Infiltrações de água e humidade agravam problemas estruturais na Basílica Real de Castro Verde

As chuvadas dos últimos três meses precipitaram o risco de desagregação das paredes do templo de mais de 60 mil azulejos, que retratam, entre outros temas, a batalha de Ourique.

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, Nicola Di Nunzio
Um dos grandes tesouros da basílica são os azulejos no seu interior
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Um dos grandes tesouros da basílica são os azulejos no seu interior

Sucessivos adiamentos nas obras de requalificação da Basílica Real de Castro Verde ao longo dos últimos 15 anos colocaram em causa a integridade de um dos mais importantes monumentos religiosos do Alentejo pela importância do património que permanece no seu interior. E a situação só tem vindo a piorar.

As paredes da basílica encontram-se revestidas com mais de 60 mil azulejos onde se destacam painéis alusivos à vida do primeiro rei de Portugal e ao milagre de Ourique, enquadrados por composições características das oficinas lisboetas de 1730 que teriam sido pintadas pelo famoso mestre P.M.P, pintor de nome convencional que assinava as suas obras com as iniciais que o tornaram conhecido. Muitas têm sido as tentativas para as identificar. Podem corresponder às iniciais do Padre Manuel Pereira, como propõe Luísa Arruda, membro da Faculdade de Belas Artes.

O madeiramento do tecto da igreja, pintado entre 1728-1731, é “um dos mais espantosos exemplos da marcenaria do tempo de D. João V”, descreve ao PÚBLICO José António Falcão, que foi director, entre 1984 e 2017, do extinto Departamento do Património Histórico e Artístico (DPHA) da Diocese de Beja. Mas hoje encontra-se em risco de colapsar. Em momentos distintos já caíram fragmentos durante actos litúrgicos.  

Os sinais de degradação que apresenta podem redundar numa destruição irreparável de património artístico. “Há muitos anos que a basílica não recebe qualquer trabalho de manutenção e agora temos uma estrutura muito degradada”, sintetizou António José Brito, presidente da Câmara de Castro Verde.  

O autarca diz que tem mantido reuniões com a paróquia de Castro Verde “para superar o problema ou minimizar, tanto quanto o possível”, a situação que coloca em causa a segurança de um número crescente de elementos estruturais e o rico património da Basílica Real de Castro Verde. Neste sentido, já existe uma base de entendimento para as duas entidades apresentarem uma candidatura a fundos comunitários que permita superar o impasse. “No imediato, pretendemos acorrer aos problemas maiores a nível da cobertura do templo que se encontra em mau estado”, vinca António José Brito. Prevê-se um investimento de 100 mil euros. Há telhas partidas e ervas, o que explica as infiltrações de água da chuva nas paredes interiores da basílica e consequente descolagem de azulejos.

Trata-se de uma intervenção de recurso que fica muito longe dos 5 milhões de euros que António José Brito diz serem necessários para resolver “todos os problemas estruturais” da basílica, montante que será “muito difícil” obter, admite o autarca.

As apreensões pela situação em que se encontra o templo que foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1993 são partilhadas por Ana Paula Amendoeira, directora regional de Cultura do Alentejo (DRC Alentejo). Mas “como o imóvel é da Igreja, resta à Direcção Regional mediar as partes intervenientes no processo” — a Diocese de Beja e Câmara — até que seja possível consumar uma intervenção no edifício religioso. “Já promovemos várias reuniões para que seja encontrada uma solução, mas o impasse mantém-se. Não está a ser um processo fácil de gerir”, reconhece Ana Paula Amendoeira, apesar de já existir um projecto concluído para a sua recuperação que deveria ter sido candidatado a fundos comunitários através do programa operacional Alentejo 2020. No entanto, o prazo do aviso de concurso terminou sem que a candidatura fosse apresentada pelas duas entidades, inviabilizando assim qualquer tipo de intervenção.

Em declarações ao PÚBLICO, o bispo de Beja, D. João Marcos, confirmou que recebeu indicações da paróquia de Castro Verde de que está a procurar-se “uma forma de acudir, no imediato, aos telhados e pintura exterior”. As intervenções de maior dimensão na basílica de Castro Verde “vão ser analisadas a partir do próximo Verão”, adiantou D. João Marcos e “está programada uma reunião com o ministro da Cultura para breve”, onde será analisada a situação, revelou ainda.

A construção da igreja remonta a 1573, por decisão de D. Sebastião. Mas foi o rei D. João V que depois de ter ordenado a sua reconstrução, que decorreu entre 1727 e 1735, lhe concedeu o título de basílica real em homenagem à vitória do primeiro rei de Portugal — D. Afonso Henriques - sobre os cinco reis Mouros, ocorrida em 1139.