Opinião

“Lost in translation”

A crise migratória pré-anuncia um cenário catastrófico nas próximas eleições europeias com o crescimento explosivo das forças populistas, xenófobas e eurocépticas.

À beira do precipício, a Europa salvou de novo as aparências depois de mais uma maratona negocial que se arrastou pela noite dentro, de quinta para sexta-feira. Como faz parte da tradição, quando o choque de posições se anuncia, lá foi encontrada uma fórmula que permitiu evitar o pior e a ruptura irremediável entre o cada vez mais extenso e agressivo campo populista – com a Itália hoje na dianteira – e o que poderíamos designar como campo democrático – colocado cada vez mais na defensiva e polarizado pela França e a Alemanha.

Mas salvar as aparências tem sempre um preço e, desta feita, ter-se-á chegado mesmo ao limite a partir do qual a queda no abismo se afigura inevitável. Ou seja: encontrou-se uma laboriosa solução de compromisso que contempla sobretudo as exigências dos parceiros mais agressivos e trava a iminência do desastre que espreitava os parceiros politicamente mais expostos na actual conjuntura (essencialmente a chanceler Merkel, sob fogo cerrado dos seus parceiros bávaros da CSU e com a sua coligação governamental por um fio). A questão está em como pôr em prática esse fragilíssimo compromisso negociado sobre o fio da navalha, dando satisfação aparente a todos mas não satisfazendo efectivamente nenhum. Ora, nunca como hoje a estratégia de adiar os problemas quando não se chega a um verdadeiro consenso – como tem sido a norma das autoridades europeias – se mostrou tão ilusória e esgotada. O chamado “europês” tornou-se, definitivamente, um dialecto “lost in translation”.

Os 28 chefes de Estado e governo presentes na última cimeira de Bruxelas pareceram convergir na criação de “centros de controlo” na Europa para os imigrantes socorridos no Mediterrâneo, mas a localização desses centros será feita “exclusivamente sobre uma base voluntária”. Por outro lado, a Comissão Europeia é convidada a “examinar sem demora o conceito de plataformas regionais de desembarque”, mas é deixada para mais tarde a reforma do regulamento de Dublin (o qual faz pesar sobre os países onde os imigrantes desembarcam os encargos relativos ao seu registo e encaminhamento, o que é, aliás justamente, uma das razões de queixa de Itália e um dos argumentos que alimentam a retórica populista do seu governo). Eis dois exemplos dos subterfúgios que se perdem na tradução entre a teoria e a prática – e de que muito rapidamente se perceberá a inconsequência e vacuidade.

Três personagens simularam sair da cimeira em posição triunfante: o italiano Conte, porque condicionou o Conselho às suas exigências, o francês Macron, porque terá funcionado como árbitro entre as reivindicações italianas e o “bom-senso” europeu, e finalmente a alemã Merkel, porque era quem se encontrava na posição mais vulnerável e acabou por escapar entre os pingos da chuva (um sol de pouca dura). Só que a tentativa de salvar as aparências redundou num salve-se quem puder em que, de facto, ninguém verdadeiramente se salva neste naufrágio europeu. A crise migratória pré-anuncia um cenário catastrófico nas próximas eleições europeias com o crescimento explosivo das forças populistas, xenófobas e eurocépticas. Mas se isso efectivamente se confirmar não será apenas o sonho europeu a ser empurrado para o abismo. Serão também aqueles que lhe cavaram a sepultura sem terem nada a propor senão uma fuga para a frente rumo aos fantasmas históricos que julgávamos enterrados para sempre depois da última Grande Guerra.

P.S.: – Permito-me chamar a atenção para os excelentes artigos de José Pedro Teixeira Fernandes, apenas disponíveis no PÚBLICO online, nomeadamente aquele editado a 24 de Junho com o título “O medo e a culpa: as estratégias manipuladoras da opinião pública nas migrações”. Aí se mostra como as estratégias dos que defendem o acolhimento indiscriminado dos imigrantes e dos que se lhe opõem de forma radical são, afinal, convergentes.