Pórtico da Glória da Catedral de Compostela recupera cores medievais

Já está terminado o restauro na obra realizada no século XII pelo Mestre Mateo. Monumento vai poder ser visitado a partir de 27 de Julho e até ao Outono. Depois, logo se verá.

Alberto Núñez Feijóo, Catedral de Santiago de Compostela, Pórtico da Glória, Folk Segovia
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O Pórtico da Glória foi reinaugurado esta segunda-feira na presença da rainha emérita Sofia Xoan Rey/ EPA

Doze anos de estudo, planificação e trabalhos de restauro e 6,2 milhões de euros depois, chegou a hora de podermos ver, tão perto quanto possível, o esplendor e as cores históricas (algumas delas ainda das camadas originais) do Pórtico da Glória, a peça de filigrana escultórica que marca a Catedral de Santiago de Compostela, na Galiza.

O painel que se tornou o ex-líbris deste templo da capital galega construído no século XII e que é um dos expoentes do estilo românico na Europa acabou de ser restaurado, e o fim da intervenção foi assinalado oficialmente esta segunda-feira de manhã com a visita da rainha emérita de Espanha, Sofia.

O acesso público ao Pórtico da Glória vai ser aberto, de forma condicionada, a partir do próximo dia 27 de Julho e até ao próximo Outuno. Nessa altura, irá começar uma nova fase de obras de restauro noutros pontos da catedral, que decorrerá até 2021, ano do próximo Xacobeo (Ano Santo). A Fundação Catedral de Santiago garante, no entanto, que durante este período serão igualmente permitidas visitas ao pórtico, mas em condições que só serão definidas mais tarde.

O Pórtico da Glória é uma obra que foi confiada pelo rei Fernando II de Leão, em 1168, ao escultor e arquitecto conhecido como Mestre Mateo (c. 1150- c.1200 ou c.1217). Demorou 20 anos a construir, mas logo se tornou a imagem de marca da catedral, com a sua representação da Cidade Celeste através de toda uma iconografia retirada dos textos sagrados.

Inicialmente, e durante a Idade Média, funcionou como porta principal no templo, mas esta seria substituída, no século XVIII, por uma nova fachada (e entrada) virada para a Praça de Obradoiro, no lado ocidental da catedral.

Foi precisamente nesse período inicial, e em consequência do contacto mais directo com o clima e as intempéries, que o pórtico sofreu o maior desgaste, além de outro tipo de alterações sofridas ao longo dos séculos.

Foi para tentar recuperar o máximo possível das formas e das cores originais que a Fundação Catedral de Santiago, com o patrocínio exclusivo da Fundação Barrié – criada pelo banqueiro Pedro Barrié de la Maza (1888-1971), que presidiu ao Banco Pastor –, se lançou, em 2006, num ambicioso projecto de estudo, intervenção e restauro do Pórtico da Glória.

Com o apoio da Junta da Galiza e do Instituto do Património Cultural de Espanha (IPCE), foi criado um comité científico multidisciplinar e multinacional, com arqueólogos, arquitectos, geólogos e químicos, que começou por estudar o monumento. “Encontrámos um pórtico totalmente cinzento, escuro, mas havia muito mais policromia sobrevivente do que esperávamos”, disse Ana Labode, do IPCE, que coordenou a equipa de 12 técnicos e restauradores que desde 2015 lançaram mãos ao trabalho.

Na apresentação à comunicação social espanhola, na semana passada, foi explicado que esta intervenção que agora chegou ao fim exigiu 50 mil horas de atenção exclusiva à obra do Mestre Mateo.

“Começámos por encontrar zonas totalmente arrasadas, e os restos de cor caíam todos os dias ao chão”, disse Labode, explicando que, além da estabilização da estrutura, a preocupação da equipa foi recuperar as tonalidades mais antigas e mais próximas da versão original. “Hoje percebemos quão admirável foi o esplendor [da obra original], que atraía pelo reflexo da profusão do azul intenso e brilhante do lápis-lazúli e do ouro mais puro”, comentou o arcebispo de Santiago, Julian Barrio, citado pelo diário ABC.

Ao descrever uma década de intervenção no pórtico, José María Arias, presidente da Fundação Barrié, comentou: “O Mestre Mateo levantou esta obra em 20 anos; nós demorámos dez a recuperá-la.” E isso reflecte bem as dificuldades e a complexidade da operação. “Às vezes era assustador; não podíamos permitir o mais pequeno equívoco”, acrescentou Arias, lembrando que cada fase do processo foi “minuciosamente estudada e documentada”, tendo dado origem a uma base de dados, que, a partir de agora, se tornará de consulta obrigatória para qualquer futura intervenção no monumento.

Antes da criação da nova fachada da catedral no século XVIII, o Pórtico da Glória – recorda o diário El País – fora alvo de duas outras intervenções de monta: a primeira, em 1519, consistiu na abertura de portas sob o grande arco central, o que implicou a retirada de algumas esculturas originais, como a dos profetas Abraão e Isaac; no século seguinte, o conjunto foi alvo de uma “modernização” barroca, com a aplicação de novas policromias douradas.

A sucessão de policromias é, de resto, a principal marca da passagem do tempo e da acção do homem sobre o monumento. No decorrer da intervenção, os restauradores descobriram ainda vestígios da policromia medieval, dominada pelas cores azul e ouro, mas também rosa claro e outras, além de uma panóplia de motivos decorativos, figurativos e geométricos.

Liberto agora da capa de pó, sujidade e humidade, o pórtico também nos fala das agressões sofridas e de outras tentativas de restauro, muitas delas fracassadas. A mais recente das quais ocorreu no final do século passado.

Agora há claramente “um antes e um depois, no domínio do restauro das obras de arte”, comentou Ana Laborde, no final dos trabalhos, lembrando que monumentos como o Pórtico da Glória exigem manutenção permanente. “Espero que este projecto não acabe mais”, acrescentou esta técnica do IPCE.

É por essa razão que a Fundação Catedral de Santiago vai agora estudar criteriosamente a organização das visitas ao pórtico. Assim, a partir de 27 de Julho – que corresponde ao fim-de-semana imediatamente a seguir à celebração anual do dia deste apóstolo, a 25 de Julho –, os visitantes só poderão aceder ao monumento em grupos de 25 pessoas, para uma visita que não poderá ultrapassar os 15 minutos, entre as 8h e as 22h. No Outono, em data a designar, o Pórtico da Glória vai voltar a ser encerrado e encapsulado, iniciando-se então nova fase de obras na catedral. Mas os responsáveis pelo templo – avança o diário ABC – dizem que vão permitir a continuação das visitas, de forma ordenada e de acordo com a avaliação que entretanto for feita mal termine este período inicial.