Diário inédito do ano em que José Saramago recebeu o Nobel vai ser publicado 20 anos depois

O Último Caderno de Lanzarote, que estava esquecido no computador do escritor, vai ser publicado no dia 8 de Outubro, data em que passam 20 anos sobre a atribuição do Nobel da Literatura ao autor português.

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José Saramago CL CARLOS LOPES - PòBLICO
José Saramago, Criado a partir do chão, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Portugal, Prêmio Nobel de Literatura, Prêmio Nobel, Literatura, Prêmio Camões
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José Saramago na cerimónia de entrega do Nobel © Peter Mueller / Reuters

O Último Caderno de Lanzarote, que corresponde ao diário de José Saramago em 1998, o ano em que recebeu o Prémio Nobel da Literatura, é o inédito do escritor português que vai ser publicado simultaneamente no mercado português, pela Porto Editora, e no mercado espanhol, pela Alfaguara, em Outubro, comemorando os 20 anos desse acontecimento.

Este é o último caderno dos diários do escritor, explicaram Pilar del Río, da Fundação Saramago, e o actual editor do autor de Memorial do Convento, Manuel Alberto Valente, no dia em que as suas editoras, a portuguesa e a espanhola, anunciaram por comunicado a publicação deste inédito. O diário começa no dia 1 de Janeiro de 1998 e termina no final desse ano, mas incluirá também duas entradas relativas ao primeiro mês do ano seguinte, uma a 9 de Janeiro e outra a 14 de Janeiro.

“A última palavra que José [Saramago] escreveu nos seus diários é… digna”, contou Pilar del Río. Mas o seu sentido só se percebe se se contar a posição em que estava Saramago: o escritor fora abordado numa loja quando estava de rabo para o ar à procura de uma meia — “uma posição tão pouco digna”, escreveu nessa última entrada do seu diário.

Quando José Saramago (1922- 2010) apresentou Cadernos de Lanzarote V em Madrid, já falava deste manuscrito, mas adiantou então que não sabia se teria tempo para concluir a tarefa devido às limitações de agenda que o Prémio Nobel lhe havia trazido. Pilar del Río descobriu duas notas datadas de 2001 (uma no jornal português A Capital, outra no jornal espanhol El Comercio, sediado em Gijón) em que se referia também a existência do tal caderno, com publicação prevista entre Janeiro e Fevereiro de 2002 pela Editorial Caminho, através daquele que era o editor de José Saramago à época, Zeferino Coelho, o que acabou por nunca acontecer.

“Curiosamente, na edição espanhola que agrupa o último volume dos Cadernos de Lanzarote, na última página Saramago escreve: ‘Existindo inédito um sexto Caderno, está claro que seria jurar em falso dizer que depois do quinto Caderno não haveria mais nada’”, explicou Manuel Alberto Valente.

Por que é que este Caderno só aparece agora20 anos depois de ter sido escrito, e simbolicamente no ano em que se comemora o 20.º aniversário da atribuição do Nobel? Pilar del Río reconhece que há uma certa perplexidade perante o facto de o autor, vários editores e a tradutora, sabendo da existência deste Caderno, nunca mais se terem lembrado dele: “É surpreendente, mas foi assim que aconteceu. Na voragem daqueles anos, José Saramago publicou A Caverna [2000], entretanto outro livro se seguiu...”

Mais "cultural e ético"

A pasta Cadernos de Lanzarote estava no computador de José Saramago, e sempre que Pilar del Río lá entrava pensava que continha apenas os cadernos que já estavam publicados. Mas, no final de Fevereiro — quando estava à procura de uma referência a uma determinada conferência, a pretexto do livro que reúne conferências e discursos públicos de José Saramago, e que o seu biógrafo Fernando Gómez Aguilera, autor do livro e curador da exposição José Saramago. A Consistência dos Sonhos, está a organizar —, a viúva do escritor fez o que nunca tinha feito. Clicou na pasta e deparou-se com: caderno 1, caderno 2, caderno 3, caderno 4, caderno 5 e caderno 6…

Pilar del Río sabia que existiam cinco cadernos e que havia outros textos dispersos que Saramago tinha escrito, mas pensava que estavam por organizar. Eram duas da manhã e, de repente, ficou surpreendida ao encontrar um caderno completo que nunca tinha sido publicado: “80% está totalmente acabado e uns 10% eram notas que ele tinha para continuar”, explica Pilar del Río.

“Com a atribuição do Prémio Nobel, a vida de Saramago transformou-se completamente, com as viagens e os convites. O tempo para desenhar esse caderno não foi exactamente igual aos anteriores. Há apontamentos, anotação de páginas... Num dia ele pode escrever apenas: 'Viagem a Madrid, conferência com fulano de tal'”, completou Manuel Alberto Valente.

“Quanto ao conteúdo, se há uma coisa que me emocionou profundamente pelo que significa, é o respeito pela profissão de jornalista. É que há dias em que José Saramago não faz outra coisa além de dar entrevistas. E [neste seu diário] não diz nada do que disse ou do que fez nesse dia, só coloca o nome do jornalista na página. Que respeito pela pessoa que o foi entrevistar!”, acrescenta Pilar del Río.

“Há neste Caderno menos de vida pessoal do que havia no primeiro Caderno.” A “presidenta” da Fundação Saramago lembra que nesse seu primeiro diário Saramago fazia referências ao chão que ele achava demasiado claro e ia tentando escurecer com bocadinhos de chá. Neste volume inédito “há mais posicionamento cultural e ético”: “É um livro que está muito relacionado com a América continental, com o Brasil e o México, sobretudo, com a Argentina, o Uruguai, a Colômbia”, adianta Pilar del Río. “Vinte anos depois, José Saramago continua a falar-nos.”

Um ano de homenagens

O Último Caderno de Lanzarote vai ser publicado a 8 de Outubro, o mesmo dia em que há 20 anos foi atribuído a José Saramago o Prémio Nobel da Literatura. A comemoração da data começa no Convento de São Francisco, com o Congresso Internacional José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel, organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Mais tarde estará, na sua edição em língua espanhola, na Feira do Livro Internacional de Guadalajara, no México, onde Portugal é o país convidado e está a ser organizada uma homenagem a José Saramago.

Por sua vez, a Fundação Saramago quer celebrar os 70 anos do aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos juntamente com os 20 anos do Nobel que Saramago recebeu em Estocolmo a 10 de Dezembro de 1998. Será na Culturgest, em Lisboa, um pouco mais tarde, a 15 de Dezembro, com o concerto Saramago 1998 — Memorial, em que a Orquestra Metropolitana de Lisboa interpretará uma composição de António Pinho Vargas a partir do romance emblemático de Saramago.

A fundação irá também publicar o livro Um País Levantado em Alegria, de Ricardo Veil — cujo título é uma homenagem a Eduardo Prado Coelho, quando este disse que naquela semana tinha percebido que era possível um país levantar-se em alegria com uma notícia. É um complemento absolutamente necessário" ao último caderno de Lanzarote, acrescentou Pilar del Río. E um retrato de como foram os dias do Nobel, a partir de 3 de Outubro e até meados de Dezembro, depois da entrega do prémio ao escritor, explicou Veil.

O livro revela, entre outras coisas, quem foi o primeiro português a saber que o Nobel ia ser atribuído a Saramago: um professor da Universidade de Estocolmo chamado para traduzir o discurso de justificação bem antes de ser público quem tinha sido o escolhido. E também conta quem efectivamente disse a Saramago que tinha sido premiado (uma hospedeira). Terá ainda uma segunda parte com algumas das mensagens que o escritor recebeu na altura.

Também Anabela Mota Ribeiro está a preparar um livro com as entrevistas que fez a Saramago e artigos que escreveu sobre ele, acompanhado por mais de cem fotografias de Lanzarote (sairá na Temas e Debates). Joaquim Vieira, por sua vez, está a preparar uma biografia do escritor, ainda sem data de publicação.

Neste ano de comemoração dos 20 anos do Nobel de Saramago, o único alguma vez atribuído a um escritor de língua portuguesa, Manuel Alberto Valente, o director editorial da Porto Editora, lamentou que “algumas entidades portuguesas, ou Portugal no seu conjunto, não tenham tomado consciência da importância do que isto significa, sobretudo num ano em que não vai haver Prémio Nobel”. Tanto quanto é seu conhecimento, não está a ser preparada nenhuma celebração oficial, nem a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) terá na manga qualquer evento especial na próxima Feira do Livro de Frankfurt, onde a editora irá expor no stand português as obras completas de José Saramago, que está a republicar. Ao PÚBLICO, a APEL contrapôs que tem "correspondido aos pedidos que a actual editora de José Saramago tem feito para a comemoração dos 20 anos da atribuição do prémio Nobel na próxima edição da feira".

Sérgio Machado Letria, director da Fundação Saramago, disse haver “a possibilidade de alguma colaboração com o Governo português e se calhar com o Teatro Nacional D. Maria II no sentido de se organizar alguma sessão ou um programa que celebre os 20 anos do prémio Nobel”. 

E o Ministério da Cultura adiantou mais tarde ao PÚBLICO que está a ser pensada “uma homenagem de cariz nacional” e que até 2020 “estão programadas diversas iniciativas”, não só em Portugal, mas também internacionalmente. Além da já referida homenagem na Feira do Livro de Guadalajara, durante a Feira do Livro de Frankfurt, “o nosso único Nobel da Literatura será igualmente homenageado”, assegura o gabinete de Luís Filipe Castro Mendes. E, “ao longo de todo o ano, a sociedade civil promove diversas iniciativas, com especial destaque para as bibliotecas públicas, a que nos associamos e apoiamos”.

A Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) tem também programada uma mostra que estará patente de Dezembro de 2018 a Janeiro de 2020. Ali serão expostos manuscritos existentes no espólio, o diploma do Nobel, que também está na BNP, e mais documentação relacionada com o prémio.