Editorial

A desunião europeia, o mau e o sofrível

A solução da Europa-fortaleza é ditada mais por uma conjuntura política do que por uma crise migratória.

O acordo a que a União Europeia (UE) chegou ontem sobre a regulação dos movimentos migratórios é um compromisso entre as posições da extrema-direita que governa Itália — idênticas às de outros Estados-membros nos quais a retórica anti-imigrante se tem vindo a impor — e o desespero de Angela Markel para contentar o parceiro extremista da coligação que governa a Alemanha. Quando falamos da criação de plataformas de desembarque fora do perímetro da UE, do reforço do apoio económico à Turquia e aos países do Norte de África para que estes travem os fluxos migratórios, e da instalação de centros nos Estados-membros para receber pessoas salvas no Mediterrâneo, de modo a distinguir quem deve ser asilado e quem deve ser devolvido à origem, estamos a falar de um maior controlo de fronteiras. A solução da Europa-fortaleza é um mal menor quer para quem exige mais solidariedade para lidar com a pressão migratória, quer para quem não está disponível para aceitar alterações às regras europeias de acolhimento de refugiados.

Paradoxalmente, a solução da fortaleza é ditada mais por uma conjuntura política do que por uma crise migratória. Segundo os dados da ACNUR, no pico da crise, em 2015, a Europa acolheu mais de um milhão de imigrantes, ao passo que, desde o início do ano, apenas entraram 43 mil pessoas em solo europeu. Na actual conjuntura da desunião europeia, na qual direitos humanos e solidariedade são conceitos em apressada desvalorização, isso pouco importa, porque o mais importante não são as políticas de salvamento — ironicamente, ontem registou-se mais um naufrágio — ou de acolhimento, mas sim as medidas de contenção dos fluxos migratórios. Donald Tusk deixara isso claro na véspera da cimeira: ou havia acordo quanto a soluções deste género ou o mais provável era que triunfassem propostas mais radicais.

No fundo, a Itália conseguiu o que queria, sob ameaça de vetar o acordo, e falta agora saber se o que a Alemanha obteve será capaz de contentar as exigências bávaras da CSU e assegurar a sobrevivência do seu Governo. Merkel tem razão quando afirma que a pressão migratória pode pôr em causa o destino da UE e que as soluções devem ser multilaterais e não unilaterais. E a queda de Merkel pode apressar esse desfecho. Como diria Salvini, corroborado por Viktor Orbán, que até criminalizou a ajuda aos imigrantes na Hungria, “acabou o recreio”. Entre o mau e o sofrível, venha o Diabo e escolha.