MS01. Este móvel é do tamanho do centro histórico

As 16 gavetas do armário interactivo que está no Convento São Francisco até Setembro contêm paisagens sonoras da cidade

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É comum que o acto de abrir uma gaveta tenha como móbil a procura de um determinado objecto. As gavetas do Mobiliário Sonoro 01 (MS01), instalado numa das salas do Convento São Francisco, em Coimbra, são de outra natureza. Estão fisicamente vazias, mas a interacção com o armário tem como efeito o transporte para o centro histórico da cidade. 

Cada uma das 16 gavetas contém a paisagem sonora, sendo que é projectada na parede uma imagem que corresponde ao local onde foi captada. A amplitude de abertura da gaveta determina o ganho do som e a opacidade da imagem, explica Pedro Martins, músico e académico do Computational Design and Visualization Lab do Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra (CISUC). 

O MS01 nasce de uma parceria entre o serviço educativo do Jazz ao Centro Clube (JACC) e o laboratório do CISUC, tendo como base o Arquivo Sonoro do Centro Histórico de Coimbra (ASCHC), que é dirigido pelo paisagista sonoro Luís Antero. “Queríamos encontrar uma forma de tornar o arquivo sonoro acessível ao público”, explica Catarina Pires do JACC. 

Luís Antero refere que uma gaveta pode ter várias paisagens associadas, mas que cada corresponde a um ponto geográfico do miolo da cidade. No móvel cabe apenas uma curta selecção – cerca de 40 ficheiros sonoros, estima - daquilo que tem sido o trabalho de recolha de paisagens do centro histórico. A única linha condutora é exactamente essa: ouvir o que ouve quem anda pelas ruas. Uma das gavetas convida a um passeio sonoro pela rua Ferreira Borges, uma das principais vias pedonais da Baixa, outra transporta para as margens do Mondego e outras passam por pontos como a Praça do Comércio ou o Pátio das Escolas, aos pés da torre da universidade. 

Apesar do aspecto robusto do paralelepípedo desenhado por João Bicker, do atelier FBA, a singularidade do MS01 reside menos no obra de marcenaria e mais na tecnologia que a ocupa. A Tiago Martins coube o papel de lhe desenhar “as entranhas”. No interior da caixa de madeira visível estão sensores e um micro-controlador, que depois terá de ser ligado a um computador para que os sons sejam reproduzidos, descreve o cross-media designer e docente da Faculdade de Ciências e Tecnologias da UC na área do design gráfico computacional. Há um sensor por cada gaveta, o que permite regular o som e a imagem. “No limite, conseguimos ter as 16 abertas, mas eu não aconselhava isso. Seria como sobrevoar Coimbra e ter sensibilidade a tudo o que é espaço”, compara. 

Este “armário com sons dentro”, que está disponível até ao início de Setembro, “possibilita abrir várias gavetas ao mesmo tempo e sobrepor imagens, com níveis de opacidades diferentes”, descreve Pedro Martins. É isso que o também docente da FCTUC tem explorado, acompanhando à guitarra as performances com Luís Antero. O primeiro concerto foi no dia 1 de Julho, o próximo é no dia 23 de Agosto. “A massa sonora de uma paisagem pode ser muito densa e combinar isso com guitarra às vezes não é um exercício fácil”, sintetiza. Os concertos têm um carácter experimental e são totalmente improvisados.

O MS01 sucede ao MS00, uma primeira iteracção que esteve instalada no Museu Temporário de Memórias, na Baixa da cidade, em 2016. Em relação à primeira configuração, foram alteradas as paisagens sonoras contidas e acrescentada a projecção de imagens. O móvel está agora disponível no âmbito da programação do Dar a Ouvir, o projecto promovido pelo SE do JACC e pelo Município de Coimbra que decorre entre 1 de Julho e 2 de Setembro, com o objectivo mostrar a cidade através das suas paisagens sonoras. 

O Arquivo Sonoro do Centro Histórico de Coimbra deve conhecer a luz do dia no final de Agosto. O projecto iniciou-se em 2013, ano em que a UNESCO reconheceu a Alta Universitária e a rua da Sofia como património da humanidade, áreas que foram mais tarde foco da captação dos microfones de Luís Antero. “Aquilo que procurei foi a gravação de sons que concorrem para a identidade da cidade”, afirma o paisagista. E a identidade acústica de Coimbra é formada pelo “som da Cabra (sino da torre da universidade), pela estação de comboios, pelo rio, pelo fado, ou pelos sons dos tróleis dos estudantes quando saem dos autocarros e vão para suas casas pela calçada”, exemplifica. Depois há os sons com que “as pessoas coabitam diariamente”, mas aos quais “não dão muita importância, como uma caixa de semáforos a emitir um ruído constante. Impraticável era também escapar ao “fatalismo acústico” da urbe, que torna “impossível”, por exemplo, “gravar qualquer coisa na rua da Sofia sem ser atropelado constantemente pelo ruído do tráfego”.

“Queremos mostrar a importância do som enquanto quotidiano, mas também como memória futura. Há sons que deixam de existir, outros que se transformam. É importante gravá-los e colocá-los em forma de acesso público” defende Luís Antero.