A faz-tudo a quem só falta uma coisa: transformar Lisboa numa cidade comestível

Adriana Freire criou a Cozinha Popular da Mouraria, um projecto social, em 2012. Não é bem um restaurante nem um "projecto de caridade". “Queremos mudar a vida às pessoas, mas ensinando-as e puxando-as para aqui.” Apesar de “não ser fácil”, a associação não dá sinais de abrandar. Depois do quiosque, das hortas e das frutas, prepara-se para abrir uma escola e plantar uma cidade.

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Rita Rodrigues

Completou 60 anos há duas semanas e celebrou-os como mais gosta: mesas fartas de petiscos e a casa recheada de amigos. A gastronomia é para Adriana Freire uma paixão de criança – e é nela que o percurso profissional tem tantas vezes desembocado. Na fotografia, na edição de livros, na criação da Cozinha Popular da Mouraria ou, mais recentemente, na luta por uma cidade que seja capaz de se alimentar a si própria. Diz ter começado a cozinhar aos oito anos: fazia “bolos em tachinhos para os baptizados das bonecas”. Mas é a comunhão intrépida à mesa, que invejava nas famílias grandes dos amigos de infância, que a atrai desde sempre no mundo da comida. O ambiente de festa, o barulho, a confusão. A partilha. Ainda que ultimamente mal tenha tempo para comer em casa ou preparar jantaradas, a despensa mantém-se recheada. “Dá-me um certo conforto, acho que me equilibra um bocadinho.”

É no terraço da Cozinha Popular da Mouraria que nos encontramos com Adriana, ao início de uma tarde a meio da semana. Lá dentro, Idália, figura já icónica da casa, vai dando arrumo ao fim dos almoços, enquanto numa das mesas se discute uma nova viagem no prato, um programa de jantares especiais dedicados às gastronomias do mundo. Entre refeições, a Cozinha Popular da Mouraria parece agora adormecida numa penumbra quente e silenciosa, mas foi aquele velho prazer de “ter muita gente à mesa” que esteve na origem do projecto social, em 2012. A gastronomia, acrescenta, está também “muito ligada às memórias e aos afectos”, pormenor “transversal a todas as culturas e línguas”. E Adriana queria ter uma casa cheia que ajudasse a dar rumo à diversidade do bairro que a acolheu há mais de 30 anos: os históricos da Mouraria e as novas comunidades emigrantes, os velhos e os novos, os pobres e os ricos. “Já tivemos situações incríveis em que as pessoas mais improváveis de se aproximarem acabaram a experimentar os pratos uns dos outros”, conta. “Há maior prazer do que provocar isso?”

Ao fim de cinco anos e meio, o projecto continua a crescer. “Estou cá para manter a alma, mas temos de ser cada vez mais profissionais e evoluir na vertente de negócio.” Reconhece que só assim conseguirão “agregar mais pessoas nesta família”. Gente do bairro que quer lançar-se no sector e precisa de uma mão. E gente de fora que, ao vir jantar, “contribui para que seja possível mudar a vida de outros”. A Cozinha Popular da Mouraria não é bem um restaurante nem um “projecto de caridade”. É mais do que isso. “Queremos mudar a vida às pessoas, mas ensinando-as e puxando-as para aqui.” Apesar de “não ser fácil”, a associação não dá sinais de abrandar. Depois do quiosque, das hortas e das frutas, prepara-se para abrir uma escola e plantar uma cidade.

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“Tenho um pavor imenso ao tédio”

Adriana é assim mesmo: nunca consegue parar quieta muito tempo. Há sempre mais uma ideia, um projecto, um desafio, uma arte a que atirar as mãos e experimentar. Nas Caldas da Rainha, onde nasceu, o Museu José Malhoa foi como uma segunda casa. Pintou, fez teatro de fantoches, barro. Lembra-se de jogar às escondidas com os guardas. “O óleo dos quadros ainda está entranhado nas minhas memórias de infância”, recorda. Quando a família se mudou para Torres Vedras, tinha Adriana 12 anos, a pintura e as artes manuais deram lugar ao cinema e à fotografia. Passou a estar sempre metida no cineclube, onde via os filmes de Fellini, Pasolini, Bergman, dos realizadores franceses da época. Talvez não tenha percebido “metade das coisas” na altura, admite, mas reconhece-lhes inspiração: “A minha grande escola visual foi o cinema.” As fotografias eram enquadradas na mente como uma sequência em película, conta, desenhando um travelling com os dedos. Só os livros, dirá, ganham aos filmes: as palavras ainda deixam quase tudo por imaginar.

Mas voltemos à adolescência, Adriana. Entretanto, contava, dá-se o 25 de Abril e as aulas tornam-se insignificantes perante a revolução que se está a viver no país. De repente, havia uma convulsão de novas possibilidades culturais para organizar na associação de estudantes. O grupo correu as embaixadas estrangeiras a pedir filmes para um ciclo de cinema de animação. Fizeram uma exposição de fotografia onde Adriana apresentou as primeiras imagens. Andava “danadinha” por vir para Lisboa. “Soube que havia um exame de admissão à [escola] António Arroio e foi assim que consegui vir mais depressa”, recorda. Ainda foi professora de Educação Visual em Alcobaça. Até o bichinho da capital voltar a atacar.

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Era o auge dos anos 1980. “Estava tudo a acontecer em Lisboa” e ela sentia-se “completamente fora do processo.” Era novamente a fome da confusão, do arregaçar as mangas e fazer coisas novas, sempre diferentes. “Com a idade uma pessoa vai pensando um bocadinho naquilo que é e cheguei à conclusão que tenho um pavor imenso ao tédio e à normalidade”, diz às tantas. Sempre que chega a um sítio tem tendência a “interferir no ambiente”. Mexe na iluminação, traz flores, põe música, muda objectos de estante. E nada lhe dá mais “pica” do que “começar alguma coisa do zero”. Enche inúmeros “caderninhos” de ideias e sonhos que depois acaba quase sempre por perder, esquecida do lugar onde os guarda, diz a rir. Mas muitos planos ficam por ali a remoer, a pairar num futuro que nunca chega para tanta coisa.

É assim que, aos 30, Adriana regressa a Lisboa para se reinventar como fotógrafa, recuperando a paixão da adolescência. Tinha “uns amigos que conheciam o Álvaro Rosendo”, da Galeria Monumental, e ela foi oferecer-se para ser assistente dele, recorda. Passou uns “bons tempos” a fazer provas de contacto até que começaram a “achar graça” às fotos dela. Lançava-se numa altura em que os fotógrafos ainda eram “reconhecidos e bem pagos”. Um trabalho levava a outro. Foi assim que chegou à revista Marie Claire, anos mais tarde, onde publicou as primeiras fotografias de gastronomia - e os primeiros textos, ainda com o pseudónimo Clara Castelo. “Tinha a mania que sabia um bocadinho [da área] porque tinha os livros da Maria de Lourdes Modesto e do Pantagruel, que eram as minhas bíblias”, ri-se. Mas tinha “vergonha” de assinar os textos porque quem gosta de ler, “sabe o que é escrever”. E aquilo que ela fazia, acreditava, não chegava ao patamar nobre do verbo.

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“O meu trabalho é a minha vida”

O percurso profissional chegava cada vez mais perto da mesa. Foi acompanhando o trabalho de vários chefs e restaurantes ao longo de décadas. Alguns tornaram-se amigos e têm dado um contributo importante na associação, liderando aulas e jantares especiais ou conseguindo equipamento para a cozinha. Entretanto, Adriana tinha ficado com vontade de fazer livros de cozinha. “Andei a chatear o Gonçalo Bulhosa, que estava a criar a Oficina do Livro, e o Hermínio Monteiro, da Assírio&Alvim.” Quatro anos depois a insistência dava frutos: chegou o convite para fazer a fotografia e edição d’A Minha Cozinha, de Helena Sacadura Cabral. Depois os livros de receitas de João Carlos Silva, apresentador do programa de culinária Na Roça com os Tachos. Chegou a colher retalhos de roupa de Rui Reininho e digitalizar para compor a capa de um dos livros do vocalista dos GNR. “Cada livro era um desafio e divertia-me imenso.” Foi por muito pouco que, anos mais tarde, não lançou uma editora especializada em gastronomia.

O objecto-livro é algo de que sempre gostou muito. É-lhe difícil entrar num alfarrabista sem se perder. Chega a comprá-los só pelo papel, pelo grafismo, pela capa ou outro elemento que os torne “especiais”. Principalmente os antigos, porque as publicações modernas, confessa, tendem a desiludi-la. “A edição virou quase uma caixa de bombons”, lamenta. A capa tem de sobressair na estante e a impressão ser o mais barata possível. “Até os livros de cozinha já quase deixei de comprar. Já não aguento, toda a gente publicou um.” A colecção que entretanto foi fazendo chega, no entanto, para preencher uma parede da sala e o próximo passo é com ela criar uma biblioteca especializada no novo espaço da Cozinha Popular da Mouraria, que há-de abrir aqui mesmo em frente.

No rés-do-chão que já se adivinha entre as obras Adriana quer abrir uma escola ligada à gastronomia. Mais cedo ou mais tarde, era aí que o projecto teria de ir dar porque, acredita, “só a educação muda o mundo”. Quer disponibilizar cursos para graúdos, para continuar a dar oportunidade a quem quer seguir cozinha e não tem meios para isso, mas pensa cada vez mais nas crianças. É com elas que mais quer trabalhar. “Vejo-as no Jardim da Cerca da Graça a jogar à bola com laranjas ainda verdes. No dia em que elas plantarem uma laranjeira e virem o tempo que leva a crescer e a dar a primeira laranja, não vão olhar para a árvore da mesma maneira.”

É lá fora, entre os frutos e as hortas da cidade, que se trilha ultimamente a motivação de Adriana. Há algum tempo que não fotografa. Não que lhe falte vontade ou ideias. Mas toda a energia está agora alocada na associação. “O meu trabalho é a minha vida”, diz, para justificar um percurso sem interruptores que intercalem o lado pessoal e o profissional. “Qualquer projecto que tenha em mãos é vivido intensamente.” Está num outro processo onde a fotografia não cabe. “Acho que o meu papel agora é conquistar território”, ri-se. É essa a sua próxima luta: “transformar Lisboa numa cidade comestível”.

A iniciativa Muita Fruta – que colhe e transforma os frutos das árvores da cidade – é o primeiro passo. Mas Adriana quer ir mais longe. Quer que se aposte na agricultura urbana e se repensem os espaços públicos. Porque é que os jardins hão-de ter canteiros e relvados que não se podem pisar? Porque não podem conviver flores e frutas e hortaliças e pessoas estendidas ao sol? No fundo, diz, quer transformar “as cidades em casas”. Em espaços que “façam parte da vida das pessoas”, de que elas se apropriem e “sintam como seus”. É isso que quer deixar como legado. “Tenho este problema de achar que tenho de deixar alguma coisa feita, por muito pouco que seja – e eu estou a fazer pouquíssimo. Mas acho que cada um de nós deve acrescentar alguma coisa para os outros usufruírem a seguir.” Nem que seja uma mesa repleta de iguarias com alma e esperança num futuro diferente. Ou um jardim que se pode fruir e comer