Viúva de Liu Xiaobo saiu da China rumo ao exílio na Alemanha

Liu Xia encontrava-se em prisão domiciliária em Pequim desde que o marido foi distinguido com o Nobel da Paz em 2010. Partiu esta terça-feira para o exílio, na Alemanha.

Liu Xia com Liu Xiaobo numa fotografia não datada
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Liu Xia com Liu Xiaobo numa fotografia não datada Reuters

Liu Xia, viúva do Prémio Nobel da Paz 2010, Liu Xiaobo (1955-2017), deixou finalmente a prisão domiciliária a que estava confinada em Pequim, e viajou nesta terça-feira para a Alemanha.

A notícia foi divulgada por amigos da poeta e artista chinesa de 57 anos, e confirmada oficialmente – diz o jornal francês Le Monde – pelo ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, que disse que Liu Xia partira para a Alemanha para fazer “tratamento médico”.

Se é verdade que a viúva de Xiaobo padecia de uma grande depressão, já que se encontrava em prisão domiciliária e sem possibilidade de contactar com o exterior desde 2010, ano em que o seu marido foi galardoado com o Nobel da Paz, o mais provável é que Liu Xia vá viver como exilada política na Alemanha.

No início de Maio, a poeta e artista fez saber que estava disposta a morrer em sua casa, em protesto contra a sua prisão. “Não há nada a temer, agora. Se eu não puder ir-me embora, morrerei em minha casa. Xiaobo já partiu, não há nada mais a ligar-me a este mundo”, disse então Liu Xia numa carta endereçada ao amigo e poeta exilado na Alemanha Liao Yiwu, e que este então publicou num jornal de Hong Kong, o South China Morning Post.

Era mais um gesto a engrossar a pressão internacional pela libertação de Xia, depois de em Novembro de 2017 meia centena de escritores, entre os quais Philip Roth, Margaret Atwood, Tom Stoppard ou George Saunders, terem subscrito uma carta aberta dirigida ao Presidente Xi Jinping, promovida pelo PEN americano, com esse objectivo.

Mais recentemente, terá sido a intervenção directa da chanceler alemã Angela Merkel a determinar a libertação e partida para o exílio de Liu Xia. Merkel não só levou a questão em mãos às autoridades chinesas, aquando da visita que fez a este país em Maio, como insistiu nela no início desta semana, ao receber em Berlim o primeiro-ministro chinês Li Keqiang.

Depois de longos meses de negociação, Liu Xia partiu finalmente, a bordo de um avião da Finnair. Chegou a Berlim três dias antes de se assinalar o primeiro aniversário da morte de Liu Xiaobo, data – sexta-feira, 13 – para a qual está prevista uma manifestação de homenagem na capital alemã, em memória do escritor e activista desaparecido.

Liu Xiaobo fora condenado por subversão, em 2009, a 11 anos de prisão, após ter apelado a reformas democráticas na China – fora um dos subscritores do manifesto que ficou conhecido como Carta 08, em que três centenas de intelectuais e activistas pelos direitos humanos reivindicavam reformas políticas na República Popular da China.

Xiaobo viria a morrer a 13 de Julho de 2017, aos 61 anos, com um cancro, num hospital de Liaoning, semanas depois de ter sido colocado em liberdade condicional por razões de saúde.

Ainda segundo o Le Monde, a negociação do exílio de Liu Xia pode ter obrigado a viúva de Xiaobo a uma cláusula de silêncio, já que o irmão mais novo, Liu Hui, permanece na China e numa situação de vulnerabilidade – em 2013 foi condenado a prisão por delitos de ordem comercial, e depois colocado em regime de liberdade condicional.

Liu Hui foi, de resto, dos primeiros a felicitarem a irmã pela libertação: “A minha irmã voou para a Europa ao meio-dia, e vai começar uma vida nova. Obrigado a todos aqueles que se preocuparam com ela e a ajudaram durante todos estes anos. Espero, de todo o meu coração, que ela fique agora em segurança e de boa saúde para o resto dos dias”, escreveu Hui numa mensagem WeChat, citada pelo Le Monde e divulgada pelo advogado da família.