Editorial

Uma espécie de pântano

Um partido da oposição forte faz falta. Faz falta ao seu eleitorado tradicional, faz falta ao Governo, que tem que ser fiscalizado e questionado, no fundo, faz falta à democracia.

Rui Rio é líder do PSD mas parece que não manda no partido. Viu-se no caso da votação no Parlamento sobre o fim da sobretaxa dos combustíveis. Afinal, os deputados votaram de forma errada.

O PSD agita-se, as críticas internas sobem de tom e eis que dois dos principais opositores de Rio, os ex-líderes parlamentares Luís Montenegro e Hugo Soares, são constituídos arguidos por causa das polémicas viagens ao Euro2016. Argumentam que pagaram o bilhete do seu bolso e que ficaram surpreendidos. A direcção de Rui Rio remete-se ao silêncio. Um dia depois, perante buscas ao PSD-Lisboa sobre suspeitas de avenças fictícias e de financiamento partidário ilegal, a direcção de Rio marca uma conferência de imprensa na sede. Para quê? Para o secretário-geral do partido, José Silvano, dizer aos jornalistas que “isto tem todo o impacto na opinião pública”, que a investigação é “sobre factos anteriores” à actual liderança, que “paga o justo pelo pecador”, que “é como as batatas: uma batata podre contamina todas as outras”. Não parece o mesmo partido que, em Maio, sobre a constituição do ex-ministro Manuel Pinho como arguido, dizia apenas que o socialista goza de “presunção de inocência”.

Entretanto, reaparece Pedro Santana Lopes, com quem o líder fez questão de gizar um inédito acordo no último congresso para mostrar a união do povo social-democrata. O ex-opositor de Rio nas directas bate com a porta com estrondo, numa entrevista à Visão em que anuncia que quer entregar o cartão de militante e que pondera mesmo constituir um novo partido (o tal Partido Social Liberal, de que já tanto falou no passado?). E no PSD há até quem já fale na hipótese de um movimento de independentes, inspirado no que sucedeu no Porto com a onda pró-Rui Moreira, que ocupe o lugar do PSD no espectro partidário à direita. Surpreende como a um ano de eleições legislativas, cinco meses depois de eleger um novo presidente, o maior partido da oposição se apresente tão desnorteado.

Um partido da oposição forte faz falta. Faz falta ao seu eleitorado tradicional, faz falta ao Governo, que tem que ser fiscalizado e questionado, no fundo, faz falta à democracia, ou seja, a todos nós. Entre a direcção de Rui Rio e os seus críticos, que se entretêm a tecer planos para o derrubar, o que se assiste é a uma espécie de pântano. Ou será que estou a exagerar?