Opinião

Portugal na América

O que Marcelo também podia ter dito no seu recente encontro com Trump na Casa Branca.

Marcelo Rebelo de Sousa, no seu recente encontro com Donald Trump na Casa Branca, não perdeu a oportunidade de dizer ao seu par, algo desinteressado, que a Declaração da Independência dos Estados Unidos, cujo rascunho foi escrito por Thomas Jefferson e cuja versão final data de 4 de Julho de 1776, foi celebrada com vinho da Madeira. E mais lembrou que Portugal foi um dos primeiros países neutros a reconhecer a independência da nova nação, em 1783.

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Mas podia ter dito mais. Por exemplo, que o abade José Correia da Serra, um grande amigo de Jefferson, o terceiro Presidente americano, após George Washington e John Adams, foi considerado por este o “homem mais ilustrado que conheceu”, o que não era dizer pouco, pois Jefferson, além de estadista, era um sábio. O abade chegou à América em 1812 e em 1816 foi nomeado embaixador do reino de Portugal, Algarve e Brasil, quando já era Presidente o sucessor de Jefferson, James Madison. Sendo visita regular da casa de Jefferson, a mansão Monticelllo, na Virgínia, o dono da casa tinha reservado para ele um quarto, que hoje os visitantes podem ver (o Abbé  Corrêa’s  room). Com Jefferson, o Abade alimentou a utopia de uma nova civilização nas Américas, que ambos queriam mais avançada do que a europeia (para Serra, os dois países eram “as duas grandes potências do hemisfério ocidental”). A América do Norte ficaria para os Estados Unidos e a América do Sul para Portugal. É curioso como um padre católico se entendia bem com um protestante unitarista, mas unia-os a filiação maçónica. Em 1820, no ano da Revolução Liberal, um ano antes do regresso da corte do Rio de Janeiro a Lisboa e dois anos antes da independência do Brasil, o embaixador luso regressava à sua terra natal.

Marcelo podia também ter dito que o prémio científico mais antigo da nação americana, e que ainda hoje é atribuído, foi estabelecido pela Sociedade Filosófica Americana, sedeada em Filadélfia, em 1786, com 200 guinéus doados pelo português João Jacinto Magalhães, que vivia em Londres e era amigo do fundador da Sociedade, o físico e diplomata Benjamin Franklin. O Magellanic Premium, que se destina a recompensar o “autor da melhor descoberta ou mais útil invenção relacionada com a navegação, a astronomia ou a filosofia natural,” já foi dado 34 vezes, uma das quais aos inventores do GPS.

Podia ainda ter dito que dois dos maiores escritores portugueses do século XIX – Antero de Quental e Eça de Queiroz – visitaram os Estados Unidos e que outros dois grandes nomes das letras, estes do século XX – José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena – lá viveram numa boa parte da sua vida (os dois morreram no exílio). E podia, como Onésimo Almeida referiu no seu discurso do 10 de Junho em Ponta Delgada, que grandes cientistas americanos contemporâneos como o Nobel da Medicina Craig Mello e o físico e ex-secretário de Estado da Energia Ernest Moniz têm ascendência lusa, os dois com raízes na ilha de S. Miguel. E podia ainda ter acrescentado que numerosos cientistas portugueses trabalham hoje nos Estados Unidos, como a bióloga Sílvia Curado, presidente da Portuguese  American  Postgraduate  Society, que reúne a diáspora científica nos Estados Unidos e Canadá e que acaba de celebrar 20 anos com um encontro na Universidade de Harvard, em Boston (brindou-se com Porto). Receio, contudo, que, com essa overdose de informação, Trump tivesse ficado KO.

Marcelo rematou que “Portugal é um pouco diferente dos Estados Unidos” quando Trump engendrou uma candidatura de Ronaldo à presidência. É-o, de facto. Há coisas melhores cá (um emigrante gritou a Marcelo em Boston: “És melhor do que o Trump!”) e outras melhores lá (por exemplo, o sistema científico-tecnológico). A escritora micaelense Natália Correia, que em 1950 visitou a América (era na altura Mrs. Hyler, pois tinha casado com um americano), resumiu no seu livro com o sugestivo título Descobri que era Europeia (Ponto de Fuga, 2018) o gap entre a América e a Europa: “A América é um problema de que só ela tem a chave. A solução desse problema só interessa aos americanos. Se tentarmos compreendê-lo partindo de nós próprios, da nossa concepção do que ela ‘possa ser’, escolhemos o caminho mais longo, pois somos estruturalmente diferentes.”