçar o aluguer de comboios à Renfe para além das 20 automotoras espanholas que actualmente já estão ao serviço da CP.

O gestor respondeu assim às perguntas dos deputados de todos os partidos sobre a falta de material circulante durante um debate que se realizou no Parlamento, promovido pela Comissão de Economia, Inovação e Obras Públicas destinado a discutir os transportes públicos.

Carlos Nogueira reconheceu que tem um problema grave na empresa relacionado com a frota, adiantando que a idade média dos seus comboios é de 55 anos (em rigor, porém, será de 40 anos) e que não tem pessoal suficiente na EMEF (empresa participada) para os manter operacionais.

Em relação a esta última, o administrador disse que encara a hipótese de “realizar concursos internacionais para fazer a manutenção e reparação noutras geografias”.

Alertou, porém, que qualquer destas situações não resolve o problema de imediato pois, no caso do material espanhol (a Espanha é o único país na Europa que tem comboios com a mesma bitola de Portugal) é necessário um processo de homologação que é moroso.

Quanto à compra de novos comboios, Carlos Nogueira passou a bola para a tutela, limitando-se a comunicar que o caderno de encargos está feito e que o concurso público “só precisa de luz verde do Governo para avançar”.

Até lá a CP não tem mais alternativas que continuar a suprimir comboios e a reduzir a sua oferta regular, como irá acontecer já a partir de Agosto.

Uma das linhas para as quais já se conhece a dimensão dos cortes é a do Douro, o que levantou protestos de vários deputados durante o debate por ocorrerem precisamente no pico do Verão quando há mais turistas a visitarem a região e a utilizarem o transporte ferroviário.

O Douro acabaria por entrar na agenda política com Luís Ramos, deputado do PSD, a referir-se a um estudo da Infraestruturas de Portugal que demonstra a viabilidade da reabertura do troço Pocinho – Barco de Alva.

Manuel Tão, professor da Unidade do Algarve e especialista em Transportes, disse que a elevada procura actual daquela linha “não se devia às mega metrópoles da cidade da Régua e da vila do Pinhão”, mas sim ao interesse turístico do vale do Douro que tem atraído multidões, comparando-o ao Vale do Mosel, entre o Luxemburgo e a Alemanha. “A linha do Douro fechada [para Espanha] representa o falhanço da integração europeia”, disse.

Também António Sales (PS), que foi um dos deputados mais acutilantes nas críticas à CP, se referiu ao estudo da linha do Douro e informou que iria requerer a presença de Carlos Nogueira no Parlamento para explicar as supressões, a redução da oferta e a falta de material.

A linha das Cascais atravessou também todo o debate, tendo o tiro de partido sido dado por Nuno Gusmão, vice-presidente da distrital do CDS de Lisboa e ele próprio maquinista da CP, que alertou para o facto de a modernização da linha e a compra de novos comboios já “serem urgentes há cinco ou seis atrás”, não compreendendo por que não foram, no entretanto, encontradas soluções. Álvaro Costa, da Faculdade de Engenharia da Faculdade do Porto, enfatizou que “Cascais não se pode adiar” e que os investimentos devem ser feitos pelo valor que criam e não motivados por questões ideológicas.

Bruno Dias, do PCP, alertou para a situação bizarra da estação de Alcântara-Terra estar fechada aos fins-de-semana e enfatizou que o material circulante é “o” problema da CP, que, para procurar resolvê-lo não consegue melhor do que retirar oferta e suprimir comboios.

No rol das queixas sobre o mau estado da ferrovia em Portugal, também a deputada Fátima Ramos (PSD) apresentou o exemplo do ramal da Lousã, que funcionava normalmente e que fechou para obras “pelo governo de Sócrates” a fim de ser transformado no Metro Mondego, sem planeamento adequado. Dez anos depois não há solução para aquela linha.

Cercado por perguntas, Carlos Nogueira, limitou-se a dizer que “a situação é difícil, mas a gestão da CP está a fazer o seu melhor”, relevando, contudo, que mesmo assim a empresa cresceu em passageiros e em receitas no primeiro semestre de 2018. “Se tivéssemos mais capacidade em material circulante, mais passageiros teríamos”, concluiu.