Crítica

Rebeldes sem causa no Japão

Personagens num vazio moral, à deriva, uma das imagens mais estranhas e poderosas do Japão dos anos 60.

A febre não se curou nos 60 anos que nos separam deste filme
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A febre não se curou nos 60 anos que nos separam deste filme
História cruel da juventude, Festival de Cannes
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O Portão da Juventude, Japão, Cruel Story of Youth
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Contos Cruéis da Juventude foi a segunda longa de Nagisa Oshima, estreada no Japão em 1960, quando o realizador tinha 28 anos. Como sucedeu com outros casos, a sua descoberta por europeus e americanos foi tardia e “retrospectiva”: Contos Cruéis da Juventude só conheceu ampla divulgação no Ocidente a partir do final dos anos 1970, na sequência do “sucesso de escândalo” de O Império dos Sentidos. Descobriu-se então, com espanto, um filme que parecia um primo nipónico do jovem cinema europeu do princípio dos anos 60, e da nouvelle vague – mas feito numa altura em que ainda não houvera tempo para se falar numa “influência”.

Hoje conhecemos mais desse contexto e daquilo que ficou conhecido como a noberu bagu, a nouvelle vague japonesa, mas podemos imaginar o choque dos que o viram numa altura em que a percepção dominante do cinema japonês de 60 ainda era o classicismo tardio dos filmes de Yasujiro Ozu. Sobre essa diferença não valerá a pena insistir mais. Mas vale a pena insistir em como o filme de Oshima continua a parecer “novo”, a sua energia difusa, confusa, às vezes caótica, a viver ainda maravilhosamente, porventura de forma mais genuína que noutros momentos futuros da obra de Oshima. Aqui há uma fúria, uma voracidade, que faz coincidir os temas da narrativa com a maneira como Oshima pratica o seu cinema: a exuberância cromática (os neóns coloridos das noites de Tóquio devem ser das coisas mais fotogénicas que já existiram), o tratamento do ecrã largo, a ser ocupado pelos corpos e pelos rostos, a montagem dinâmica, sincopada, às vezes ofegante. É um filme febril, e a febre não se curou nos quase 60 anos que nos separam dele.

E, depois, é um filme que podia ter a mesma epígrafe do filme de Nicholas Ray: “este rapaz e esta rapariga não foram propriamente apresentados ao mundo em que vivemos”. Os filmes de Ray – até pelas cores… – sobre uma juventude tão rebelde quanto perdida parecem de facto presentes em Contos Cruéis da Juventude, e aí talvez seja legítimo falar numa “influência”. Nem Mako nem Kiyoshi, o par de hustlers (assaltam homens de meia idade, “respeitáveis”, que ela seduz) sabe bem o lugar que ocupa no mundo. Vivem do seu lust for life, numa inconsciência – até histórica, como na cena em que assistem, sem se envolverem nela, a uma manifestação contra um acordo militar nipo-americano. São outsiders, fora do mundo, da política, da história, existem apenas num wild side, como energia destrutiva, sabotadora, os homens que eles assaltam representando a sociedade “aceitável”, burguesa, conservadora. Mas daí que o olhar de Oshima seja sempre de enorme ambiguidade, sem condenação (gosta das suas personagens) mas também sem empatia. Filma-os como produto simbólico dum Japão em crise de identidade, a erguer-se da derrota na II Guerra, titubeante entre o tradicionalismo e a modernidade. Como se existissem num vazio, moral em primeiro lugar, e andassem à deriva. Oshima não lhes oferece um porto seguro, e isso parece menos uma condenação deles do que daquele Japão, de que este filme permanece uma das imagens mais estranhas e poderosas.