O Terreiro do Paço vai ser um hotel... numa Lisboa imaginada

Uma praia de areia e uma marina, um faustoso jardim exterior e um hotel com entrada pelo Arco da Rua Augusta: assim seria Lisboa com um resort à beira Tejo, mas tudo não passa de uma exposição.

Praça do Comércio
Fotogaleria
Shifting Realities Collective 2018
,
Fotogaleria
Shifting Realities Collective 2018
Praça do Comércio
Fotogaleria
Shifting Realities Collective 2018
,
Fotogaleria
Shifting Realities Collective 2018
Praça do Comércio
Fotogaleria
Shifting Realities Collective 2018

“Não há sítio em Lisboa que mais dano cause ao espírito público do que a arcada do Terreiro do Paço”. Mais de um século depois de a frase ter sido escrita, em 1900, por Alberto Pimentel em Vida de Lisboa, conclui-se que os lisboetas não perderam o afecto à praça que abre as portas da cidade. Será por isso que a qualquer intervenção que se lhe faça, rapidamente se levantem vozes, seja contra ou a favor. 

Nos últimos dias, um resort de luxo, privado, à beira Tejo plantado começou a fazer borbulhar as redes sociais com os defensores do património da capital e temerem a possibilidade de “privatização” deste espaço icónico da capital. Por outro lado, há quem tenha achado bonita a devolução de algum verde ao Terreiro do Paço - ainda que sem a estátua de D. José -, mas a verdade é que o Lisbon Resort Hotel não passa de uma proposta futurista, de uma Lisboa distópica que, entre cerca de 50 “Futuros de Lisboa”, poderá ser vista numa exposição que o Museu de Lisboa e a empresa de Cultura do município (EGEAC) estão a preparar. 

De 12 de Julho a 18 de Novembro, por dois pisos do Torreão Poente da Praça do Comércio, vai poder ver-se Lisboa - não se sabe se só pelos olhos de lisboetas -, através de “obras de ficção, narrativas inventadas”, diz ao PÚBLICO a directora do Museu de Lisboa. É uma oportunidade, diz Joana Sousa Monteiro, para se pensar Lisboa, seja sobre o passado, o presente ou o futuro: “uma exposição sobre o futuro é sempre uma exposição sobre o presente”. 

É precisamente do presente da cidade, da “população [que] é despejada dos prédios do centro da cidade para dar lugar a hotéis ou alojamentos turísticos”, da “privatização de infra-estruturas e de património públicos [que] tem também acontecido sem grande resistência”, que um “colectivo de autores”, assim querem ser identificados, pensou uma possibilidade de Lisboa futura. No futuro que propõem, um “poder maior” seria capaz de despejar os ministérios da Praça do Comércio e vedar o acesso público a este espaço outrora comum, escrevem os autores ao PÚBLICO. 

As imagens do projecto, que assustou alguns lisboetas, revelam uma área de 35 mil metros quadrados que “mantém a imagem da construção pós-terramoto, definida pelo Marquês de Pombal a partir de 1755, mas adaptada a todos os padrões de conforto e luxo exigidos nos dias de hoje”, lê-se na descrição do site. Com a promessa de “exclusividade no coração de Lisboa”, os hóspedes e residentes do resort teriam direito a um grande jardim exterior, praia de areia e marina, sendo que a entrada seria feita pelo portão sob o Arco da Rua Augusta.

“Temos tido muita atenção às dúvidas e medos que os cidadãos têm manifestado nos últimos tempos e que nós próprios também sentimos. Aqui exploramos algumas dessas ansiedades, que empoladas têm esta dimensão megalómana e desproporcionada: vemos um crescimento massivo da construção em altura, a privatização do espaço público, o desrespeito pela História local; o luxo e a exclusividade, uma zona inacessível ao cidadão comum”, diz o colectivo. E é também assim que procuram justificar a “vertiginosa” – a palavra é deles – afluência ao site que criaram para divulgar o trabalho, que em cinco dias foi visitado 32.700 vezes e o link partilhado mais de mil vezes no Facebook.

Mais do que uma crítica, os autores da proposta querem que o distópico Lisbon Resort Hotel seja “um pretexto” para abrir “discussões necessárias” e lançar “uma reflexão profunda” sobre o futuro das cidades portuguesas. 

Dez salas de futuros

O Museu de Lisboa diz ter recebido cerca de 160 propostas e que apesar de o prazo ter acabado continuam a receber mais ideias, entre frases, pequenos contos e fotografias. 

“Houve propostas que têm carácter poético. Deparámo-nos com pessoas que adoram Lisboa, que querem exprimir o seu amor pela cidade”, diz Joana Sousa Monteiro. O que há, sobretudo, destaca a directora do Museu de Lisboa, é uma “diversidade de perspectivas” e ainda que as haja pessimistas, acabam por não ser “catastrofistas”. De cheias na baixa, ao receio de alguma perda de identidade, como reflecte a proposta do Lisbon Resort Hotel. 

“A reabilitação das cidades é vital e o turismo, na sua essência, não é um factor negativo (turistas todos somos alguma vez na vida!). Mais do que resolver problemas, temos de os antever e antecipar as acções, e não apenas tomar medidas paliativas”, nota o colectivo. 

Na exposição vão poder encontrar-se cerca de 50 “profecias” ditadas por anónimos de Lisboa, que foram seleccionadas pelo geógrafo João Seixas, pelo arquitecto Manuel Graça Dias e pela engenheira do ambiente Sofia Guedes Vaz. 

No entanto, a exposição está longe de se esgotar aí. Será preciso percorrer dez salas para se passear pelos futuros de Lisboa. Na verdade, já se pensou, no passado, o futuro de Lisboa. É assim que arranca a exposição, onde serão mostradas imagens e textos de autores que desde o século XVI pensaram a cidade num futuro longínquo. 

Às reflexões dos comissários juntam-se as de mais especialistas e pensadores, como Sobrinho Simões ou Viriato Soromenho Marques, a quem foi pedido que fizessem uma reflexão sobre o ponto de situação da sua área disciplinar e sobre o futuro dessa área aplicada à cidade de Lisboa. O resultado está num catálogo que compila 12 ensaios que versam sobre 12 áreas diferentes, das neurociências, ao ambiente e sustentabilidade, à criatividade, psicologia ou economia.

A exposição abre no dia 12, às 18h00, e estará patente de 13 de Julho a 18 de Novembro, de terça a domingo, das 10h00 às 18h00 (última entrada às 17h30). A entrada para os "Futuros de Lisboa" custa três euros.