Opinião

Três mitos urbanos sobre nutrição e pseudociência

Azeite de oliva, óleo, óleos de cozinha, azeitona
Foto
Joanna Kosinska/Unsplash

Uma vez que os mitos sobre nutrição e alimentação se propagam à velocidade da luz, o seu contraditório tem de tentar seguir o mesmo ritmo, sobretudo por quem se preocupa em combater a pseudociência.

Existe neste momento uma relação inversa entre a disponibilidade de informação e o sentido crítico. Um bom exemplo disso foi a recente experiência em que água de salsicha não filtrada (sim, leu bem) foi vendida numa feira local no Canadá, a cerca de 40 dólares/garrafa, com a promessa de que auxiliava no emagrecimento, e muitas pessoas de facto compraram! Se ouvir algo do género relativamente à água/sumo de pickle no alívio imediato das cãibras, não desconfie assim tanto, pois, de facto, até existe alguma evidência do seu resultado.

Mas não são destes mitos que vamos hoje falar. Falaremos antes de outros que há mais ou menos tempo existem na nossa cabeça com a dúvida constante sobre se, de facto, serão verdadeiros.

1. O óleo de palma é mesmo cancerígeno?

Esta polémica surgiu há uns anos, associada a um famoso creme de barrar de chocolate rico em óleo de palma, sendo que Portugal, como até é dos países europeus onde a febre da Nutella® não é assim tão afincada, passou um pouco ao lado de tudo isto. O que é verdade e mentira nesta questão? Um relatório de 2016 da EFSA (Agência Europeia de Segurança Alimentar) relatou que um composto potencialmente cancerígeno (éster de glicidol) está mais presente no óleo de palma do que nos outros óleos alimentares. Diga-se, já agora, que a gordura que mais possui este composto, a seguir ao óleo de palma, é a margarina e o óleo de coco e que o azeite está isento do mesmo. Como este creme de chocolate, a seguir aos seus 57% de açúcar, tem óleo de palma como segundo ingrediente, levou por tabela com o epíteto de ser cancerígeno.

Acontece que esse potencial cancerígeno do éster de glicidol foi observado apenas em ratos e não em humanos. A existir algum grupo de risco maior quanto à exposição a este composto, são mesmo os recém-nascidos alimentados exclusivamente com produtos lácteos infantis, uma vez que estes também possuem óleo de palma na sua composição, e, ao contrário dos adultos (que não estão sempre a comer Nutella®), os recém-nascidos cuja mãe não pôde amamentar têm nestes produtos a sua única fonte alimentar diária. Ou seja, os cremes de chocolate (quando consumidos diariamente e em grandes quantidades) vão potencialmente aumentar mais o seu risco de cancro pelo excesso calórico e aumento de peso subsequente do que por qualquer composto lá existente. Se o come muito pontualmente, em crepes, torradas, waffles ou outras preparações, aproveite porque, de facto, ele é delicioso. Mas também é justamente por isso que não o deve ter em casa, sob pena de não resistir ao seu chamamento.

2. Os shots  de erva de trigo realmente oxigenam o nosso sangue?

Por menos “saudável” que pareça, é bem possível que consiga “oxigenar” mais o seu sangue comendo um bom e ensanguentado bife do lombo do que com um shot  verdinho de erva de trigo. Isto porque a proteína que transporta o oxigénio nos nossos glóbulos vermelhos é a hemoglobina e uma alimentação cronicamente pobre em ferro pode fazer com que os seus valores diminuam. A erva de trigo é, de facto, rica em clorofila, mas como os humanos não são plantas, não conseguem realizar a fotossíntese e criar oxigénio dessa forma. Por isso, da próxima vez que ouvir uma figura pública promover esses shots, dê um desconto, porque, de facto, qualquer um de nós pode ser muito bom na sua área de especialidade, mas cometer umas argoladas quando tenta falar do que não sabe. Tal como na história do Pedro e o Lobo, uma ênfase excessiva sobre propriedades que estes “superalimentos” não têm fazem-nos cair no ridículo e desacreditar as propriedades que eles realmente têm. E a erva de trigo até tem algumas propriedades interessantes para a saúde, que não incluem oxigenar o sangue. Em primeiro lugar olhando para a sua composição nutricional, a erva de trigo possui grandes quantidades de vitamina E, B1, B2, B3, B6 e também zinco e cobre, mesmo numa porção pequena (4g). A suplementação nestas doses durante dez semanas levou a uma redução modesta (5%) no colesterol total e “mau” colesterol e uma redução maior (10%) nos triglicerídeos, num dos únicos estudos de intervenção em humanos com a erva de trigo. Isto quer dizer que não é um shot milagroso, nem terá nenhum impacto na perda de peso (que, bem lá no fundo, é do que muitas pessoas estão à espera), mas que há hábitos muito piores que se têm na alimentação do que este, e quem o faz não merece de forma nenhuma ser censurado.

3. O micro-ondas tira as vitaminas aos nossos alimentos?

A confecção de qualquer alimento, quer pela exposição à água, quer pelas elevadas temperaturas, faz com que inevitavelmente existam perdas nutricionais em relação à sua versão crua. Ainda assim, o método de confecção que melhor preserva as vitaminas é aquele que cozinha rapidamente, aquece os alimentos da forma mais rápida e com o mínimo de água possível. O micro-ondas cumpre todos esses critérios. As altas temperaturas por vezes destroem as vitaminas, mas o micro-ondas consegue justamente elevar a temperatura do alimento mais rapidamente do que o forno e, como tal, a exposição a temperaturas elevadas é muito menor e a perda vitamínica também. Na comparação de diversos métodos de confecção e particularmente nos legumes, é consensual que cozer em água é sempre o método que promove uma perda nutricional maior. Como nos dias de hoje a praticidade e conveniência na preparação de refeições saudáveis são aspectos decisivos, o micro-ondas é um excelente aliado, desde que não se descure outra questão importante, que tem a ver com a migração dos recipientes de plástico de alguns “disruptores endócrinos” como o bisfenol-a e os ftalatos. Por isso, sempre que utilizar o micro-ondas, preocupe-se mais com a utilização de recipientes de vidro ou cerâmica em vez de plástico e desfrute da refeição de consciência tranquila.