Opinião

Para viajar até Lisboa não é preciso passar por Berlim

As evidências assinalam que Pedro Sánchez vai a Portugal para ganhar um aliado na sua nova posição europeia com um dos poucos partidos socialistas sólidos.

Depois das eleições de 20 de dezembro de 2015, o comité federal do PSOE decidiu travar a opção dos acordos pelo risco da ruptura da unidade nacional. Apesar disso, a primeira viagem de Pedro Sánchez foi a Lisboa com o propósito de abrir a possibilidade de um cenário de um “governo à portuguesa”. Desde essa data até à primeira moção de censura aprovada na democracia espanhola, os caminhos paralelos destes países separaram-se. Esta segunda-feira Pedro Sánchez voltará a Lisboa, agora como primeiro-ministro de Espanha.

A unidade das esquerdas tem sido a chave para afastar a direita dos governos em Espanha e Portugal. A solução governativa dos acordos à esquerda, apesar dos limites, contradições e insuficiências, que reconhecem em diferentes graus todos os atores, é uma experiência histórica e de sucesso em Portugal. Na sua interpretação desta viagem estratégica, os analistas políticos espanhóis estão à procura, pela boa imagem causada pela "geringonça", de mensagens ou sinais que traduzam acordos com o Podemos. No sentido contrário, os jornais portugueses focam-se no plano geopolítico após a afirmação de Pedro Sánchez de querer acrescentar Lisboa ao novo eixo Madrid-Paris-Berlim. Fica claro que desde Madrid só se vê a luz de Lisboa; entretanto, no ângulo português está-se a assistir a um nevoeiro pesado após o congresso socialista e o recente conflito com os professores. É verdade que a conquista do possível como prova política é radiante. Mas o sol é eclipsado pela lua.

A vitória épica de Pedro Sánchez contra o velho aparelho do partido, contra dirigentes destacados e desafiando a autoridade dos poderes económicos, teve como uma das suas linhas políticas superar a visão hegemónica do PSOE na esquerda, que caracterizava a sua participação no anterior sistema político bipartidário. António Costa percebeu três anos antes essa viragem com a abertura do arco da governação às esquerdas. Embora a pulsão da concorrência eleitoral pela maioria absoluta permaneça viva em ambos partidos, a ausência de negociação nas metas do défice em Portugal é um bom exemplo desse instinto; em Espanha, a governação de geometria variável ou, por outras palavras, “governar com o Parlamento”, parece também responder ao mesmo. No jogo da "geringonça", a relação de força dos socialistas permite-lhes esticar a corda, já que quem a quebrar perde. No fundo opera a lógica do voto útil.

O Podemos já tem anunciadas 20 propostas para um acordo alargado com o PSOE. Ainda não há nenhuma resposta direta. A direita espanhola está à espera de falta de acordos relativamente ao défice, e uma parte do PSOE parece seguir a mesma lógica que antes referi, ou seja, quem rompe perde. O Podemos exige baixar um ponto percentual para incrementar as pensões, criar um rendimento garantido e financiar políticas para as pessoas em situação de dependência. O sucesso do défice em Portugal em 2016, que permitiu a saída do procedimento do défice excessivo, deveu-se à ausência de cortes. Os acordos tiveram um papel chave, embora a pressão europeia não tenha sido tão intensa como em anos anteriores. Assim, no caso de Espanha, os acordos podem ser chave e, por exemplo, ir na linha da proposta orçamental que fez o PSOE antes de entrar no governo: uma subida de impostos sobre as grandes empresas. 

Como era de esperar, o quadro europeu está a reagir negativamente face aos acordos. O plano de estabilidade já está aprovado e em Bruxelas e Berlim não esquecem facilmente que Espanha tem um dos maiores défices. A esquerda perde quando não é possível governar de forma diferente face ao quadro europeu. Esta última afirmação, que Pedro Nuno Santos fez numa recente entrevista, responde com a necessidade de um diálogo entre as esquerdas sobre a questão europeia. Com certeza, seria um passo mais do que necessário para reformar esta União Europeia, cimentada através dos princípios e estruturas neoliberais. A Europa não é irreformável, como, tendo em vista a sua destruição, pretende a extrema-direita. Essa pretensa impossibilidade de reformas também é defendida pelos neoliberais, que vêem, na austeridade tecnocrática, um meio de reprodução dos seus interesses.

O alargamento do eixo Paris-Berlim para Madrid-Lisboa, embora Merkel não viva as suas melhoras horas na Alemanha e Macron necessite que a sua liderança na União Europeia seja percebida como real e não só retórica, não parece suficiente para inclinar a UE para o seu lado mais progressista. Esta semana, Macron, Renzi e Albert Rivera assinaram um acordo para construir esse novo espaço que quer o neoliberalismo progressista. Assim, as evidências assinalam que Pedro Sánchez vai a Portugal para ganhar um aliado na sua nova posição europeia com um dos poucos partidos socialistas sólidos; o que permanece oculto são as intenções de António Costa, que parece querer sondar outras forças políticas, nomeadamente o PSD, tendo em vista uma possível governação mais virada para o centro. Uma estratégia que o PS parece estudar depois do seu congresso e que resultou em algumas aproximações nesta legislatura, nomeadamente com os assuntos europeus.

Em política nada é rígido. E com apenas umas semanas, o novo governo de Espanha já está a ser uma referência global. A composição maioritária de mulheres na equipa ministerial e, sobretudo, a solidariedade para com os refugiados do barco Aquarius constituíram dois importantes gestos políticos. Ora bem, não conhecemos o programa, que será apresentado em julho. E no primeiro grande desafio para dar uma resposta à “crise migratória”, Sánchez e Costa aprovaram os campos de detenção europeus nos países de origem. As eleições europeias serão a primeira demonstração de força antes das legislativas portuguesas e já se prepara um grande evento que é preciso encher com conteúdo.