Crítica

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Uma pequena pérola zen sobre pais e filhos, partidas e chegadas, à sombra tutelar de Ozu

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Columbus, Film
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Kogonada, Columbus, John Cho, Columbus, Film
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Ainda é possível um filme aparecer vindo da “esquerda baixa” e surpreender-nos pela positiva – é, até, inexplicável que Columbus, revelado há ano e meio em Sundance, tenha passado “por baixo do radar” de críticos e festivais europeus que andam por aí a apregoar como descobertas cineastas muito menos interessantes do que o vídeo-ensaísta coreano-americano Kogonada. Em tempo de estreia na longa-metragem, Kogonada conta uma história simples de partidas e chegadas, viagens e estadias, centrada na cidade americana de Columbus, no Indiana, peculiar e inesperada meca da arquitectura moderna, onde duas pessoas se encontram quase por acaso. Jin é o filho de um arquitecto coreano hospitalizado durante uma visita à cidade, que regressa de Seoul para cuidar do pai; Casey interrompeu os estudos para trabalhar na biblioteca local, e resiste a entrar na vida adulta porque não quer deixar a mãe sozinha.

Os ecos de Ozu são constantes, quer narrativa quer formalmente – desde a simplicidade quase zen dos enquadramentos à exploração narrativa de uma dimensão familiar, de relações entre pais e filhos, mães e filhas (é curioso que Columbus chegue às nossas salas em paralelo com a reposição de Primavera Tardia, onde também encontramos uma filha sem vontade de abandonar o lar). Mas Columbus remete também, por exemplo, para o Disponível para Amar de Wong Kar-wai, no modo como tudo é sugerido mais do que dito, filmado mais do que contado – e o modo como Kogonada usa a arquitectura de Columbus, como espaços de abertura ao outro que enriquecem e amplificam a humanidade de quem os habita, locais quase de terapia emocional, é absolutamente magnífico. Parece que não acontece nada em Columbus; na verdade, acontece tudo, desde que se saiba ver.