Opinião

Os novos sonâmbulos da política portuguesa

A reedição da actual fórmula governativa depois das legislativas será, tudo leva a crer, irrepetível.

Já aqui citei diversas vezes Os Sonâmbulos, do historiador australiano Christopher Clark, como uma das metáforas políticas mais inspiradoras que se escreveram neste século. Apesar de ter como objecto a Grande Guerra de 1914-18 e os percursos feitos pelos líderes europeus desse tempo em direcção a uma das maiores carnificinas da história humana, o livro de Clark tem revelado uma acuidade perturbante em relação a muitas outras situações posteriores e ao ambiente mundial e europeu da actualidade – desde a imprevisibilidade de personagens como Trump ou Putin até aos riscos de desagregação que enfrenta a Europa.

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O que está em causa desta vez tem um âmbito mais modesto e bem menos assustador mas, mesmo assim, sintomático de outra forma evidente de sonambulismo: o da política portuguesa dos nossos dias. Basta observarmos o actual funcionamento (ou, mais exactamente, a disfuncionalidade) dos partidos da "geringonça" e seus opositores para concluirmos que o comportamento dos diversos protagonistas e figurantes só se pode explicar por "movimentos automáticos que se produzem durante o sono natural ou provocado" (cf. Novo Dicionário Lello).

A um ano e meio das eleições legislativas e a menos de um ano das eleições para o Parlamento Europeu – que, adiante-se, ameaçam ter efeitos verdadeiramente devastadores na paisagem política europeia – o Governo socialista, apresentado até aqui como uma singular referência de estabilidade a nível internacional, parece ver a sua base de apoio parlamentar posta em xeque, pelo menos como nunca o fora até agora. Embora seja duvidoso que o PCP e o BE impeçam a aprovação do próximo Orçamento (com a abstenção de uns e o voto constrangido de outros), a reedição da actual fórmula governativa depois das legislativas será, tudo leva a crer, irrepetível. E o PS, enquanto se manifestam já sinais de divisão entre o Governo e o respectivo grupo parlamentar, revela-se refém de um tacticismo à beira do esgotamento: por um lado, simula continuar fiel à "geringonça", mas, por outro, mostra-se inamovível nos seus compromissos com Bruxelas (o que o BE e sobretudo o PCP se recusam cada vez mais a aceitar, embora sem proporem alternativas viáveis no actual quadro europeu, para além das habituais proclamações ideológicas que, no caso dos comunistas, parecem saídas dos manuais mais arcaicos do marxismo-leninismo).

Ora, estas manifestações de sonambulismo dentro da "geringonça" cruzam-se com outra: a do PSD, em que a presidência de Rio é cada vez mais questionada internamente devido aos sinais de aproximação ao PS e à perspectiva de um novo "bloco central" rejeitado formalmente pelas lideranças socialista e social-democrata mas sugerido por diversas convergências (sendo a última a legislação laboral, tão asperamente contestada pelo PCP e pelo BE mas também causadora de mal-estar no grupo parlamentar socialista). A verdade, porém, é que a agenda dos opositores a Rio se limita a uma nostalgia do passado "passista", envolvida por um voluntarismo puramente retórico. Quanto ao CDS, se parece excluir-se deste cenário, é apenas porque não tem nada a perder e se encontra protegido pela sua actual pequenez.

Como os sonâmbulos, ninguém sabe que terreno verdadeiramente pisa enquanto tacteia no escuro à espera dos resultados eleitorais de 2019 que, excluindo uma maioria absoluta do PS – aparentemente não alcançável, como parecem indicar as sondagens –, uma inviável "geringonça" e um improvável "bloco central", poderão precipitar o país numa perigosa incógnita política. Sobra em sonambulismo, tacticismo e vistas curtas o que falta em visão estratégica e pedagogia política. Todo um território propício às tentações populistas a que nos julgávamos imunes.