Reportagem

A quinta nómada que passa metade do ano em Barcelos e a outra na Tailândia

Aborrecem-se rápido, precisam de novos estímulos e aprendizagens diárias — como as que têm numa quinta onde passam o Verão português, sempre com desconhecidos. Quando chega o Inverno, partem para a Ásia, sempre com novos amigos. O escritório de Marina e António vai na mochila, já não tem morada fixa.

Aborreceram-se os dois muito cedo. Cansaram-se de acabar um dia e de o ver a repetir-se, qual déjà vu, no dia a seguir. Sempre os mesmos caminhos para chegar ao mesmo destino. Tudo a passar-se exactamente no mesmo escritório, à mesma exacta hora. Com as mesmas caras. Sentados lado a lado, António Araújo e Marina Arantes, 28 e 26 anos, dizem-no em coro: “Não era para nós.”

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Ela, farmacêutica, pensava em despedir-se de cada vez que entrava na farmácia onde trabalhava, em Belinho, uma aldeia em Esposende a meia hora do centro de Barcelos. “Tentei entrar lá ainda antes de terminar o curso para perceber o que era o mundo da farmacêutica e aborreci-me muito cedo. Foi o que aconteceu”, ri-se.

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Ele, engenheiro electrotécnico, estudou no Porto, foi trabalhar para a Bélgica. Seis meses depois, já se tinha despedido e mudado para a Tailândia. O “objectivo era começar a trabalhar online durante um ano e meio”. Até agora ainda não parou.

Por essa altura, a hipótese de um emprego independente, remoto, ainda não se tinha atravessado no pensamento de Marina Arantes. Mas desde que António Araújo se atravessou no seu caminho, com um plano já em marcha, não muito longe de onde ela vivia e trabalhava, que não pensa noutra coisa. Três meses depois de se conhecerem, também ela se despedia.

Ela nasceu em Esposende, ele em Guimarães. Mas encontraram-se a meio do caminho, Barcelos, através do Tinder — “toda a gente nos diz que devemos ser caso único” —, onde António começava a reabilitar a quinta da família na freguesia de Barcelinhos, com a ajuda de um grupo de estrangeiros. É lá, num jardim enorme em frente ao casarão vermelho vivo, sempre com o som dos pássaros como fundo, que falam com o P3. “Quando aqui entrei achei que estava no mundo errado”, atira Marina. “O que é que eu estou a fazer ali na farmácia? Comecei a vir cá [à quinta] cada vez mais vezes e preferia isto a ir trabalhar.” A partir daí, ir trabalhar “começou a ser cada vez mais difícil”.

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Vista aérea da quinta em Barcelos que António Araújo decidiu reabilitar THE NOMAD FARM

Agora, ela dá cursos online sobre marketing, Instagram (reúnem 166 mil seguidores nesta rede) e TripAdvisor. Ele escreve guias de viagem no site 55secrets e, juntamente com Marina, é instrutor de marketing digital. É daí que chegam os rendimentos mensais dos dois trabalhadores independentes. Não precisar de mais do que um computador com ligação à internet para trabalhar dá-lhes liberdade para viverem onde quiserem. Não é uma rotina rígida, mas nos últimos três anos têm-se dividido mais ou menos assim: seis meses em Portugal e seis meses na Ásia. Pelo meio tentam viajar "o máximo possível". “Não gostamos muito do Inverno”, confessa António. “Por isso estamos na quinta de Abril a Setembro e quando começa a ficar frio vamos embora para destinos mais quentes.” Marina só se ri. Já não está aborrecida.

Morar com desconhecidos como se fossem família

A casa portuguesa do casal, agora reabilitada e com habitantes que mudam de Verão para Verão, “estava praticamente em ruínas” depois de mais de 20 anos de total abandono. Não tinha frigorífico ou casa de banho, tinha problemas de canalização, buracos no chão. António decidiu que iria recuperar a casa onde o pai nasceu depois de saber, enquanto trabalhava e viajava pela Ásia, que o pai estava doente. “Eu decidi voltar porque queria estar perto da minha família. Mas não queria voltar para o Porto, nem queria morar na cidade.”

Desde pequeno que via o pai vir, uma vez por mês, cuidar dos jardins, cortar a relva. “Só para isto não se transformar numa selva.” Por falta de tempo, nunca cuidava da casa.

Há três anos, António chegou-se à frente. “Decidi recuperar a quinta. E como estava habituado a viver fora, queria ter pessoas estrangeiras a ajudar.” Até lhe deu um nome, como se fosse mais um dos seus projectos: The  Nomad  Farm (em português, a quinta nómada). A quinta tem uma vespa e uma autocaravana estacionada à porta, comprada recentemente, para uma viagem de dois meses pela Europa. Há flores por todo o lado, uma horta, uma piscina e um grelhador. Os quartos têm mandalas desenhadas e murais em inglês, pintados de cores vivas. Os móveis de madeira antigos revestem-se de computadores e máquinas de filmar. À entrada, foram pousadas mochilas de 20 quilogramas e botas de montanha. Pelo "refúgio para almas nómadas de todo o mundo" já deverão ter passado mais de 50 pessoas.

António Araújo e Marina Arantes com Zau Teresa Pacheco Miranda

Os primeiros dois meses “foram os mais complicados”. Só tinham o básico: faltava pintar e remodelar tudo (inclusive os próprios móveis). No segundo ano, quando voltaram, o objectivo já não era arranjar a quinta mas sim viver e trabalhar lá. Morar com pessoas desconhecidas e partilhar tudo como se fôssemos família”, resume. “E no fim ganhar novos amigos.”

As tarefas dividem-se entre todos e estão terminadas ao fim de uma hora: arrumar a área comum, regar as plantas, alimentar os animais (cães, uma cabra anã e algumas aves), cozinhar. Comem sempre juntos, saem à noite e tentam fazer uma viagem por semana. Porto, Gerês, o caminho de Santiago. À quinta-feira é dia de churrasco. Em troca, cada um tem direito a um quarto gratuito, despesas incluídas.

Normalmente, os colegas de casa que encontram através do Facebook e do couchsurfing — no primeiro ano apareceram 200 candidatos, dos quais foram seleccionados três — são nómadas digitais que procuram uma coabitação fora dos grandes centros para desenvolver os projectos que carregam sempre na mochila, independentemente da localização flexível.

Mais do que um espaço de coliving

“É diferente de um espaço de coworking devido ao sentimento de comunidade. É coliving, mas são boas amizades. Nos outros espaços só partilhas uma secretária”, diz Stephanie Morrison, de Liverpool, licenciada em matemática, que voltou este ano à quinta para aprender a programar.

“É bom viver com pessoas que tenham o mesmo espírito de trabalho, mas ao mesmo tempo é ainda mais solitário, por vezes”, confessa Marina Arantes. “Porque trabalhar online é solitário. Se estivermos mesmo a trabalhar, ao computador, não há interacção social.” Por ali, “procuram um equilibro”, acha António. Metade trabalhadores remotos, metade “pessoas que acabaram de se despedir e estão à procura do que vão fazer a seguir". "Caso contrário temos todos a mesma forma de pensar e acaba por se perder o espírito de entreajuda e de quinta, que é o mais importante para nós.”

Joey Sandim, de Portland, Estados Unidos, já voltou para casa. “O dinheiro para viajar acabou”, diz-nos, com um encolher de ombros, o chef norte-americano. No mesmo dia, também Melissa, uma blogger de viagens canadiana que veio só de visita, partia para o próximo destino: a Holanda. Anda a viajar desde 2014.

Ao grupo juntava-se Julia Borke, uma alemã que tirou férias sem vencimento da empresa do ramo da moda onde é gerente de marketing. “As coisas não estavam bem na empresa”, explica. “Eu não me sentia bem e isto parecia perfeito, como se fosse um reset, sair da cidade por algum tempo.” O tempo que ali passou serviu para decidir o próximo passo. Vai voltar à empresa, mas o plano a médio prazo “é sair e dedicar-se ao fitness”. Em Barcelos, corre todos os dias e, pela primeira vez, ganhou coragem para percorrer os 21 quilómetros da meia maratona de Esposende.

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Julia Borke, alemã, a regar o jardim da quinta, uma das tarefas diárias

Desta vez, quando o casal voltou em Março, António, Marina e os colegas de casa da Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos focaram-se na agricultura. “Queremos começar a plantar as nossas próprias sementes, o nosso jardim.” Todas as quintas-feiras visitavam o mercado local e traziam as sementes. Marina aprendeu com a mãe a cultivá-las; António passava horas a ver tutoriais no YouTube. E as cenouras e o alho francês cresceram, em quadradinhos ordenados de terreno que visitam antes de cozinharem cada refeição. “Nós temos uma característica: aborrecemo-nos muito facilmente com tudo. E acho que aprender o que quer que seja de novo, para nós desperta-nos curiosidade e estamos muito interessados”, dizem, quase em conjunto. Na quinta, “há muitas oportunidades para fazer coisas diferentes e óbvias todos os dias”.

Em Agosto deixam Barcelos, mas despedem-se sempre com um “até para o ano”. Ainda ninguém se queixa de estar aborrecido. “E isso é o mais importante.”