Rodas de bicicleta, Tbilisi, Cyclo-cross, bicicleta
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Tbilissi e os segredos das amoras doces no Cáucaso

É um dilema muito particular, o da Geórgia, país que concilia traços culturais europeus, uma aspiração de integração na UE e uma situação geográfica que a faz vizinha da Rússia, do Azerbaijão e da Turquia. Tbilissi, a capital, com o seu cosmopolitismo e impressivo eclectismo arquitectónico, é bem um espelho dessas excepcionais circunstâncias.

A Praça da Liberdade encheu-se de gente esta Primavera. E de bandeiras e balões, de militares e de artilharia, de painéis em que se podia entender muito bem, no meio dos caracteres da língua georgiana, as razões de tanta excitação: "100 Years of Georgia's first democratic republic". Na Liberty Square, como também é designada localmente a praça que até há menos de trinta anos se chamava Praça Lenine, eram várias as gerações que agitavam bandeirinhas, indiferentes aos céus carregados, aos relâmpagos e aos trovões que anunciavam uma severa tarde de chuva. Mães, pais e avós (e alguns bisavôs com ar de ainda terem nascido no tempo de Estaline, um filho da terra georgiana), empoleiravam crianças de rosto pintado com a bandeira da Geórgia, algumas vestidas com camuflados, em cima dos carros de assalto e dos camiões militares dispostos à volta do imenso pedestal com uma estátua dourada de S. Jorge, o patrono do país – uma novidade acrescentada há apenas meia-dúzia de anos.

A Geórgia e Tbilissi, a sua capital, festejam por estes dias de 2018 os cem anos da declaração de independência face ao Império Russo, lavrada em 1918. Foram apenas 1028 dias de autonomia. Em 1921, a URSS anexava o território da Geórgia. Há quase trinta anos, no início dos anos 1990, os georgianos voltaram a repetir a rebelião, dessa vez em pleno período de desagregação da URSS.

À reafirmação da independência seguiu-se, dez anos depois, uma "Revolução Rosa" animada por, supostamente, ideais anti-corrupção, de reformas democráticas, jogos de (in)dependências relativamente a umas e outras potências internacionais, como insinuava tão irónico como razoável, um dia destes, um ruidoso viajante russo – e há-os muitos por aqui, a confirmar, talvez, uma certa popularidade da Geórgia dentro da antiga URSS (a nação da Transcaucásia era afamada pela cultura, pela gastronomia e pela contribuição para a economia e sobrevivência alimentar do império soviético).

Entretanto, a eclosão dos separatismos da Abecásia e da Ossétia do Sul, heranças de intrincadas políticas e composições étnicas, e de aspirações de autonomia local (ambos os territórios beneficiavam já, no tempo da URSS, do estatuto de oblast, com relativa autonomia administrativa) acabou por desencadear um conflito militar directo com a Rússia. Actualmente, apesar de persistirem, suspensas como a lâmina de Dâmocles, as questões daqueles enclaves, a Geórgia vive dias de paz, de desenvolvimento económico e de firme aposta num futuro que exclua o pior do que marcou a história do país no século XX, essencialmente a perda da independência.

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Sombras à parte, a nota dominante na capital é inequivocamente a de uma vida económica pujante, de uma melhoria geral do nível de vida dos georgianos e de uma renovação arquitectónica que inclui arrojados modernismos a par da recuperação do velho casario de varandas em madeira e pátios partilhados. E de uma vibrante (re)afirmação cultural.

“Seven billions of smiles...”

Escultura nos passeios, nos jardins, nas esquinas. Clássica, moderna, vanguardista (de estilos, grosso modo, a namorar Botero e Giacometti). Um pouco por toda a parte, também, centenas de graffiti com mensagens visuais e textos, na maioria em inglês, um número crescente de galerias de arte, músicos de rua à volta da Liberty Square e ao longo da "elegante" Av. Rustaveli, que é uma espécie de montra sociocultural da identidade georgiana. É aí, aliás, que encontramos alguns dos museus mais importantes do país, como o Museu Nacional da Geórgia, com o seu importantíssimo acervo arqueológico (a região foi berço da estirpe caucasiana do homo sapiens), de expressões estéticas das antigas regiões da Cólquida (a da história mitológica dos Argonautas) e da Iberia (não confundir com a nossa homónima península), de arte religiosa medieval e uma colecção de arte oriental (China, Japão e Índia), o MOMA, o Museu de Arte Contemporânea de Tbilissi, e a Galeria Azul, que reúne uma óptima colecção de obras de eminentes artistas georgianos dos séculos XIX e XX, como Niko Pirosmani, Lado Gudiashvili e David Kakabadz.

A Rustaveli, que lembra um pouco os grandes boulevards parisienses, parte da Liberty Square e segue para sudoeste, até se bifurcar. Ali, num largo passeio que é uma espécie de esplanada de onde se avista o cordão montanhoso do Cáucaso Menor e uns poucos arranha-céus, (poucos, mesmo), à mistura com exemplares da massiva arquitectura soviética, estacionou a graça de uma bicicleta gigante, uma escultura moderna e decidida a não passar despercebida. Numa cidade em que quase ninguém anda a pedal, a paradoxal homenagem tem a sua graça.

A Rustaveli – se nos é autorizado este tratamento familiar – está ladeada por largos passeios sombreados por altos e mui dignos plátanos. Não é apenas uma grande avenida consumida por incessante tráfego: à sombra das suas centenas de árvores, tão acolhedoras contra o sol como contra a chuva miúda que frequentemente cai sobre Tbilissi, move-se uma multidão que espelha o cosmopolitismo de uma cidade e de um país que atrai(u) gente da Arménia, do Azerbaijão, da Turquia, do Irão, do Iraque. E onde vivem comunidades de russos e gregos. A boa gastronomia georgiana tem de rivalizar, pois, com uma extensa variedade de botecos e restaurantes embaixadores dessas culturas, dispersos pela cidade, ora nas imediações da Rustaveli ou mais para as bandas da Old Town, junto à praça Meidan, onde os aromas da cozinha turca se misturam com os locais.

Aí, como noutras sempre imprevisíveis artérias da cidade, ruas ou ruelas, espalham-se vendedores de rua que vendem um pouco de tudo: artesanato para turistas, como os típicos sabres georgianos, flores, cigarros à unidade, livros, jornais, frutos secos (a Geórgia é grande produtora de avelãs), especiarias, pevides e afins de cores várias, doces e legumes e queijos que os camponeses georgianos vêm comerciar à capital, expondo a mercadoria nas bagageiras dos automóveis – às vezes numa alegre confusão que faz lembrar aquele retrato de uma Paris já desaparecida num dos mais amados filmes de JacquesTati, Mon oncle. E nêsperas, pêssegos, morangos, amoras – dulcíssimas amoras do Cáucaso – e outros frutos vermelhos, todos de intenso brilho primaveril. E sumos de fruta, sobretudo de romã e de laranja, feitos na hora com um espremedor bem ortodoxo – isto é, rigorosamente manual.

A música de rua, acústica ou amplificada, é outra nota de Tbilissi, nos passeios ou nas passagens subterrâneas da Rustaveli: baladeiros jovens e ligeiramente barbudos, o riquíssimo folclore georgiano em versão electrificada e um pouco demente e torrencial como nos ritmos balcânicos popularizados por Kusturica e Ivo Papasov, alguns convictos outsiders do heavy metal, artilhados a preceito, e bons imitadores de Bowie sem desafinar nenhuma nota do clássico The man who sold the world. Mais ou menos a propósito, o jornal inglês The Guardian escrevia há cerca de ano e meio, no seu modo de enviesado exagero e discreto sensacionalismo, um elogio sobre a cena musical underground de Tbilissi. Num aspecto temos que reconhecer oportuno o comentário: esta primeira geração inteiramente pós-soviética deverá jogar um papel importante no futuro da Geórgia. Raramente as fronteiras culturais foram tão porosas: ou são, enfim, os georgianos a fazer as suas escolhas.

Já os graffiti, a preto e branco ou cores, com um pé na poesia, líricos, põem-se a meter o outro na política – ou pelo menos nessa actividade que se costuma designar por contestação social. De uma forma ou de outra, estão por toda a parte nesta capital inquieta. There are seven billions of smiles and yours is my favourite, lê-se num velho muro carcomido pelo tempo, num daqueles bairros de casas e varandas de madeira a lembrar a vizinhança turca. Ou, na passagem subterrânea diante da igreja ortodoxa de Qvashveti, It is not our choice, declaração devidamente encimada pelo desenho de uma marioneta manipulada por mãos de um invisível personagem.

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Para entender os significados subliminares destas pinceladas decorativas de Tbilissi, quando os há, é preciso, claro, estar a par da(s) actualidade(s). Podemos ler a edição em inglês do Georgia Today (e ficar a saber que talvez na próxima cimeira da NATO se discuta a adesão da Geórgia) ou passar pelo edifício de porte soviético onde laborava até trinta anos o governo regional nos tempos da URSS e hoje acolhe o parlamento: volta e meia a Rustaveli fica fechada ao trânsito e há por lá umas (pacíficas) manifestações. Será sempre difícil, senão impossível, para um recém-chegado, decifrar os inflamados discursos em língua georgiana, mas uma mensagem visual não escapa ao viajante: a bandeira da União Europeia. Estamos para lá da Turquia, à beira do Mar Cáspio, mais próximos do Iraque, do Irão e do Turquemenistão do que do país europeu mais próximo, mas os georgianos, pelo menos alguns deles, andam com o pensamento a voar muito para lá das fronteiras físicas.

A história de Zaza

Uma das linhas do metro de Tbilissi atravessa subterraneanente o rio Kura e a primeira estação do outro lado é a de Marjanishvili. Fica a meio da Av. David Agmashenebeli, uma das mais exemplares das misturas arquitectónicas de Tbilissi. É uma artéria renovada edifício a edifício nos anos mais recentes, parece que, como noutras zonas da cidade, com recurso a imagens antigas (porventura algumas de Cartier-Bresson, que muito aqui fotografou nos anos 1950). Art deco, modernismo, art nouveau, arquitectura soviética, turca, etc., a miscelânea que caracteriza quase toda a cidade. Nas imediações da Praça Marjanishvili há quarteirões populares, com animado comércio de rua, pequenas mercearias, restaurantes iranianos e indianos, um templo católico e uma das poucas igrejas ortodoxas russas abertas na capital da Geórgia.

Imagine-se o viajante, um pouco decepcionado pela visita à pequena igreja, a atravessar a rua e, confundido com um dos muitíssimos visitantes russos que atravancam Tbilissi, a dar de caras com um georgiano dos antigos, porventura já um pouco esmorecido o ressentimento contra os herdeiros dos impérios tsarista e soviético. Mete conversa o georgiano, curioso, intrigado. O costume: de onde vem a figura, é a pergunta, a querer subtilmente confirmar se o visitante da igreja terá arribado das bandas de Rostov, Volvogrado, Astrakan ou, até, da "maligna" Moscovo.

Zaza, o georgiano, é comunicativo, paradigma que dizem ser partilhado pela gente local. Talvez a ideia seja apenas mais um estereótipo, desses que ajudam a conversar seja lá sobre o que for... Não saberá o viajante se Zaza é um georgiano típico. Mas é um tipo com as suas singularidades, intérprete de profissão, poliglota, muito citador de expressões alemãs – e não foi a Alemanha, afinal, quem mais apoiou o Comité de Libertação da Geórgia na segunda metade do século XX e um dos primeiros países a reconhecer a jovem república há cem anos?

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Está à espera de um egípcio, do Cairo, expatriado expedito em andanças de negócios entre as pirâmides e a Transcaucásia. Zaza também ensina georgiano a filhos de emigrantes e refugiados – egípcios, sírios, iraquianos. Ganha uns tostões, que é como quem diz "uns laris", a pouco valorizada moeda local. É uma espécie de trabalho social – a maioria dos imigrantes, sem possibilidade de mandar as crianças para uma escola privada, encaminha-as para a escola pública.

A história de Zaza é um pouco a da Geórgia e de Tbilissi nas últimas décadas. Tocam-se, cruzam-se. Escapou-se da Abecásia com a família durante a invasão russa, de barco, para o porto de Poti, no Mar Negro. Depois, daí para Tbilissi, que cresceu subitamente com a chegada de centenas de milhares de refugiados da Abecásia e da Ossétia do Sul. A família de Zaza dispersou-se, uma irmã emigrou para Portugal. Tudo isso foi num tempo difícil para Tbilissi, no início dos anos 1990, em que até a electricidade faltava. Agora, até Zaza, cujo cepticismo parece ter raízes fundas nas atribulações de uma nação que anda a tropeçar desde há mil anos, quando foi unificada pela primeira vez, faz um esforço para acreditar que estes dias mais luminosos vieram para ficar.

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A capital da Geórgia tornou-se na última década um destino turístico, ainda tímido, é verdade, mas com um enorme potencial de desenvolvimento. Tal como o país, arqueologicamente importantíssimo (berço da estirpe caucasiana), notável e estratégica encruzilhada cultural e política entre Oriente e Ocidente, terra da maravilhosa invenção do vinho e colectânea impressiva de cenários com os picos nevados do Cáucaso no horizonte. O futuro? Zaza, o georgiano céptico e prático, habituado a levar fintas da vida, sabe apenas que só descobriremos se as amoras são doces depois de as provarmos. Em Tbilissi não é difícil. Basta esticar o braço. Há amoreiras (quase) por toda a parte.