Da guerra

Um romance que surpreende pelo tom sarcástico com que o narrador olha para os palcos da guerra.

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enric vives-rubio

Depois de A Avó e a Neve Russa (Elsinore, 2017), João Reis (n. 1985) – um dos pouquíssimos tradutores portugueses de línguas nórdicas – surpreende com este segundo romance, A Devastação do Silêncio. E fá-lo pela segurança com que mantém, ao longo da narrativa, o ritmo singular, cadenciado, da linguagem. Surpreende também pelo refinamento do tom sarcástico – que no romance anterior associava a um humor subtil – e por vezes cínico. Por exemplo, quando afirma que na guerra é preferível morrer com uma bala, ou por estilhaços de granada, ficar “feito em pedaços… um pouco aqui, outro pouco acolá”, do que morrer de pneumonia, pois de doenças pode-se “morrer em casa” e não há nisso qualquer heroísmo: “de que morreu o seu filho lá na Flandres?... de pneumonia... de desinteria (...) não seria fácil para um pai, não era façanha que se alardeasse em convívios de amigos”.

É da guerra que este romance trata – ou melhor, de um dos seus palcos, talvez dos mais distantes do verdadeiro teatro de operações: um campo alemão, de prisioneiros aliados, durante a Primeira Grande Guerra. Entre os prisioneiros (várias nacionalidades: ingleses, franceses, russos, canadianos, etc.) há soldados do Corpo Expedicionário Português que participou em batalhas na Flandres. O narrador é o protagonista de toda a acção: um capitão português que não consegue provar a sua patente (por extravio de documentos) e por isso não é transferido para outro campo (só de oficiais) onde teria melhores condições. Obrigado a partilhar a sua estada com os compatriotas mais pobres e analfabetos, sente os efeitos da fome, da miséria, das pulgas e dos piolhos, vendo os companheiros definhar. Apesar das detonações ouvidas, afirma: “a guerra para nós era somente um campo com pulgas e piolhos, não havia que reclamar, tínhamos de ser pacientes”. Mas o que ele procura, na sua estranha maneira de ser, é o silêncio que permite sonhar e procurar sentidos para tudo aquilo, para aquele sofrimento, pois “nada se equipara ao silêncio como resposta a qualquer problema”. A procura de silêncio atravessa a narrativa, como quem busca uma porta para se evadir daquele campo. Pelo meio, vão sendo contadas histórias (do campo, das trincheiras, da vida civil), trágicas como todas as histórias da guerra, em que serve como fio condutor uma tentativa de relatar uma história obscura de como os cientistas alemães gravaram a voz do capitão português. É aliás este facto o que serve a João Reis para de vez em quando trazer a narrativa para um outro tempo, já no pós-guerra. Dois amigos encontram-se e sentam-se num café. Um deles vai bebendo chá – que pede sempre em duas chávenas, e que lhe sejam trazidas com um intervalo de vinte minutos – e vai insistindo com o outro para que conte a história da “ocasião em que os alemães gravaram [a sua voz] no campo de detenção para prisioneiros de guerra”. O outro, o narrador, parece ir adiando e contando aquilo que se assemelha a um caminho para chegar a um facto obscuro. E confessa: “falar é um acto lastimável, inútil, conversar cansa-me sempre, sobretudo com interlocutores metediços como o meu amigo”. É nesta estratégia narrativa que o romance tem o seu ponto fraco – parece um artifício desnecessário, de uma página no começo de cada capítulo, que serve apenas para quebrar o ritmo sem acrescentar nada ao modo de narrar, pois a história continua sempre no mesmo palco que tem a guerra como cenário.

Se o anterior livro do autor era um “romance de crescimento” – contudo não no sentido do bildungs roman alemão – narrado pela voz de uma criança, este não deixa de ter em comum essa procura de um “crescimento” interior, de uma aventura de descoberta de algo. E essa busca decorre com o ritmo rápido da escrita, que lhe marca o estilo muito diferente do de A Avó e a Neve Russa: com mudanças de foco, e atravessado por considerações, usando quase apenas vírgulas. Assim: “uma dúzia de homens, eu incluído, abria a vala para as latrinas da ala ocidental, que já transbordavam, descansámos amiúde sobre o cabo da pá, de preferência à sombra, a minha hora de trabalho estava quase terminada e Le Bidon fumava acima de nós, estávamos enfiados na terra até aos joelhos, à esquerda, um prisioneiro francês coçava-se, de certeza que tinha piolhos (…)”

Mais uma vez, João Reis toma como cenário lugares fora de Portugal (apesar de neste romance as personagens serem quase todas portuguesas, o que não acontecia no anterior livro). Refiro isto por parecer ser uma tendência recente de algumas obras de novos autores – o que não acontecia há alguns anos atrás, em que as histórias eram, invariavelmente, portuguesas.

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