Leah Millis/Reuters
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Megafone

Há tantos Jarrod Ramos por essa Internet fora

Vejo muitos Jarrod Ramos por essas redes sociais fora. Gente que, na caixa de comentários, descarrega o seu absoluto ódio aos jornalistas.

Lembro-me das imagens do terrorista a gritar “Allahu Akbar” à saída da redacção do jornal satírico francês Charlie Hebdo. Dos gritos de revolta nas redes sociais. Do cordão humano, espalhado por várias cidades do mundo (no qual participei), unindo desde civis a políticos, para condenar aquele que foi considerado um dos maiores ataques à liberdade de imprensa — e expressão — deste século. Lembro-me do “Je Suis Charlie” e de todos os “Je Suis” que se seguiram. Foram cartas, foram prosas, posts, tweets, hashtags, ui, ui, tanta indignação.

Foi preciso pouco tempo para perceber que nada mudou: uma capa com um Deus armado a correr, feita para sinalizar a tragédia, foi considerada como “blasfémia” por parte do Vaticano. Amén.

Mas olhemos para os números. Segundo o Comité de Protecção dos Jornalistas, em 2017 foram mortos 46 jornalistas (os números variam de pesquisa para pesquisa). Do México ao Afeganistão, de Malta ao Brasil. O Washington Post, usando dados de organizações de liberdade de imprensa, diz mesmo que esse foi o pior ano para os jornalistas — e que “2018 pode ser ainda pior”. E nem vou falar dos que estão presos (olá Turquia, tudo bem?).

Tudo isto para chegarmos a Maryland onde, na semana passada, Jarrod Ramos, o principal suspeito, resolveu matar cinco pessoas da redacção do jornal local Capital Gazette. Houve relatos de jornalistas que, no Twitter, reportaram o incidente. As notícias começaram a sair. No dia seguinte, o jornal saiu. É difícil, mas é assim que tem de ser. Só que não vi “Je Suis” de coisa nenhuma neste caso.

E quem é Jarrod Ramos, engenheiro informático norte-americano de 30 anos? Numa consulta pelos documentos do tribunal e de outras fontes, encontrei coisas curiosas. Um senhor com um longo historial de conflito com o matutino que se queria vingar pelos seus artigos “difamatórios” contra si. Mais especificamente um artigo, o Jarrod Wants To Be Your Friend, que fala de um encontro entre Jarrod e uma antiga colega de escola que acabou em assédio, perseguição, num verdadeiro “pesadelo”. Ramos processou o jornal porque o artigo era parcial. Perdeu. Foi considerado culpado com acusações de assédio menor. Passou semanas a criticar o jornal no Twitter, ameaçando jornalistas. Uma pessoa doente? Provavelmente, mas uma pessoa como nós. Revolta? Indignação? Pouca. Pouca sorte em ser norte-americano e não estar com o Alcorão debaixo do braço.

“Como nós?” Sim, como nós, caro leitor. Vejo muitos Jarrod Ramos por essas redes sociais fora. Gente que, na caixa de comentários, descarrega o seu absoluto ódio aos jornalistas. Ou gente que o prefere fazer cara a cara — como eu bem vi nos múltiplos directos sobre o Sporting. É claro que o jornalismo não deve ser colocado num lugar divino, infalível, inquebrável. E se podemos culpar os "Trumps" e os "Brunos de Carvalho" desta vida pelo crescimento do populismo, das fake news e da animosidade contra os jornalistas que parece ter saído da toca, não nos devemos esquecer que nós, jornalistas, também temos culpa nisso. O combate ao populismo tem sido feito, em parte, dando mais palco aos populistas, como se eles fossem o nosso novo animal de estimação que tem mais um truque para nos mostrar, dando-lhes festinhas na cabeça sem lhe demonstrar que o que fazem, fazem-no mal. Porquê? Porque é mentira. E quando fazem, gritamos no mesmo tom. É pouco, manifestamente pouco. Basta olhar para a forma combativa, quase activista, como a CNN reporta Trump. Ou para a forma desenfreada, quase sem controlo, que alguns dos nossos órgãos de comunicação social acompanharam a crise do Sporting. Só se combate a ignorância com a verdade. Andar a brincar à apanhada com ela só nos faz ser mais ignorantes.

Mas não, não me venham com tretas à Gustavo Santos de que devemos ter cuidado com o que reportamos (ou satirizamos), porque isso pode transformar-se numa “ameaça à nossa vida”. E não, não me venham dizer que o ódio é de agora. Há 11 anos, 70 jornalistas foram mortos no mundo inteiro. Ou seja um pouco mais do que em 2017. Não havia Trump nem Bruno de Carvalho. Já tínhamos as ditaduras de sempre, o bom e o mau jornalismo, claro, só o Ocidente — ou melhor, alguns pseudo-ocidentais — é que ainda não tinha saído da sua toca para demonstrar o ódio à classe.

No dia em que um jornalista de qualquer meio de comunicação social em Portugal levar um tiro, podem crer que volto a ir para a rua. Que alguém se atreva a entrar pela redacção do jornal mais lido (e odiado), leia-se Correio da Manhã, com uma metralhadora, e eu lá estarei com o meu “Je Suis Correio da Manhã”. Enquanto isso não acontecer, vou tentar indignar-me com estas mortes na minha bolha. Um tiro contra um jornalista é um tiro contra a nossa liberdade. Quer venha do Médio Oriente ou da casa do vizinho.

“Qualquer homem que ainda tenha um pingo de honra terá de ter muito cuidado para não se tornar jornalista.” Sabem quem disse isto? Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazi, em 1943. Bem sei que são tempos muito diferentes, mas é só para relembrar que os Jarrod Ramos devem ter feito — como infelizmente estão a fazer — um sucesso nesta altura.