Opinião

Do futebol aos livros: a importância da palavra ou as ironias do desgosto

A Literatura é hoje um excêntrico espécime em exposição, quase sempre confinado ao canto da mais obscura sala.

Para Lídia Jorge e Gustavo Martin Garzo, no Encontro Passa a Palavra – Oeiras

Por estes dias de Mundial de futebol, de exames nacionais e comissões de gestão num clube que já foi grande, tweets e demais infantilidades dos vários “brunismos” de pacotilha, realizou-se a primeira edição de um festival sobre a importância da palavra em Oeiras, mais propriamente na Fábrica da Pólvora, em Barcarena. Nome do festival? “Passa a palavra – Festa dos ofícios do narrar”.

Com a presença de três autores maiores das literaturas portuguesa, espanhola e argentina, Lídia Jorge, Gustavo Martin Garzo e Alberto Manguel, respectivamente, esperava-se alguma repercussão por termos em dois dias (23 e 24 de Junho) três personalidades de relevo da cena literária. Porém, a repercussão deste encontro foi reduzida e tudo decorreu sob um relativo anonimato, comum, de resto, quando se organizam festivais literários que não apresentam nos seus cartazes os humoristas do regime, os bestsellers do romance que se diz policial ou histórico. É certo que houve participação de algum público, mas o esforço da organização para o sucesso deste evento embateu, pelo menos no sábado, dia 23 de Junho, pela manhã, na indiferença com que se receberam a autora de O Dia dos Prodígios e Martin Garzo, colonista do El Pais e premiado autor espanhol. Como “Vemos, ouvimos e lemos – não podemos ignorar”. No dia seguinte, registe-se, a sala encheu-se para ouvir Alberto Manguel, mas, como o próprio referiu, o público ouvinte era constituído por leitores já familiarizados com as questões da literatura, ou daquilo que latamente se quis que fosse “ofício do narrar”. A ausência de jovens, isto é, de estudantes, isso mereceu naqueles dois dias a tomada de posição quer de Lídia Jorge, quer de Alberto Manguel.

O tema era, para mais, aliciante: reflectir sobre os “ofícios do narrar”, a arte da palavra em tempo de novas indigências. Todavia, sucede que a Literatura é hoje um excêntrico espécime em exposição, quase sempre confinado ao canto da mais obscura sala e, por consequência, não lhe cabe já o papel de dinamizar os leitores ou a comunidade para qualquer espécie de utopia, substituída que foi, nos próprios festivais literários, por uma nova fauna e flora. Por isso, o artista literário (como diz M.S. Lourenço, e apropriadamente) é visto com desconfiança, sujeito pretensioso e excêntrico que não se adapta a esta época de bestas célebres...

Mas a pergunta impõe-se: que país estamos a construir com semelhante ideologia oca? Como combater esta espécie de novo fascismo que nos rodeia? Do futebol, às “jotas” partidárias, do artificialismo provinciano dos exames nacionais à crença de que basta gritar ridicularias num programa de música para se atingir a felicidade, que portugueses (e europeus) esperamos formar? Podemos ver, ouvir e ler e continuar ignorando os sintomas da degenerescência dos valores? 

É pena que, em regra, a Escola não possa escutar o que disseram Manguel, Lídia Jorge e Martin Garzo. É grave e triste, até porque se dá o caso – paradoxal, contraditório e irónico – de dias antes, no exame nacional de Português do 12.º ano, se pedir aos alunos que redigissem um texto de reflexão sobre o tema “a importância da palavra”, partindo de epígrafes de Eugénio de Andrade e de O’Neill. Ó ironias do desgosto! Mas como escrever sobre este tema e com que inteligência se a poesia, suprema arte verbal, está confinada, na prática docente, e nos programas do secundário, a meros exercícios instrumentais?

Para se escrever bem sobre esse tema, leu-se António Ramos Rosa (os textos introdutórios de Poesia Liberdade Livre) ou Ruy Belo (os de Na Senda da Poesia, em cujas páginas se opõe a palavra de poesia, original e inventiva, à palavra prática, pobre e quotidiana); deu-se a ler Umberto Eco (Não Contem com o fim dos Livros, Gradiva, 2017) ou os ensaios reunidos de Gil Jounard (Da Cultura e Do Livro, Gradiva, 2013)? Fiquemos com algumas impressões finais desse belo encontro “Passa a Palavra” onde se quis, com toda o empenho, pensar sobre o ofício da palavra.

Para Lídia Jorge, que falou no sábado para uma plateia de 19 pessoas, é incompreensível que a dimensão encantatória da poesia não seja hoje valorizada. As crianças, disse, questionando quem a ouvia, não cantam já em voz alta, adormecidas que estão pela padronização escolar, interessada em fabricar cidadão acríticos, materialistas e, diz-se, “competentes”...

Manguel afinou pelo mesmo diapasão. Acertou em cheio quando avisou: “a escola deve ser o lugar da imaginação contra a sociedade de consumo”; “nunca, como agora, estivemos tão perto do fim da civilização da palavra”. Se vemos, ouvimos e lemos, as palavras de Manguel são, no fundo, opostas às do nosso Ministério da Educação, que quer fazer da Escola mera entidade certificadora. O seu lema: “certificar com equidade”...

Que aluno pode, de facto, escrever algo de inteligente se a única coisa que se quer é “certificá-lo”? Resta-lhe, depois dos exames, o Mundial de futebol e entregar-se à cerveja fresquinha das esplanadas da pátria, mirando-se no poço sem fundo de um telemóvel de altíssima gama.