Entrevista

“A meditação é consciência. É só nariz: inspirar, expirar”

Não é a primeira vez que está em Portugal, é já a terceira e anda em périplo pelo mundo há anos. O objectivo de Yongey Mingyur Rinpoche não é converter ninguém ao budismo, mas ensinar a meditar.
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Rita Rodrigues

Chega directamente do aeroporto e aterra num apartamento no centro de Lisboa. É convidado a sentar-se num sofá tapado com um pano amarelo-forte que contrasta com a sua túnica carmesim. Yongey Mingyur Rinpoche é um monge budista, de 43 anos, filho de um reputado mestre da meditação tibetano. Desde muito cedo que se sentiu atraído pela contemplação e faz parte de uma geração de monges que saiu do Tibete para estudar. Foi para a Índia aos 11 anos. De seguida fez um retiro de três anos e começou a ensinar aos 17. Nunca mais parou, embora tenha feito um interregno de quatro anos e meio, em que se tornou monge errante e andou pelos Himalaias — sobre essa e outras experiências escreve no livro A Alegria de Viver, publicado pela Temas&Debates, do Círculo de Leitores. 

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Em 2002, Yongey Mingyur — Rinpoche é um título do budismo tibetano, atribuído aos que têm mais conhecimento — fez parte de um grupo de praticantes de meditação que foram observados na Universidade de Wisconsin, a pedido do Dalai Lama. O objectivo era examinar os efeitos da meditação no cérebro. O monge continua a contribuir para o diálogo entre o budismo e a ciência ocidental, sendo um dos conselheiros do instituto norte-americano Mind and Life. Nos mosteiros ou perante grandes audiências, disserta sobre a importância da meditação e de como esta pode ser a chave para se ser feliz. Está em Lisboa até domingo, para palestras e cursos sobre meditação. A sua vinda foi organizada pela Kangyur Rinpoche — Fundação para a Preservação da Cultura Tibetana, a Songtsen — Casa da Cultura do Tibete e pela União Budista Portuguesa. 

Um dos ensinamentos budistas é que a vida é sofrimento e, contudo, o título do seu livro é A Alegria de Viver, não é uma contradição?
O não sofrer é uma das razões para a felicidade. Porque a vida muda muito. Tenho um amigo que não se sentia feliz e, à sua volta, todos pareciam felizes, e foi assim durante muitos e muitos anos, até que um dia foi a uma livraria e viu um livro que logo na primeira página dizia: “A vida é sofrimento.” E ele sentiu-se feliz e pensou que não era o único. Portanto, a vida é aceitar. Quando não aceitamos, sentimos a desilusão, o desapontamento. Mas é preciso aceitar que a vida muda e é como o mercado bolsista, tem altos e baixos, aprendemos, crescemos, pode ser uma aventura e pode ser um drama.

Mas procuramos sempre que seja uma vida feliz?
Sim, todos procuramos. Mas a procura pode ser exterior e interior. Há duas maneiras de olhar.

E como é que a fazemos a partir do interior, através da meditação?
Sim, essa é a boa solução. Um exemplo prático sobre o que meditar: a vida é sofrimento, essa é a visão que temos, quando enfrentamos o problema, reconhecemos que essa é uma parte da vida. Precisamos de reconhecer, aceitar e aprender com isso, crescer. Em vez de criar obstáculos, criar oportunidades. A meditação é ser, sem pressão. Pensar demais não é bom. É preciso ter cabeça para ter visão, coração para meditar e criar um hábito, aplicar essa visão e meditação no nosso dia-a-dia.

Nem todos conseguem aplicar esses ensinamentos?
Há um mal-entendido em relação à meditação. Esta não é bloquear todos os nossos pensamentos, concentração, ficar com a mente vazia. Meditação é ter consciência. Sabe respirar?

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Sim.
É só isso. Inspirar e expirar. Inspirar e expirar e, quando chega um pensamento, não se esqueça de continuar a respirar. Se é um pensamento sobre o trabalho: “Há um prazo de que não me posso esquecer.” Muito bem, respire. Há a visão e a meditação, cabeça e coração.

Rezar pode ser uma forma de meditar?
A meditação é consciência, não é rezar. É só nariz: inspirar, expirar. É só ouvir.

No mundo ocidental, a meditação, o ioga, o mindfulness são uma tendência ou um negócio?
Hoje em dia muitas pessoas fazem meditação. Há dois anos, nos EUA, vi um anúncio com um homem de fato e a voar sobre o seu laptop estava a frase: “Sete dias para descobrir a luz”. Por isso, parece que são precisos apenas sete dias! (risos)

Portanto, pode ser um negócio?
Nos últimos anos, os cientistas descobriram que a meditação faz bem à saúde, logo, muitas pessoas criaram negócios em torno da meditação, é verdade.

Como é que olha para isso?
Não é a meditação verdadeira, por isso não terá um efeito muito prolongado porque não vai transformar a pessoa.

É preciso ser budista para saber meditar verdadeiramente?
Não é preciso ser budista, todos podem pôr a meditação em prática. O amor e a compaixão não é pertença do budismo.

Quando viaja e faz conferências, procura converter quem o ouve?
Eu ensino a meditação e não procuro a conversão porque o amor e a compaixão são universais.

Podemos pôr a meditação ao mesmo nível que a ida ao ginásio?
A meditação é treinar a mente e ir ao ginásio é treinar o corpo. É semelhante e pode ser feito em conjunto. Os estudos científicos mais recentes apontam para a realização da meditação e do exercício físico. Quando fazemos exercício, há novas células que se formam no nosso cérebro.

No livro, conta que o seu pai foi operado, esqueceram-se de lhe dar a anestesia e o médico ficou impressionado porque, aparentemente, não sentiu dor. A meditação pode ser tão forte que não se sinta a dor?
Depende do nível. É possível bloquear as sensações, mas não recomendo que o façam!

Acredita que se todos meditarmos o mundo pode ser melhor?
Todos têm de meditar e se o indivíduo se transformar [graças à meditação], então o mundo todo transforma-se. Tudo o que um indivíduo faça de bom vai contribuir para um mundo melhor.

Como é que se relaciona a meditação com ciências como a psicologia, a física ou a neurologia?
Fui convidado para me juntar a uma experiência de neurocientistas, num laboratório no Michigan em 2002. O que eles queriam observar é se o cérebro pode mudar graças à meditação. Antes, pensavam que não podia e, se nascíamos infelizes, seríamos infelizes para o resto da vida e não haveria qualquer mudança. Mas, mais tarde, descobriram a neuroplasticidade, a possibilidade de conseguirmos mudar e isso pode acontecer através da meditação. Não é o dinheiro, o poder ou a fama, mas a meditação que ajuda a mudar.

Já ensina há muitos anos?
Desde os 17 anos.

Sente que houve alguma evolução, que as pessoas estão mais sedentas dos seus conhecimentos?
Sim, as pessoas estão mais disponíveis para aprender porque tentam tanta coisa e sem sucesso, sentem-se vazias. Por muito que façam, por mais que façam, sentem-se vazias.

O que ensina?
Ensino sobre a consciência, sobre a nossa mente, que é constituída por pensamentos e emoções. A consciência é como o céu e as emoções são as nuvens e perdemo-nos nas nuvens. Por isso, precisamos de reconhecer, tomar consciência, criar esse hábito e aplicá-lo na vida do dia-a-dia. É possível meditar em qualquer lado e a qualquer hora. Enquanto se caminha, a beber café… é respirar e ouvir a sua respiração. Quando era pequeno sofria de ataques de pânico, o meu pai ensinou-me a respirar. E eu pensei: “O quê? O meu pai ensina-me uma coisa chata?” Mas era só isso: observar a minha respiração.

Mas como é que só isso nos pode trazer a felicidade?
Porque temos uma mente muito activa que está sempre a pensar, que é uma voz que está sempre a saltar de um lado para o outro — uma monkey mind, uma mente de macaco — que nos dá ordens. Portanto, quando começamos a concentrar-nos na nossa respiração, estamos a pedir à “mente de macaco” que não salte de um lado para o outro, mas que se concentre no inspirar e expirar. O que temos de fazer é, devagar, disciplinar a mente, falar com o macaco e tomarmos nós o controlo da nossa mente. É preciso respirar, de maneira a que nos sintamos mais em paz, relaxados.

Parece muito simples, mas também muito complicado, não é?
É difícil… parece, mas não é. É só respirar! É muito simples, a meditação pode ser feita logo pela manhã e pode mudar todo o nosso dia.