Casado conta espingardas para ultrapassar Santamaría no congresso e ser líder do PP

Escolha do sucessor de Rajoy está nas mãos dos delegados, depois da votação dos militantes ter dado a Santamaría uma vitória curta. Prevê-se duas semanas intensas até ao congresso extraordinário do partido.

Pablo Casado Blanco, Festa do Povo
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Pablo Casado EPA

Foi um Partido Popular (PP) fracturado que se lançou às primárias para escolher o sucessor de Mariano Rajoy. E foi um PP fracturado que saiu da primeira ronda de votações. Entre Soraya Saénz de Santamaría e Pablo Casado, primeira e segundo classificados, distaram apenas 1546 votos. Uma distância curtíssima que concretiza as enormes divergências que existem dentro do núcleo duro do partido – o único que se mobilizou verdadeiramente para estas eleições – e que obriga os candidatos sobreviventes a procurar apoios junto dos mais de 3000 delegados para triunfar na derradeira votação, agendada para o congresso extraordinário de 20 e 21 de Julho.

Num universo estimado de 860 mil militantes, foram pouco mais de 58 mil aqueles que se deslocaram na quinta-feira às urnas para escolher entre os seis nomes na corrida. Saénz de Santamaría obteve 36,9% dos votos, Casado 34,3%. María Dolores de Cospedal (24,9%), José Manuel García Margallo (1,17%), José Ramon García Hernández (1,15%) e Elio Cabanes (0,32%) completaram a lista.

Concebido há pouco mais de um ano para satisfazer as bases, através da participação dos militantes no processo de escolha do líder, este modelo eleitoral tinha como objectivo fazer da eleição no congresso a aclamação de um vencedor e não uma verdadeira disputa. Mas perante os resultados  e tendo em conta a falta de edições passadas da aplicação deste sistema, são três os cenários em cima da mesa para o congresso: o respeito pelo resultado da votação de quinta-feira e a confirmação da vitória de Santamaría; o desempate decidido pelos delegados; ou a obtenção de um acordo entre Santamaría e Casado, que lhes permita apresentar uma única candidatura.

Casado já rejeitou, no entanto, o primeiro e o terceiro cenário, inaugurando um período de duas semanas de charme e aliciamento junto das várias facções do partido de Rajoy – que apresentou a demissão da liderança do PP depois de derrubado da chefia do Governo espanhol por uma moção de censura do PSOE.

“Não chegámos até aqui para que nada mude”, afirmou esta sexta-feira Casado, que é vice-secretário de Comunicação do PP e deputado por Ávila, citado pelo El País.

Embora o caminho de Casado passe pela procura do apoio dos restantes candidatos e, nomeadamente, de Cospedal  – a “amiga e companheira” que o deputado de 37 anos diz partilhar com ele “uma ideia do que a Espanha necessita” –, e dos ‘seus’ 25%, o facto de a escolha final estar na mão dos delegados obriga a uma estratégia de sedução mais complexa, uma vez que não lhe basta somar as percentagens dos derrotados que o apoiem para se sagrar vencedor. Uma realidade que também torna o desfecho da eleição do congresso incerto.

Prevê-se, por isso, que o plano de Casado assente numa distinção clara entre o PP de Rajoy, personificado em Santamaría, que era a número dois do executivo, e o restante PP, que inclui os jovens, os aznaristas – próximos do antigo presidente do Governo, José Maria Aznar, que se juntaram em volta da candidatura de Casado – e todos os militantes que se indignaram com o envolvimento do partido em sucessivos casos de corrupção, com a gestão embaraçosa da crise catalã e com a queda a pique nas sondagens, em benefício do Cidadãos.

Mais do que a apresentação de uma agenda ou de um programa inovadores, Casado oferece como trunfo o seu distanciamento em relação ao passado recente e procurará transformar a eleição no congresso num autêntico referendo a Saénz de Santamaría. Até porque lhe convém retirar o foco de si mesmo, tendo em conta as dúvidas sobre a forma como completou o seu mestrado.

“Durante os anos no Governo perdemos três milhões de votos. Apresento-me à liderança para fazer uma refundação no partido e voltar aos 11 milhões de votos. Necessitamos de um projecto novo, onde não tenhamos de fazer o mesmo, como os mesmos”, defendeu o jovem candidato, numa clara alfinetada à ex-vice-presidente do Governo.

Com García Margallo já disponível para apoiar Casado, adivinham-se duas semanas de intensas trocas de tiros entre candidatos, ex-candidatos e delegados. E com a incerteza a pautar o processo de substituição de Rajoy, o PP arrisca-se a sair ainda mais fragmentado do que estava à partida para este seu novo capítulo.