Reportagem

Quando um pai assume que, afinal, é uma mulher “trans”

Trinta e cinco pessoas que mudaram a menção ao sexo no registo civil já tinham filhos quando iniciaram o processo de transição. Como é que se explica a um filho que não se é o que se parece?

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Nelson Garrido

Foi a filha que lhe deu coragem para sair do armário. Quase dois anos e meio, uma graça como nunca vira, inconveniente como só visto, não batia nas portas antes de entrar. Viu-lhe as unhas dos pés pintadas e quis mostrá-las à avó. Eva assustou-se. Que diria quando percebesse que usava lingerie? Teria de se esconder da filha? Esconder-se da filha não seria afastá-la? Até quando conseguiria continuar a fazer de conta que era um homem num corpo de um homem?

Quem lhe dera ter um corpo de mulher. Há tantos anos que esse desejo a assaltava. “Consegui meter esse desejo dentro de uma caixinha, submetê-lo a ruído de fundo." De repente, lá estava a pequena a meter o nariz em tudo. O tal ruído de fundo tornou-se ensurdecedor. Tinha 35 anos, o emprego de que gostava, a companheira heterossexual, o pai e a mãe numa deriva religiosa. E se fosse despedida? E se a mulher a deixasse? E se os pais se desfizessem no desgosto?

“À medida que o tempo passa, isto torna-se cada vez mais inevitável”, pensou. “Se espero até a minha filha fazer 18 anos, tenho de sacrificar mais uma década da minha vida. E aí ela pode encontrar uma forma radical de lidar com tudo isto. Pode sair de casa. Se continuar a adiar isto, corro o risco de lhe dar uma educação preconceituosa. Não quero correr esse risco.”

Os olhos de Eva reluzem ao revelar este debate interior. Está sentada numa esplanada, de pernas cruzadas, sumida na sua aparência masculina. O processo de transição ainda agora começou. Para já, só fez cinco sessões de depilação a laser. Há uns dias, saiu pela primeira vez de casa com um vestido. Foi comer um gelado com a mulher, que está a tentar lidar o melhor que pode com a revelação feita em Novembro.

Vai fazer “a transição total”. Não vai ser fácil passar despercebida. “Tenho traços muito masculinos. Tenho 1,88 metros. Chego a qualquer lado, sou o cabeçudo.” Quando se imagina com um corpo de mulher, também imagina a filha a chamar-lhe pai. “Não acho que seja saudável ela tratar-se por mãe. Ela tem uma mãe. Não posso eu ficar com esse lugar. Eu vou ser sempre o pai dela.”

Conforme for tendo uma aparência mais feminina, descobrirá as implicações na relação com a filha. Há-de chegar à altura de lhe explicar que “género não é sexo” e que “importante é uma pessoa ser quem é e permitir que os outros sejam quem são”. Para já, quer é atirá-la ao ar e vê-la rir às gargalhadas.

Uma realidade nova

Desde que a lei da identidade de género entrou em vigor, no princípio de 2011, até ao final de Maio deste ano, 587 pessoas alteraram a menção ao sexo nos documentos. Desses, 35 já tinham filhos. Três registaram filhos já depois. Como é que se explica a um filho que não se é o que se parece? Como é que se lhe diz que se vai fazer a transição? E como é que eles lidam com isso? Há grande diferença entre as crianças e os adultos?

Não há notícia de estudos sobre parentalidade “trans” em Portugal. Há pistas vindas de fora. Uma equipa do Williams Institute on Sexual Orientation and Gender Identity Law and Public Policy, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, fez uma revisão de literatura científica e encontrou 51 referências. Ideias-chave: há mais mulheres do que homens “trans” com filhos; a parentalidade é mais frequente em pessoas que fazem a transição tarde; quem faz a transição já depois de ter filhos tem de renegociar a sua identidade e as suas relações com eles; a vasta maioria das pessoas “trans” que participou nos estudos afirma ter boas relações com os filhos; há queixas de discriminação informal, via outro progenitor, ou formal, via tribunais, nos processos de regulação das responsabilidades parentais.

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Miguel Feraso Cabral

Em vários textos e palestras, a terapeuta norte-americana Arlene Istar Lev, que se especializou no acompanhamento de pessoas lésbicas, gays, trangénero e suas famílias, descreve a dinâmica familiar expectável numa situação destas. Há filhos que são apanhados de surpresa. E filhos que vão vendo sinais de que o pai ou a mãe não é o que parece. Há um período de ajustamento que tende a ser sinónimo de crise. No turbilhão emocional, um ou vários membros da família tentam demover a pessoa “trans”. E num período de negociação. Por fim, restabelece-se o equilíbrio, que nem sempre equivale a aceitação.

Eva ainda pouco disto viu. Outras pessoas transgénero já passaram por essas fases todas, como Francisca.

Não aceitar, aceitar, nim

Francisca está com 60 anos. Ainda adolescente, já se enfiava no quarto para se maquilhar. Quando se casou, levou este lado para a intimidade com a mulher, Maria Eugénia. Introduziu-o como um fetiche. Eram os filhos ainda pequenos, começou a andar pela casa com maquilhagem, unhas pintadas, sandálias. “Eu chegava por volta das oito da noite, vestia-me, maquilhava-me e estava assim em casa e não sentia que os meus filhos tivessem problemas.”

Era um segredo de família. As crianças não levavam ninguém para casa. Com os namoros, isso mudou. Avisavam quando levavam alguém. Francisca não se vestia de mulher ou corria para o quarto e voltava a vestir-se de homem. Com o tempo, os namorados das filhas tornaram-se maridos. “As minhas filhas não iam estar sempre a avisar.” E Francisca foi ficando mais confinada.

Durante muitos anos, a hipótese de transição nem se colocava. Construíra a vida em torno da mulher e dos três filhos. A sua imagem pública era de marido e pai. O que aconteceria se anunciasse que, afinal, era uma mulher “trans”? A mulher ia aceitá-la? Os filhos iam aceitá-la? Que mudanças isso provocaria na vida de todos?

“Eu tinha um problema que não era muito fácil de resolver”, salienta. “Eu sou casada com uma mulher. Em Portugal, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não era permitido até 2010. Até aí, para alterar a minha identidade, tinha de me divorciar. Enquanto os meus filhos eram menores, também não podia alterar a identidade.”

Em 2011, o país passou a ter a lei da identidade de género que permite mudar o nome próprio e a menção ao sexo nos documentos sem fazer tratamento hormonal e cirurgias de reatribuição de sexo. E anunciou a criação da Unidade Reconstrutiva Génito-Urinária e Sexual do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, que arrancou no ano seguinte e  tem sido alvo de críticas.

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O ponto de viragem para Francisca foi uma formação sobre género. Reconheceu-se no que ouviu. Quando teve de fazer um trabalho, partilhou a sua história com os colegas. A partir dali, não havia volta atrás. “A partir de agora, tenho de ser eu. Mesmo que seja obrigada a ficar sem os meus filhos, sem a minha mulher, tenho de ser a Francisca. O Francisco tem de desaparecer.”

Tentou em vão encontrar as palavras certas. Os dias foram dando lugar às semanas, as semanas foram dando lugar aos dias. No final de 2014, reuniu a família. “Recordo-me de apagar a televisão e de sentar toda a gente a uma mesa. Disse-lhes que quando me vestia de mulher, quando me maquilhava, não era por fetiche.” Houve uma filha que saiu da mesa, indignada.

Deu início ao processo de mudança de nome próprio e menção ao sexo no registo, que a nova lei de autodeterminação de género deverá simplificar, acabando com a necessidade de relatório médico. Há dois anos, quando por fim reunia os documentos necessários, deslocou-se à conservatória. Uma filha foi com ela. A outra deixou de lhe falar. “Uma diz que eu tenho o direito de ser quem eu sou. A outra chegou a chamar-me aberração, palhaço. Quando alterei os documentos, perguntou-me onde estava o pai, se não tinha mais pai.”

De certo modo, o pai não existe. No assento de nascimento, já não consta Francisco. Agora, só lá está Francisca. Só que a declaração de nascimento de cada uma das suas filhas gémeas, de 31 anos, e do filho, de 35, só é alterada se eles quiserem. “Eles podiam ficar constrangidos se aparecesse lá: filho de Maria Eugénia e Francisca Solange”, concede. Pior seria se fossem menores. Não teria de andar com a papelada da regulação das responsabilidades parentais. Teria de contar a história toda vezes sem conta.

As gémeas nasceram com uma diferença de cinco minutos. Têm nomes que começam pela mesma letra do alfabeto, frequentaram as mesmas escolas, fizeram-se cabeleireiras, casaram-se no mesmo dia, têm um filho cada uma, só que isso tudo não as torna iguais. Se tiver de as descrever, Francisca dirá que uma é um doce e a outra um salgado.

Não era difícil saber o que ia na cabeça de uma das filhas: “Como é que eu posso mostrar ao meu pai que isto não altera o amor que eu sinto por ele? Como é que eu posso ajudá-lo a fazer a transição?” E na cabeça de outra: “Porque está ele a fazer isto? Posso convencê-lo a não fazer isto? O que é que eu vou dizer aos meus sogros? O que é que eu vou dizer às minhas amigas? Como é que eu vou explicar isto ao meu filho? Que tipo de relação vamos ter, agora?”

Conhece-as tão bem. E nem por isso lhe custa menos. “Não entendo”, meneia numa tarde de conversa, no pequeno restaurante que gere com a mulher, à beira da Estrada Nacional 14, no Câstelo da Maia. “Os meus filhos foram criados com o máximo de carinho. Sempre lhes dei tudo o que pude…”

Não é só personalidade. O contexto desempenha um papel. “Há sempre influências externas. Ali, possivelmente, foi isso que se passou. O marido da minha filha é sexista, homofóbico, transfóbico”, suspira. A outra filha já se divorciou. 

A literatura científica mostra que há quem nunca aceite, quem aceite bem e quem aceite com renitência. E Francisca teve isso tudo. É que o filho está num “nim”. “Dentro de casa, está tudo bem. Desde que alterei a minha identidade, nunca mais quis sair comigo.”

"Que me chame o que lhe apetecer"

Não lhe leva a mal. Sabe-o receoso dos preconceitos alheios. E, nesse embalo, pode imaginar o torpel que vai na sua cabeça: “Eu quero apoiar o meu pai, mas tenho vergonha. O que vou dizer se alguém for malcriado com ele ou se se puser a fazer piadas maldosas? O que vão pensar de mim?”

Nos netos não percebe reprovação. Do alto dos seus sete anos, o filho da gémea que a apoia explica o que lhe aconteceu: “Quando a avó Francisca era pequenina era menino por fora e menina por dentro. Agora, que a avó Francisca já cresceu, é menina por dentro e por fora”. O outro neto, filho da gémea que a despreza, conta cinco anos e já lhe disse: “O meu pai diz que só tenho uma avó (a mãe dele). Eu já disse ao meu pai que tenho três avós: a avó Gena, a avó Mila e a avó Chica.”

“As crianças não nascem preconceituosas”, comenta Francisca. “São os adultos que as tornaram preconceituosas.”

A idade pode fazer a diferença, ao que se depreende do artigo Adaptation and adjustment in children of transsexual parents, assinado por Tonya White e Randi Ettner na revista científica European Child & Adolescent Psychiatry. Entrevistaram 27 pais e 55 crianças e perceberam que as crianças que eram mais novas no momento da transição do pai ou da mãe tendiam a manter uma relação melhor com eles e a ter menos dificuldades de adaptação. As tensões entre pais encabeçam os factores de stress. O conflito parental tende a reflectir-se na relação entre a criança e o pai ou a mãe “trans”.

“É fundamental os filhos ou as filhas das pessoas transexuais saberem que o pai ou a mãe são a mesma pessoa”, acredita Sílvia, uma mulher de 45 anos que está a fazer a transição há quatro. “Não é por mudarem de sexo que deixam de ser um pai ou uma mãe. O amor de um pai ou de uma mãe mantém-se. Muita da força que eu tenho neste processo vem desse amor que tenho pela minha filha.”

A filha conta oito anos. “Ela sabe o meu novo nome, sabe que sou menina, sabe que vou ser operada.” E não dá sinais de mal-estar por causa isso. “Para ela, é natural”, parece-lhe. “Ela tem uma postura que devia ser exemplo para outros.”

Não é ingénua. Não faltam relatórios e estudos a atestar que o preconceito contra lésbicas, gays, trangénero e intersexo se estende às famílias. Não é por acaso que algumas crianças nem falam nisso na escola. Acha que a ajuda estar a crescer com esta realidade, sentir-se amada, ser uma menina inteligente e generosa.

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O nome próprio, o pronome e outros marcadores de género são ferramentas de reconhecimento social de identidade importantíssimas para quem está em transição. Sílvia gostava que a filha a tratasse pelo nome próprio. Disse-lhe isso pela primeira vez num centro comercial do Grande Porto. Sentaram-se num sofá. Havia gente a passar para trás e para a frente. “Expliquei-lhe que, como eu sou uma menina, as outras pessoas acham estranho que ela me chame pai.” A filha anuiu, mas continua a chamar-lhe pai. “Ela diz que não está habituada.” E Sílvia compreende. “É um bocado embaraçoso estar num sítio cheio de gente, como um shopping, e ela chamar-me pai, mas não quero estar a obrigá-la. Nem quero que isso seja uma questão para ela. O importante é que ela se sinta bem. Ela que me chame o que lhe apetecer. Quando for maiorzinha, se calhar vai ser diferente.”

A criança mostra-se aberta a outras possibilidades. “Uma vez, disse-me que preferia chamar-me mãe, mas para mim isso é mais estranho porque acho que a maternidade e a paternidade vão para além do género”, prossegue. Não abdica de ser pai. “A minha filha tem um pai e tem direito de continuar a tê-lo.”

Era já essa a posição de Eva e é também a de Francisca. “Não me importo que me chamem pai”, diz esta última. “A minha filha que é um doce de vez em quando ainda diz ‘papá’ e eu adoro. Foi assim sempre que ela me tratou. Não quero que me trate de forma diferente, porque pai serei sempre. O género físico que me permitiu ser pai nada tem que ver com o género sentido.”

Não serão atitudes raras. Érica Renata de Souza encontrou atitudes semelhantes ao fazer um estudo no Canadá. No artigo Papai é homem ou mulher? Questões sobre a parentalidade transgénero no Canadá e a homoparentalidade no Brasil, publicado na Revista de Antropologia da Universidade de São Paulo, diz que a parentalidade não está colada ao género sentido, mas ao laço anterior à transição. Os filhos têm uma relação parental estabelecida e isso sobrepõe-se à mudança de aparência do pai ou da mãe “trans”. Outros estudos mostram que não é assim quando a parentalidade acontece já depois da transição. 

Separações e divórcios

A parentalidade será uma das experiências mais marcantes de um ser humano. Tende a introduzir uma mudança drástica.

De certo modo, também foi a parentalidade que fez Sílvia assumir-se como mulher transgénero. Quando a filha nasceu, passou a ter sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo. Antes de lhe pegar, lavava as mãos uma e outra vez. Só pensava em doenças. Era como se o seu corpo não fosse seguro. Procurou ajuda. Durante a psicoterapia, começou a perceber até que ponto passara a vida inteira a castrar-se.

Tal como Eva ou Francisca, Sílvia era uma mulher "trans" e homossexual casada com uma mulher "cis" (que se identifica com o sexo que lhe foi atribuído à nascença) e heterossexual. Sempre vivera como um homem e sempre fora assim que a mulher a vira. “Ela lidou muito, muito mal com isto”, diz. “Acho que não quis logo divorciar-se porque tinha um trabalho que a forçava a ausentar-se muito e dava-lhe jeito eu ficar a cuidar da nossa filha.”

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Sílvia vivia nos Açores. Começou a ir a Lisboa às consultas, decidida a obter o diagnóstico de “disforia de género” que lhe permitiria alterar os documentos e avançar para os tratamentos e as cirurgias que tanto desejava. O processo é complexo e demorado. Com o diagnóstico, em 2014, veio o divórcio. 

A prática clínica de Zélia Figueiredo, responsável pela consulta de sexologia no Hospital Magalhães Lemos, no Porto, mostra-lhe que é comum os homens "trans" terem companheiras que apoiam a sua transição. O mesmo não acontece com as mulheres "trans". E isso tem muito que ver com aceitação do outro na sua diferença, mas também orientação sexual.

“Num mundo perfeito, as pessoas aceitariam as outras como elas são”, comenta Sílvia. “No mundo real, toda a gente tem os seus limites, os seus bloqueios, os seus preconceitos. É preciso trabalhar a diversidade. Parece que só há homem e mulher, homossexual e heterossexual e há muita coisa no meio.”

Há pouco mais de um mês, Sílvia mudou-se para casa da nova companheira. Para ela, mulher "cis", bissexual, tanto se lhe dá que Sílvia tenha um pénis ou uma vagina. Está, porém, desejosa pelas cirurgias de reatribuição de sexo. Quer que ela sinta, por fim, que o seu corpo corresponde à sua cabeça.

Eva não sabe o que esperar da mulher com quem está há 13 anos. “Ela diz que não se iria relacionar com uma mulher, mas ainda gosta de mim e está disposta a aprender. Ambos sabemos que pode chegar a um ponto em que não dá. Para já, vamos tentar, não vamos mais negar um ao outro seja o que for.”

Nada parece impossível. Francisca está com Maria Eugénia há quase 38 anos e acredita que assim continuará até que a morte as separe.

Um amor que prevalece

Maria Eugénia nem queria acreditar quando Francisca anunciou a transição. “Foi terrível”, diz. “Como muitas pessoas pensaram, eu também pensei: se é mulher, com certeza gosta de homens, já não gosta de mim. Ia perder a pessoa maravilhosa que ele sempre foi enquanto homem, enquanto marido.” Passou-lhe tanta coisa pela cabeça. “Porquê? Porquê agora? Porquê a mim?”

Houve muito choro, muita briga, muita noite mal dormida. Maria Eugénia mergulhou de cabeça numa depressão.

Tinha 15 anos quando se apaixonou por Francisco. “O meu marido amou-me sempre muito.” Ela gostava da vida que levavam. Tinham um pequeno restaurante de venda de leitão. Imaginava-se a envelhecer com Francisco, perto das filhas, a ver crescer os netos. “Parecia que os meus sonhos estavam todos a ir pela água a baixo. Eu pensava: já não me vou ver com o meu marido, velhinhos, de mãos dadas.”

Olhava para o marido e ouvia-o dizer que o Francisco morrera, que no seu lugar estava a Francisca e que a Francisca a amava tanto como o Francisco a amara desde a primeira vez que a vira. Como podia ela relacionar-se com aquela pessoa? “Nunca fui lésbica, não sou, nem vou ser.”

Pacificou-se. “Quando a gente ama uma pessoa, não há nada que faça desaparecer esse amor”, acredita. Pelo menos neste caso, o amor prevaleceu. “Tive de fazer o luto. Tive que aceitar que o Francisco já não estava ali para aquelas coisas que nós tínhamos antes... As relações sexuais. E pronto... Foi difícil. Mas para mim, neste momento, o importante é ter a Francisca ao meu lado.”

Não era só elas. Havia todo um mundo em volta, a começar pelos irmãos de Maria Eugénia residentes em França, que também precisava de fazer uma espécie de transição. Decidiu meter-se num avião e ir lá. Os irmãos ouviram, incrédulos. “E agora?”, perguntavam. “O que vai ser de ti? Vais ficar com uma mulher?”

Só um dos oito irmãos de Maria Eugénia a apoia na decisão de manter o casamento. Francisca teve mais sorte. Os quatro irmãos não se afastaram. E a mãe, de 84 anos, até reagiu bem. “Ela diz que eu sou o que eu quiser. Trata-me por filha”, sorri. Está a escrever um livro sobre a sua vida. Espera que o seu testemunho possa ajudar outras pessoas a sair do armário e a lidar com o vendaval inicial.

Francisca tem os cabelos compridos, os lábios pintados, como as unhas dos pés e das mãos. De manhã, feita a higiene pessoal, maquilha-se sempre. “Eu não me posso ver sem maquilhagem”, enfatiza. “Eu gosto de me olhar ao espelho e de ver traços femininos. Claro que não é por ser mulher que tenho de me maquilhar. Mas eu sou uma dessas que gostam de fazer isso.”

Há nisto tudo, reconhece, uma carga simbólica. “Aquilo que não consegui fazer durante tantos anos, quero fazer agora”, diz. “Agora, ninguém olha para mim de forma esquisita. Se calhar, olha e eu não noto”. Não lhe interessa. “Eu não consigo fazer com que as pessoas pensem de forma diferente, com que não me discriminem, mas consegui ficar mais forte, consegui não me sentir discriminada”, garante. Só lamenta que a filha tenha decidido exclui-la da sua vida e, por arrasto, Maria Eugénia. “Cheguei a dizer-lhe: os filhos não são sempre aqueles que são concebidos por nós, são aqueles que nos dão afecto.”