Opinião

Os partidos na Europa e a política europeia em migração (III)

A Alemanha não está sozinha. O sistema partidário italiano explodiu, o francês implodiu, o espanhol naufragou, o britânico já só subsiste para quem não quer ver.

1. A crise política alemã que atravessa, neste preciso instante, a sua fase aguda nada tem de singular ou excepcional. Por mais espantosa que possa afigurar-se aos olhos de alguns, esta crise do sistema partidário inscreve-se exemplarmente naquilo a que tenho chamado a “migração” da política europeia.

Antes do mais, é preciso relembrar que a mudança radical do sistema partidário alemão não começou agora. Entre o pós-guerra e meados dos anos 90 – até à reunificação, portanto –, o sistema político alemão (ocidental) pautava-se por aquilo que se denominava o bipartidarismo imperfeito. Tratava-se de um sistema de três partidos, dois grandes e um pequeno. Os partidos grandes representavam o centro-direita (CDU-CSU, essencialmente democrata-cristãos) e o centro-esquerda (SPD, basicamente social-democratas). O partido pequeno era um verdadeiro partido de charneira, que fazia alianças à esquerda e à direita, o FDP (liberais). O bloco de centro-direita, marcado historicamente pelas figuras de Adenauer e Kohl, estava dividido em dois partidos, um nacional e um regional bávaro. Neste pontificou Franz-Joseph Strauss, um bávaro carismático, que sempre alimentou algumas linhas de tensão com a sua congénere federal. Os sociais-democratas foram largamente marcados por Willy Brandt e Helmut Schmidt; já os liberais, pelo eterno Ministro dos Negócios Estrangeiros Genscher. Esta era a Alemanha do milagre económico, da conversão democrática, da primazia do Tribunal Constitucional, da integração europeia. Não houve nunca neste período, nem depois dele, qualquer governo minoritário. Os alemães eram totalmente avessos à instabilidade governativa; prezavam a previsibilidade.

2. Com a reunificação, o sistema tende a evoluir de um tripartidarismo para um pentapartidarismo. No início dos anos 90, com a adesão de cinco novos estados federados – os estados da Alemanha oriental –, os “herdeiros” do partido comunista (o antigo SED, baptizado PDS) passaram a ter uma representação modesta nos parlamentos “regionais” e no parlamento nacional. A sua importância viria a aumentar depois de 2005, quando se dá a cisão da ala esquerda do SPD. Oskar Lafontaine, um histórico do SPD, entra em ruptura com a “terceira vaga” blairiana, protagonizada por Schröder. A ala esquerda do SPD sai do partido e vem a fundir-se com os antigos comunistas, formando em 2007 um novo partido, o Die Linke (“A esquerda”). Antes deste, e seguramente mais importante, foi a criação e implantação dos Verdes. Provindos de uma esquerda alternativa, prevalente em meio urbano e até universitário, os ecologistas acabaram por formar um partido nos anos 90. Inicialmente, numa lógica anti-sistema, que depressa evoluiu, nomeadamente sob a batuta de Joschka Fischer, para uma esquerda de governo (que fez a coligação com Schröder). Houve quem vaticinasse que o sistema evoluiria para uma bipolarização com uma aliança natural à esquerda (SPD e Verdes) e a aliança correspondente à direita (CDU-CSU e liberais). A história não confirmou a bipolarização: por um lado, desde 2004, já houve 3 coligações de bloco central e, por outro, por exemplo, há estados federados onde a coligação de governo é feita entre os Verdes e a CDU. Em poucas palavras, há cerca de 20 anos que o sistema partidário alemão já não é o que era. O mesmo se pode dizer do italiano ou do austríaco, por exemplo.

3. Durante os tempos da crise financeira, Merkel não se cansou de dizer que a sua linha estratégica – muitas vezes condensada na frase crítica “too litlle, too late” – tinha um desiderato: evitar a afirmação de uma força política de direita radical. Não faltaram críticos que – comungando uma visão que recentemente aqui deixou expressa Teixeira Fernandes – sublinharam que, para evitar o radicalismo de direita na Alemanha, ela o tinha alimentado nos países nórdicos, na Suíça e na Áustria, nos países de Visegrado, no Benelux, isto é, em todos os vizinhos. Merkel teria poupado o seu país a uma experiência traumática, a ascensão da direita radical, mas pagando o preço de a ver prosperar à sua volta. Múltiplas eleições no nível estadual e as últimas eleições federais (2017) defraudaram o almejado “escudo” contra a direita radical. A Alternativa para a Alemanha, depois de passar da agenda económica para a agenda xenófoba, tornou-se o terceiro maior partido com 92 deputados. Passou-se para um sistema hexapartidário, que dispõe de um concorrente ultra-conservador para o centro direita da CDU e CSU.

É justamente essa pressão que, catalisada pelas eleições estaduais na Baviera, motiva a deriva em curso da CSU. É verdade que a Baviera, no sudeste alemão, é a porta de entrada da rota dos Balcãs e da rota do Sul e que foi o estado que mais refugiados e migrantes recebeu. E que a liderança bávara tem as “costas quentes”, atentas as posições dos seus vizinhos de Visegrado, da Itália e, em especial, do chanceler austríaco Kurz. Mas também é sabido, Seehofer, líder da CSU e ministro-presidente até Março último, rivaliza com Merkel desde os alvores da liderança desta. A CSU sonha em tornar-se uma força política conservadora, de alcance nacional, que atraia a ala direita da CDU e os eleitores perdidos para a AfD. Uma quimera, pura quimera, que consagrará um sistema heptapartidário e consumará a “escandinivização” da paisagem política teutónica. O fantasma de Weimar volta a pairar.

4. A Alemanha não está sozinha. O sistema partidário italiano explodiu, o francês implodiu, o espanhol naufragou, o britânico já só subsiste para quem não quer ver. Em todos, mesmo no britânico, a nova polaridade – ainda que de modo nem sempre evidente – está na fissura entre correntes europeístas e nacionalistas, entre forças globalistas e isolacionistas. É esse o novo eixo de diferenciação política e partidária. E vai ser à sua luz que, se a democracia liberal resistir, os sistemas partidários se vão reconfigurar. Se a democracia liberal resistir.

SIM e SIM

SIM. António Vitorino. A eleição para Director-Geral da OIM não é apenas uma boa notícia para Portugal. É uma boa notícia para os migrantes e para o sistema de relações internacionais.

SIM. Rui Rio. A visita a Angola e a recepção pelo Presidente João Lourenço mostram a prioridade política e o reconhecimento internacional. Há gestos que falam por si. De ambos os lados.