Opinião

A vingança serve-se fria?

Berlim é ainda o principal esteio que sustenta a Europa que ainda queremos. Sem a Alemanha não haverá nenhuma política europeia sobre as migrações ou o comércio ou a moeda que tenha um mínimo de eficácia e que possa restaurar algum sentido comum.

1. A União Europeia entrou numa espiral de acontecimentos que, infelizmente, começam a pôr demasiadas coisas em causa. Tem pela frente uma cimeira da NATO de dar calafrios aos mais optimistas. O maior temor, expresso por um membro do gabinete da chanceler alemã, é que nem sequer seja possível chegar a uma declaração conjunta. Vai assistir, impotente, a uma cimeira em Helsínquia entre os Presidentes americano e russo que terá inevitavelmente um forte impacte político nas suas decisões para o futuro. Trump e Putin têm, pelo menos, uma coisa em comum, que nem sequer escondem: o desejo de dividir a Europa. Em Berlim, a chanceler tornou-se num foco de instabilidade, diametralmente oposto ao que foi até agora: uma garantia de estabilidade. Para a União Europeia, o que está em jogo é simples: quando mais precisava de unidade, não param de multiplicar-se os sinais de desunião. Sinal dos tempos, a História entrou em aceleração, não pelos bons motivos que emergiram do fim da Ordem de Ialta e da implosão da União Soviética, mas porque está de regresso a um continente que chegou a pensar que simbolizava o seu fim. Em 1990, Jacques Delors resumiu os desafios que a Europa enfrentava depois da queda do Muro: “Assistimos a uma súbita aceleração da História” à qual era e foi preciso responder. Agora, como diz o historiador francês Jacques Rupnik, “a geopolítica voltou” com as regras que a integração europeia tinha apagado: o regresso das relações de força e das zonas de influência, que os mais fortes determinam. Um mundo hobbesiano é tudo aquilo que a Europa não quer na ordem mundial que se está a reconstruir. Mas é para ele que tem de se preparar. A união seria fundamental, até porque o maior dos seus Estados é pequeno nesta nova escala global. A desunião é cada vez mais a regra. Apenas algumas reflexões dispersas sobre os acontecimentos mais recentes.

2. Em Berlim, a chanceler não consegue vencer a crise que se instalou dentro da coligação a que preside. Os sinais de que o seu fim político pode estar próximo multiplicam-se. Mesmo assim, há palavras que continuam a ser “proibidas” na Alemanha. “Campo” é uma delas. Merkel cedeu ao líder da CSU, o seu mais declarado inimigo dentro do governo, aceitando a criação de “centros de trânsito” na fronteira da Alemanha com a Áustria, onde ficariam instalados os refugiados que pediram asilo noutros países, até serem reencaminhados para eles. O SPD, que se manteve silencioso durante a crise que a chanceler viveu e que não rejeita a sua política de imigração, veio dizer agora que não haverá “centros” em lado nenhum. O acordo conseguido na sexta-feira entre todas as partes da grande coligação (CDU/CSU e SPD) substitui a expressão por “procedimentos de trânsito” feitos na fronteira com a Áustria, mesmo que, na maioria dos casos, os refugiados venham da Itália ou da Grécia. Não se vê o novo Governo italiano a recebê-los de volta, embora Merkel esteja a tentar dois acordos bilaterais com Roma e Atenas. Segundo o resumo do Financial Times, os refugiados têm de ser devolvidos nas 48 horas seguintes. Os austríacos temem que, à falta de acordo com a Itália e a Grécia, fiquem por lá, contrariando a prioridade das prioridades do Governo de Viena: ver-se livre deles. Diz o mesmo jornal que “o acordo de paz entre a CDU e a CSU admite que os refugiados que os outros países se recusarem a aceitar de regresso devem ser deportados para a Áustria”. “Seehofer teve de regressar à terra”, escreve o diário Handelsblatt. Depois do seu encontro com o chanceler austríaco, “foi obrigado a admitir que não conseguiu nenhum resultado palpável no que respeita aos seus controversos ‘campos de trânsito’ ou para o retorno dos refugiados para os países onde pediram asilo”.

3. Na última cimeira europeia, os líderes europeus inventaram as chamadas “plataformas de desembarque” para designar os locais onde os candidatos ao asilo ficariam retidos até ser analisado o caso de cada um, em território fora das fronteiras europeias. O problema não é a designação habilidosa para não desenterrar ainda mais fantasmas. O problema é não haver até agora candidatos à sua localização. Provavelmente os europeus acreditavam que bastaria acenar com alguns milhares de milhões (como aconteceu com a Turquia) para “encorajar” a sua boa vontade. Restam também muitos esclarecimentos sobre estas “plataformas”. O ACNUR já se disponibilizou para fazer a triagem, que é o que faz em muitos outros casos. Mas é preciso saber quem garante condições humanas decentes, a sua segurança ou a garantia de que ninguém tenta sair de lá para jogar de novo a sua sorte. Arame farpado é outras das imagens proibidas. No Porto, na sua brevíssima visita, Obama lembrou que não há muros que impeçam a vontade dos que aspiram a uma vida decente.

3. As palavras mudam, o problema é o mesmo. Se a Europa continuar a abdicar de uma política de asilo que seja comum, as fronteiras voltarão ao espaço europeu e será muito difícil voltar a desmantelá-las. O risco é o fim de Schengen. É aí que estamos. Sem qualquer sinal de que as coisas possam melhorar. Pelo contrário. A Áustria olha para a sua presidência do Conselho da União Europeia (não confundir com Conselho Europeu, com o seu presidente próprio) como uma grande oportunidade de influenciar a Europa. Sebastian Kurz foi eleito precisamente porque endureceu as políticas de imigração do seu país e não teve escrúpulo em aliar-se com um partido de extrema-direita, cuja bandeira sempre foi essa. Já não estamos a falar das dificuldades políticas e logísticas que representa a chegada de milhões de pessoas, impelidas pelas guerras e pela miséria, mas de um outro nível de rejeição: a xenofobia e a defesa de uma Europa branca e cristã, culturalmente homogénea. Kurz pode contar com alguns países de Leste, e também sabemos que o mal já infectou quase todas as democracias europeias. Viktor Orbán acha-se cheio de força e tem razões para isso. Já nem esconde a chantagem pura e dura que está a exercer no PPE (Partido Popular Europeu, que integra a maioria dos partidos de centro-direita da Europa). Há três sensibilidades distintas: os que não toleram a sua presença no PPE, como a Suécia ou a Holanda, os que querem mantê-lo dentro, como a Áustria, ficando no meio a CDU/CSU, que tenta fazer a ponte numa altura em que as pontes são cada vez menos bem-vindas. O líder húngaro ameaça com a constituição de uma “grande coligação” europeia dos partidos que pensam como ele em relação aos imigrantes e aos refugiados, que poderia alterar radicalmente o actual quadro político no Parlamento Europeu. Seria ou será o prenúncio de um novo mapa político europeu que não deixa ninguém tranquilo.

4. Entretanto, já pouca gente se dá ao trabalho de esconder um certo prazer de ver a chanceler em risco. A vingança serve-se fria e chegou finalmente a hora de confrontar a chanceler com alguns dos seus erros europeus, desde o “momento hegemónico” ou “unilateral” da Alemanha, durante boa parte da crise do euro, até à sua decisão de abrir as portas aos refugiados da guerra na Síria sem se dar ao trabalho de consultar os parceiros. A crítica é verdadeira. O poder traz sempre consigo mais responsabilidade que nem sempre a chanceler quis assumir. Mas talvez seja má altura para vinganças servidas frias. Berlim é ainda o principal esteio que sustenta a Europa que ainda queremos. Sem a Alemanha não haverá nenhuma política europeia sobre as migrações ou o comércio ou a moeda que tenha um mínimo de eficácia e que possa restaurar algum sentido comum. E, como acontece muitas vezes depois de uma liderança forte e prolongada, a sua substituição não será pacífica. Como escreveu Le Monde, "Na Europa, a direita dura impõe a sua linha".