Deputados eurocépticos torcem o nariz ao acordo alcançado por May

Primeira-ministra britânica acordou com o seu Governo um "Brexit" suave, que prevê o comércio livre de bens industriais e agrícolas com a União Europeia.

Governo reuniu-se durante 12 horas na casa de campo em Chequers
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Governo reuniu-se durante 12 horas na casa de campo em Chequers LUSA/JOEL ROUSE / 10 DOWNING STREET / HANDOUT

Depois de ter conseguido alcançar um acordo com o seu Governo sobre os termos que pretende para a futura relação entre o Reino Unido e a União Europeia, a primeira-ministra britânica, Theresa May, terá de se virar para os deputados conservadores eurocépticos que não estão satisfeitos com o que foi decidido.

May referiu, depois da reunião de 12 horas com os membros do seu executivo, que a proposta que daí saiu, e que prevê a assinatura de um acordo para o comércio livre de bens industriais e agrícolas, será “boa para o Reino Unido e para a UE”. A líder dos tories esperava que a sua proposta fosse "bem recebida”, mas as primeiras reacções da facção conservadora mais radical na defesa do “Brexit” sugerem que essa expectativa não se confirmará.

Jacob Rees-Mogg, líder do European Research Group, poderoso grupo de deputados tories eurocépticos, afirmou, em declarações à BBC, que quer esperar pelo documento oficial do Governo mas deixou avisos: “Isto vai precisar de legislação e se, quando tivermos a legislação detalhada, verificarmos que isto é um ‘Brexit’ punitivo, mantendo-nos na UE em tudo menos no nome, vou aderir aos compromissos do manifesto do Partido Conservador e não vou votar a favor”.

Rees-Mogg avisou ainda que a proposta pode tornar “os acordos comerciais [depois de consumada a saída da UE] quase impossíveis”, acrescentando que “é possível que este acordo seja pior do que um ‘Brexit’ sem acordo”.

Segundo o que foi acordado na reunião em Chequers, o Reino Unido "aceitará a harmonização com as regras da UE no que toca ao comércio de bens, cobrindo apenas aquelas necessárias para assegurar um comércio sem fricções", abrindo assim portas a um “Brexit” suave. O Parlamento terá ainda uma palavra a dizer sobre a forma “como estas regras europeias serão incorporadas na lei britânica, conservando o direito a recusar essa integração”.

Segundo a BBC, todos os deputados conservadores foram convocados para uma reunião em Downing Street por Julian Smith, líder do grupo parlamentar torie, para que fossem esclarecidos sobre as conclusões do Governo. Na segunda-feira, Theresa May vai dirigir-se ao Parlamento para abordar esta questão e vai também encontrar-se com os deputados do seu partido.

Andrea Jenkyns foi outra das deputadas conservadoras que falou publicamente sobre o acordado entre os ministros, criticando o facto de as empresas britânicas continuarem sob as regras europeias, e “rezando” para que os detalhes finais do acordo não sejam tão maus quanto disse recear.

O negociador chefe da Comissão Europeia para o "Brexit", Michel Barnier, disse no Twitter que iria “avaliar” as propostas de Londres para confirmar se são “viáveis e realistas”.

Seja qual for o acordo alcançado quer para a fase de transição quer na consumação do “Brexit”, Bruxelas avisou já por várias ocasiões que o Reino Unido não pode escolher a fórmula de mercado único que entender, nem colocar em causa as quatro liberdades de circulação (pessoas, bens, serviços e capitais).