Artes

Pieter Hugo: “Todas as fotografias são mentira”

O Museu Colecção Berardo mostra uma retrospectiva do fotógrafo sul-africano. São 15 séries que atravessam uma obra marcada pelo questionamento da imagem enquanto documento, mas também do seu poder para nos mostrar o que não conhecemos ou para nos alertar que as histórias têm várias camadas, nem sempre evidentes
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Já estávamos na última sala da exposição e Pieter Hugo (Joanesburgo, 1976) tinha-se mostrado relutante a falar sobre a série de fotografias Os Domadores de Hienas e Outros (2005-2007), o trabalho que lhe deu reconhecimento mundial (“Já falei tanto sobre estas imagens!”). Até que alguém o questionou sobre o sentido do título da retrospectiva da sua obra, que o Museu Colecção Berardo, em Lisboa, mostra até ao dia 7 de Outubro. E aí o fotógrafo sul-africano acabou por ser mais expansivo. Explicou que Between the devil and the deep blue sea é uma expressão idiomática da língua inglesa que significa estar no meio da ponte, num dilema entre duas decisões difíceis. E revelou que a descobriu numa canção da banda de rock gótico britânica The Sisters of Mercy, que fala exactamente da dificuldade da escolha, quando se está entre a espada e a parede.

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Pieter Hugo, que é parco nas palavras sobre as suas imagens, procurando dar os elementos essenciais para que não se efabule demasiado sobre elas, justificou depois a sua escolha com a sua condição de homem branco a trabalhar em fotografia em África, com todas “as questões de representação que isso acarreta”. Mas, explicou também que esta é a sua maneira de nos dizer que “todas as fotografias são mentira”, uma afirmação-tese que pode funcionar como convite ao questionamento de tudo o que vemos; ou então um alerta para que não tiremos conclusões definitivas ao primeiro olhar. “As pessoas pensam sempre que a fotografia é a representação exacta de qualquer coisa — não é.”

Situando-se “na linha ténue entre arte e documento”, a sua prática fotográfica tem revelado um diálogo permanente entre a sua vivência pessoal e íntima e o questionamento das feridas deixadas abertas pelo passado, quer no país onde nasceu, a África do Sul, quer no continente que habita, e, mais recentemente, fora dele, nomeadamente na China e nos EUA. Se se puder apenas resumir o trabalho de Pieter Hugo, poder-se-á dizer que é uma reflexão sobre as margens da sociedade, as subculturas, os outsiders, as fronteiras, como o próprio o assumiu na apresentação desta exposição em Lisboa. Mas também se pode dizer que a sua prática é uma reflexão sobre as cicatrizes deixadas pela História, bem como a importância de um olhar informado e aprofundado sobre os contextos em que ela se desenrola. “O que me interessa na fotografia é a linha ténue entre arte e documento. Gosto de estar neste espaço, sem cair muito para um lado ou para o outro. É preciso questionar a veracidade do que vemos – perguntar: isto é possível? Isto será mesmo assim?”

Um exemplo. Em 2004, pouco antes de partir para a Nigéria à procura dos “domadores de hienas”, Pieter viu reproduzida num jornal sul-africano a imagem de um desses homens com um animal acorrentado, onde se citava um jornal nigeriano segundo o qual tinham chegado a Lagos “assaltantes de bancos, traficantes de drogas e cobradores de dívidas”. A realidade provou-se diferente. Tratava-se, na verdade, de um grupo de gadawan kura, o nome pelo qual são conhecidos estes artistas itinerantes que usam animais para captar a atenção de quem passa, para divertir e para vender mezinhas tradicionais.

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Os Domadores de Hienas e Outros: Abdullahi Mohammed com Mainasara Ogere-Remo, Nigéria, 2007 Pieter Hugo

Ao longo das salas do Berardo, o que Pieter Hugo parece estar constantemente a dizer-nos é: aquilo que parecer uma coisa pode ser outra; aquilo que parece não é. Neste exercício, vai deixando informação que nos ajuda a descodificar os universos por onde passa ou que são os seus. Não quer, por exemplo, que entendamos as imagens da série Flores Silvestres da Califórnia como moralistas. Mostram sem-abrigo, toxicodependentes, ex-veteranos de guerra, mas também pessoas que escolheram viver na rua, à margem, de acordo com as suas próprias “leis”. Não quero moralizar com estas imagens. Interessa-me aqui o lado performativo, divertido da rua ao mesmo tempo que há tristeza, também há liberdade. Algumas destas pessoas escolheram viver assim.”

Esta retrospectiva, com duas paragens antes de Lisboa, representa um acrescento significativo a uma outra, mostrada em 2014 na Gulbenkian, mais pequena e sem algumas das séries que agora se podem ver de forma mais completa, como é o caso de Kin, aquela que a comissária Uta Ruhkamp considera “o coração” da exposição, que inclui 15 corpos de trabalho, produzidos entre 2003 e 2016. Em Kin (parentesco, laço familiar), talvez o mais introspectivo dos seus trabalhos, Hugo problematiza as profundas divisões, injustiças e desencontros que atravessam a sociedade sul-africana. É também um trabalho sobre o absurdo, como aquele que aconteceu na sua família, quando uma mulher negra que trabalhou toda a vida para a avó de Pieter Hugo e que ajudou a criar o seu pai morreu. Ninguém da família do fotógrafo sul-africano foi ao funeral.