Opinião

A realidade paradoxal e a tragédia dos comuns

O que é a realidade hoje, em plena era digital? Num mundo cada vez mais virtual, quando olhamos o que é que vemos?

 

Há hoje cada vez menos evidências discursivas, mas duas são especialmente reveladoras nos tempos que correm: a primeira diz-nos que a realidade é cada vez mais paradoxal e em definitivo o que parece não é, a segunda diz-nos que nos abeiramos de um limiar perigoso, de uma iminente tragédia dos comuns. De facto, raramente a realidade se deixa apanhar e, agora, muito menos, porque se tornou muito mais escorregadia e furtiva. O que é a realidade hoje, em plena era digital? Num mundo cada vez mais virtual, quando olhamos o que é que vemos? Apetece dizer, quanto mais olhamos menos vemos. O “Pare, escute e olhe” de ontem, já não chega nos dias que correm. Paramos, mas não reparamos, escutamos, mas não ouvimos, olhamos, mas não vemos. Estamos em apuros. O nosso mundo encolheu dramaticamente e o drama dos limites é, também, uma anunciada tragédia dos comuns. Ao encolher, o nosso mundo colocou os bens comuns da humanidade ao alcance dos irresponsáveis.

Façamos então uma brevíssima incursão ao “centro do mundo” e tentemos declinar alguns paradoxos da realidade hoje, bem como a eventualidade de uma tragédia dos comuns.

  1. Os paradoxos da realidade, hoje

1. As sociedades são cada vez mais invisíveis e coreografadas

As sociedades abertas e cosmopolitas em que vivemos são sociedade de risco elevado e iminente que precisam de assegurar um mínimo de proteção apropriada, pelo menos a ilusão de uma proteção. Não admira, pois, que elas sejam cobertas por cortinas sucessivas, que as tornam pouco transparentes. Nessa circunstância, os nossos olhos são apenas olhos, uma pele fina para as primeiras visualizações, apenas isso. Por outro lado, vivemos permanentemente em ambientes simulados, somos, sobretudo, atores e personagens constantemente comprometidos numa vertigem representativa, utilizando inúmeras máscaras que usamos conforme as circunstâncias e as conveniências. Nessa cultura da representação e da simulação, a cenografia e a coreografia são atividades de composição extenuante que nos deixam próximos da exaustão.  Imagine-se, agora, o princípio da realidade a contas com a “simulação dos objetos” quando estes, por via da “internet das coisas”, começarem a “ditar, também, a sua realidade”.

2. As sociedades estão mais próximas do caos do que da ordem

Somos cada vez mais um campo desestruturado à beira do caos e é cada vez mais estreita a margem ou o limbo em que vivemos, enquanto experimentamos a sensação do risco iminente. Quando todos comunicarem entre si – pessoas, coisas e inteligência artificial – através de uma internet totalmente acessível e distribuída teremos atingido o paroxismo absoluto, uma espécie de histeria coletiva de informação e comunicação num ambiente totalmente saturado, se quisermos, uma espécie de grande indigestão coletiva.

A velocidade é a nossa imagem de marca e cada velocidade revela-nos e devolve-nos uma grelha de leitura da realidade. O passado e o futuro são, digamos, aspirados para o momento presente e nesse movimento perdemos não apenas o lastro histórico, mas, também, a promessa do futuro que nos garantia, ao menos, a esperança de uma expetativa. Num tempo quase irreal em que vivemos, o presente é, digamos, uma mera circunstância, um epifenómeno na grande seta do tempo e destinado a ser devorado por um vulgar ato de consumo.

3. A realidade é um assunto interpretativo, as sociedades estão obrigadas a aprender constantemente

Esta pode ser uma excelente notícia. Sendo a realidade um assunto interpretativo, isso quer dizer, muito modestamente, que as sociedades estão obrigadas a aprender constantemente, num exercício de experimentação feito de aproximações sucessivas. O nosso arsenal teórico e, muito em especial, o campo das ciências sociais e humanas, composto de conceitos, categorias, tipologias, padrões, normas e procedimentos, com origem no “iluminismo moderno e na cultura analógica” estão definitivamente postos em causa e a academia deve preparar-se para rever o seu estatuto científico eminente se não quiser ser um ator secundário que corre pelo lado de fora da realidade da cultura tecnológica e digital.

Por outro lado, na era dos dados e das multidões, onde reina o algoritmo-mestre e a metalinguagem normalizadora, estamos obrigados a suspeitar para conhecer. Digamos que estamos a atualizar para o século XXI o princípio cartesiano da dúvida metódica ou sistemática. A evidência dos dados é uma “arma de destruição matemática” (Cathy O´Neal, 2016) e, por essa razão, não devemos confundir a correlação estatística com a explicação racional. Entre a descontextualização da evidência estatística e a plurissignificação da realidade, é aqui que nos encontramos hoje, algures entre a hermenêutica e a terapêutica transpostas para a era da cultura digital.

4. O risco sistémico, o dano colateral, as interações fortuitas e a socialização do prejuízo

Há uma parte da realidade que nos escapa em grande medida, aquela que o risco global transporta até ao âmago dos nossos próprios problemas. Cresce muito o risco moral e a eventualidade de um dano colateral e, do mesmo modo, cresce o contencioso de responsabilidade que procura dirimir o que é responsabilidade própria e o que é responsabilidade alheia e/ou coletiva. Com alguma sorte talvez possamos obter a mitigação do dano, quase sempre através da socialização do prejuízo que o contribuinte pagará no tempo próprio.  

Por outro lado, nas sociedades de risco global e sistémico, estamos obrigados a desenvolver treino específico e capacidades especiais para entender e antecipar como se forjam e desenvolvem as interações fortuitas e, por via delas, as descobertas acidentais.  Este é o grande paradoxo da realidade: quanto mais incerteza mais liberdade. Alarga-se o campo das possibilidades e logo, também, o campo do episódio acidental. Por outro lado, ainda, os sinais dessas interações acidentais podem ser de tal modo fortuitas e furtivas que dificilmente caberão no interior das nossas métricas conceptuais e instrumentais habituais. Donde, poderíamos dizer, para uma interação fortuita, precisamos, urgentemente, de um caçador furtivo.

5. O universo da inteligência e a debilitação da economia da atenção

Na sociedade da informação e da comunicação em que vivemos a inteligência deixou de estar contida nos limites humanos originais. Com efeito, hoje em dia, a inteligência está dispersa e difusa, manifesta-se sob múltiplas formas e interage com praticamente tudo o que nos envolve. Deste ponto de vista, a realidade não para de aumentar todos os dias à medida que a inteligência se transfere para ecossistemas e ambientes inteligentes que são extensões da nossa própria inteligência. As faculdades humanas estão a transitar para fora do seu habitat biológico, o corpo humano, para se instalarem em dispositivos tecnológicos transumanos e pós-humanos cuja configuração futura nem sequer imaginamos. Com efeito, mergulhámos num imenso oceano de informação, experimentamos uma vertigem permanente para separar o essencial do acessório e lutamos com imensas dificuldades para administrar a nossa economia da atenção. No final do dia estamos exaustos e no dia seguinte, ainda debilitados, tudo recomeça de novo. Nesta vertigem o foco da atenção converte-se num turbilhão, talvez, mesmo, em delírio e alucinação.

  1. O drama dos limites e a tragédia dos comuns

As grandes transições anunciam-nos o drama dos limites e a tragédia dos comuns. A extra-territorialidade das grandes transições “pulveriza” todos os limites e fronteiras anteriores e precipita-nos perigosamente para uma tragédia dos comuns de consequências incomensuráveis. Os fatores provocadores são bem conhecidos: a globalização financeira predadora, as alterações climáticas e os riscos ecológicos, a transição digital e os riscos da inteligência artificial, as grandes correntes migratórias, o terrorismo internacional, o crime organizado e cibernético, a vaga nacionalista e populista e o advento de uma nova geopolítica. Quando todos estes riscos sistémicos requeriam uma grande ação comum internacional – para defender os bens comuns da humanidade –? assistimos a uma vaga nacionalista, populista e autoritária já consagrada na fórmula “regimes iliberais”, no seio mesmo dos sistemas democráticos. É o caso atual de alguns países da União Europeia, para citar apenas os mais próximos.

1. A ambiguidade e duplicidade das grandes transições

Face ao advento destas grandes transformações, que nos transportam para lá das fronteiras nacionais convencionais até ao universo da extra-territorialidade, qual terra de ninguém, estamos perante uma realidade emergente muito complexa sem direção e linha de rumo conhecidas. Neste imenso turbilhão magmático, a ambiguidade e a duplicidade são, para já, as principais características deste movimento civilizacional multidimensional.

O anúncio de uma nova era geoclimática designada de Antropoceno, o anúncio da chegada de um “ponto de singularidade em 2045” em matéria de inteligência artificial, bem como o advento de um transumanismo e uma nova biopolítica, a iminência de uma nova guerra fria no horizonte e a provável conexão/colisão entre os impactos das grandes migrações transcontinentais e o futuro das democracias liberais tal como as conhecemos no mundo ocidental, são algumas das linhas vermelhas que impendem sobre a governança mundial do próximo futuro. Vejam-se os casos recentes da COP 21, da crise do multilateralismo, do Facebook e da violação de direitos fundamentais, da escalada do conflito diplomático com a Rússia, da nova corrida aos armamentos, ou o caos em que se encontram continentes inteiros à beira do desastre humanitário.

No plano oposto, é possível entrever com clareza o outro lado do mundo. Falo das abordagens colaborativas e solidárias para explorar a convergência das transições. Trata-se de privilegiar a economia das multidões sob a forma de plataformas coletivas, utilizando as tecnologias digitais para promover a inteligência coletiva territorial à escala humana local e regional. Com efeito, a ecologia, a economia e a tecnologia poderão convergir em muitas áreas, por exemplo: as economias de energia e redução das pegadas respetivas, ao serviço da intermobilidade e contra a obsolescência e o desperdício, ao serviço da natureza pela aplicação da política dos 4R (redução, reciclagem, reutilização e reparação), pela mobilização e participação dos consumidores e cidadãos, pelas economias de proximidade e os consumos partilhados e colaborativos, pelas dinâmicas de inovação social inclusiva e o desenvolvimento do chamado 4.º setor, pela smartificação dos territórios e sua inteligência coletiva, pelas políticas de abertura e livre acesso de dados e respetiva segurança privada. A teoria dos bens comuns e a partilha de responsabilidade que algumas destas áreas implicam serão, sem dúvida, um bom pretexto para experimentar o governo dos comuns colaborativos.

2. A extra-territorialidade e a tragédia dos comuns

Onde colocamos os limites, como responsabilidade política inalienável, e até onde usamos os comuns, como governo colaborativo essencial, são dois desafios que não podemos abordar de ânimo leve. No tempo de Karl Polanyi (1944) o drama dos limites, a tragédia dos comuns e a noção de risco moral não tinham o alcance e a amplitude que têm hoje. Além disso, o progresso e a utopia estavam à sua frente, hoje, porém, à nossa frente, parece estar uma mistura acre de ansiedade e distopia. Por isso, e em face desta transição multidimensional, “a extra-territorialidade, o drama dos limites e a tragédia dos comuns” avisam-nos para as seguintes interrogações e desafios:

- Será que, perante “a extra-territorialidade e a tragédia dos comuns”, a transição ecológica contribuirá para repolitizar o nosso tempo, recolocando a equação do tempo no registo certo? Ou será que, ao contrário, a transição e a adição digitais contribuirão para despolitizar as nossas relações pessoais e sociais, vistas, cada vez mais, como egoístas e narcísicas?

- Será que o medo, a ansiedade e a insegurança transformarão a esfera pública num espaço de transação de inúmeros riscos, ameaças e perigos que põem em causa, constantemente, a nossa confiança e reputação, uma espécie de grande irmandade entre o Big Data e o Big Brother? Ou será que os principais protagonistas da política contemporânea têm consciência, em toda a sua amplitude, da força transformadora da sua convergência e da força destruidora da sua divergência?

3. Os “pontos de singularidade” para reflexão futura

Como não tenho respostas para estas interrogações e como também não tenho a certeza sobre se se trata apenas de uma conjunção infeliz de protagonistas ou se, pelo contrário, estamos a assistir ao “condicionamento de uma política do medo” que interessa a imensas corporações e grupos de interesse, deixo aqui alguns tópicos para reflexão futura, se quisermos, vários “pontos de singularidade” que, de resto, já nos acompanham há algum tempo:

- Estamos, claramente, colocados entre a fragmentação geopolítica e geoestratégica, a sair do multilateralismo do pós-guerra e a entrar numa nova era de equilíbrio de poderes e áreas de influência, onde a corrida ao ciberespaço e as várias encenações cibernéticas em redor da segurança e da insegurança serão um dos principais scripts do próximo futuro.

- Os episódios e as ocorrências climatéricas graves e severas tornar-se-ão mais intensas e mais frequentes minando a confiança e a reputação dos estados e das organizações internacionais, onde se incluirão as guerras por procuração, os refugiados ambientais, a fome e as epidemias, o colapso dos mercados de trabalho e da ajuda internacional que, em conjunto, estarão na origem de grandes fluxos migratórios.

- As democracias iliberais, a crise da representação política e os fascismos sociais de várias colorações tomarão conta da ocorrência em muitos países, praticando uma política do condicionamento e do medo onde as primeiras vítimas serão as políticas migratórias e o acolhimento dos fluxos migratórios, mas, também, as políticas ambientais e a transição ecológica.

- O progresso da inteligência artificial e a singularidade transumanista acontecerão inelutavelmente, à mistura com uma despolitização generalizada por via da alienação e adição digitais.

Nota final

Aqui chegados, constatamos, afinal, que declinar os paradoxos da realidade hoje significa, também, aumentar o campo da realidade, multiplicar os ângulos de observação e as perspetivas de olhar para um problema. A realidade é virtual, a virtualidade é real, e a inteligência deixou de ser meramente neurobiológica para se transferir e instalar em ambientes e ecossistemas digitais que, no limite, podem ser “seres transumanos ou mesmo pós-humanos”. Porém, talvez a maior limitação para abordar o problem-solving neste novo ambiente seja a descontextualização, nua e crua, que a inteligência automática carrega consigo e que, estou seguro, nos fará passar inúmeras provações. Por isso, e relembro as palavras de Gerd Leonhard a propósito dos prodígios da inteligência artificial, pode, talvez, dizer-se: “tal como foi necessário redigir um tratado de não-proliferação de armas nucleares, talvez um dia seja necessário escrever um tratado de não-proliferação de armas de destruição matemática”. Basta “apenas” que aconteçam alguns acidentes graves cuja responsabilidade seja atribuída, “afinal”, à utilização abusiva de sistemas de inteligência automáticos e autónomos!

Por outro lado, a crise generalizada do multilateralismo não anuncia nada de bom. É preciso impedir que a extra-territorialidade seja uma terra de ninguém, qual buraco negro onde tudo pode acontecer, a começar pela guerra das inteligências (Laurent Alexandre, 2017). Será, seguramente, uma grande dor de cabeça e uma tarefa gigantesca para os líderes mundiais. Em nome do futuro e dos bens comuns da humanidade, quem, afinal, deseja investir em mais e melhor humanidade?

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico