Opinião

Para a alma amiga do Ricardo, hoje desfeita em música

Custam muito as saudades de alguém de quem se teve saudades a vida inteira.

O Ricardo era um salva-vidas. Só não soube salvar a dele.

O Ricardo deu a vida pelo amor, deu a vida pela música, deu a vida pela medicina, deu a vida pela vida.

Era uma pessoa muito séria com imenso sentido de humor. Num momento podia estar a compor uma melodia tristíssima, no outro dizia que era música de realejo.

A música dele era sublime. Mas ele tinha uma tal adoração pela música dos outros que se recusava a dar a devida importância à música dele.

O Ricardo era dado. Tinha uma ternura sem fim pelos amigos e pelas pessoas. A alma generosa que era a dele resolvia as coisas elegendo uma mão-cheia de inimigos, largamente fictícios, em que depositava toda as emoções destrutivas que qualquer ser humano tem — e tem de organizar de forma a fazer um mínimo de mal aos outros.

O Ricardo organizava-os de maneira a odiar um número mínimo de pessoas, entidades, regimes e, sobretudo, músicas e músicos.

O Ricardo odiava os inimigos musicais com uma ferocidade assustadora.

Aquele baixista era responsável pelo declínio da civilização. A música daquele país não descansaria enquanto todos os nossos cérebros não se transformassem em papa. Nunca vi odiar com tanta concentração, originalidade e contumácia. Até nisso o Ricardo era um artista e um mestre.

À parte estas loucuras essenciais, que deixavam a alma livre para amar as pessoas e as músicas e as ideias e as ciências que ele amava, o Ricardo tinha uma bondade que comovia.

Tinha quase sempre razão – se eu, o Pedro e o Chico tivéssemos feito o que ele disse, a Fundação Atlântica teria durado mais uma década ou duas – mas perdoava sempre quem não tinha. Nunca nos disse "eu não vos disse?". Nunca levou a mal. Nunca insistiu. Quis sempre que fôssemos todos livres – e o menos tristes que era possível neste vale de lágrimas onde fomos forçados a viver.

O Ricardo – a quem chamávamos o Camacho por haver uma robustez madeirense nesse apelido, tão diferente da elegância física dele – era uma pessoa que só tinha razões para estar feliz mas, mesmo assim, conseguia, por ser artista, mergulhar por largos tempos na mais aterradora melancolia.

É claro que nos primeiros anos dos anos 80 a felicidade estava proibida. O Ricardo e eu tínhamos de fazer canções felizes às escondidas. Uma vez escrevemos uma canção muito imediata. Queríamos escrever como escreve uma máquina, sem sentimentos ou escrúpulos.

Mostrámos a canção às pessoas e todas elas gostaram. Ficámos deprimidíssimos. O Ricardo disse, sorumbático e surpreendido ao mesmo tempo: "Receio que tenhamos escrito um êxito".

Na altura não havia pior palavra do que êxito. Deixámo-nos cair em silêncio. Estávamos a tentar pensar em consolações. Mas não há consolações para o êxito. Até que o Ricardo espevitou e disse triunfalmente: "Pelo menos é uma grande merda". Animámos logo. Ao menos isso.

O Ricardo ficou maluco quando a Sétima Legião o convidou para tocar com eles. E ficou mais maluco ainda quando o convidaram para fazer parte da Sétima Legião. Ficou eufórico. E disse-me assim, que nunca mais me esqueci: "Já viste, Miguel? Quem é que não sonha pertencer à banda de sonho?"

O Ricardo adorava – a palavra está bem calibrada – a Sétima Legião. Eu sei porque eu também adoro: as pessoas da Sétima Legião (sobretudo o Rodrigo Leão) e a música da Sétima Legião.

Era transcendente. Eu respondi: "Sim, é como se os Joy Division me tivessem convidado para entrar..." E o Ricardo esclareceu imediatamente: "Não, Miguel - é como se os Beatles nos tivessem convidado...quando nós tínhamos dez anos!"

Custam muito as saudades de alguém de quem se teve saudades a vida inteira. Quanto maior o número de vezes em que se combina qualquer coisa e depois se desmarca; quanto maior o número de vezes em que se decide que amanhã vai ser o dia de reatar uma amizade e quanto maior o número de vezes em que, no dia seguinte, nada acontece, mais a alma dói de desilusão e de desespero connosco próprios, por termos esbanjado uma amizade profunda, como se houvesse muitas - ou fossem facilmente substituídas.

Mas essa dor é ou não é merecida. No caso do Ricardo nunca foi tão merecida. Como dizia o Ricardo sempre que havia uma derrota ou um desaire: a luta continua. E conforme fosse ele ou eu a dizê-lo o outro acrescentava, sempre com um sorriso sardónico: nós é que não.

Nós é que não.

Nós é que não.