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Birmânia vai mesmo julgar dois jornalistas da Reuters que denunciaram perseguição aos rohingyas

A lei que serve para a acusação dos jornalistas birmaneses data da era colonial.

Kyaw Soe, oficial de polícia
Foto
NYEIN CHAN NAING/EPA

A justiça birmanesa decidiu que vai avançar com o julgamento dos dois jornalistas da agência Reuters acusados de violação de “segredos de Estado” quando fizeram uma investigação sobre a “limpeza étnica” da minoria rohingya.

Wa Lone, de 31 anos, e Kyaw Soe Oo, de 27, foram detidos em 12 de Dezembro por terem adquirido “documentos secretos importantes” a dois polícias – a lei que serve à sua acusação data da época colonial. Se condenados, incorrem numa pena de até 14 anos de prisão.

Na investigação que efectuaram, os dois jornalistas citam aldeões budistas que terão participado com soldados no massacre de dez rohingyas cativos na aldeia, em 2 de Setembro de 2017. O trabalho dos jornalistas da Reuters foi baseado em testemunhos de aldeões budistas, membros das forças de segurança e familiares das vítimas.

O Exército reconheceu, em Abril, que os militares fizeram “execuções extrajudiciais” neste caso, sem admitir que se integrava num plano mais amplo de limpeza étnica, como tem sido referido pela ONU.

Alguns dias após a detenção dos dois jornalistas birmaneses, em Dezembro de 2017, o Exército reconheceu que soldados e camponeses budistas tinham morto a sangue-frio rohingyas que estavam detidos, na primeira confissão pública após meses de desmentidos.

A Birmânia tem estado em convulsão após as acusações de limpezas étnicas feitas pela ONU, na sequência de uma vasta operação do Exército no Oeste do país, argumentando que se tratou de uma resposta aos ataques de uma rebelião rohingya em Agosto de 2017.

Cerca de 700 mil muçulmanos rohingyas que viviam nesta região refugiaram-se no vizinho Bangladesh desde Agosto de 2017 e acusaram os militares e as milícias budistas de crimes, incluindo violações, tortura e mortes.

Os rohingyas são o alvo de um movimento nacionalista budista, muito implantado na Birmânia, que os considera uma ameaça. O próprio Governo da Prémio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi tem sido relacionado com este ódio anti-rohingya, muito instrumentalizado pela hierarquia das Forças Armadas.

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