Análise

As grandes decisões (ainda) se tomam de madrugada?

As forças nacionalistas parecem estar na mó de cima. É preciso reverter a situação. Esta cimeira ainda não foi suficiente.

1. Prolongar uma cimeira até às cinco da manhã é um bom sinal? Medindo pelos antigos critérios europeus, poder-se-ia dizer que sim. Na história da União Europeia, os compromissos decisivos foram quase todos obtidos de madrugada, muitas vezes, na madrugada do terceiro ou quarto dia do Conselho Europeu. É assim quando é preciso encontrar consensos que reflictam os interesses de todos. É ainda mais assim quando a Europa deixou de ser um pequeno grupo de países mais ou menos homogéneo para se transformar numa realidade política à dimensão do continente onde a diversidade prevalece. Com a crise existencial dos últimos anos, as divisões cavaram-se, os interesses (imediatos) divergiram, a busca de consensos nem sempre foi respeitada, sobretudo quando se tratou de salvar a união monetária. Houve alturas em que nem era preciso consenso: Berlim ditava as regras do jogo. As cimeiras acabavam a horas.

Ontem, foi a chanceler que precisou dos seus parceiros europeus. A imprensa alemã reconhece que aquilo que obteve lhe chega para protelar a crise aberta pelos seus parceiros bávaros, incluindo o ministro do Interior, Horst Seehofer, que ousou desafiar abertamente a sua autoridade. Não há certezas absolutas. A pressão vai continuar mas, por agora, uma crise do Governo parece estar afastada. Isso também pesou à mesa dos líderes (pelo menos de uma maioria), que não desejam um foco de instabilidade na capital alemã, essencial para lidar com os outros pontos de uma agenda europeia que poucas vezes terá sido tão pesada. A relação com os Estados Unidos, vital para a Alemanha e para a Europa, nunca foi tão tensa e tão imprevisível. A constante pressão de Moscovo, para não dizer ameaça, voltou a dar à NATO um relevo que os europeus vêem como fundamental. A estabilização do euro precisa de mais instrumentos de convergência para não soçobrar na próxima crise. E as democracias europeias enfrentam hoje desafios inesperados de forças políticas que, justamente, construíram a sua mensagem populista e nacionalista a partir da vaga imparável de refugiados que, desde 2015, desafiam as sociedades europeias. Como se previa, a entrada em cena de um novo governo de Itália constituído inteiramente por partidos de fraca convicção europeia e de forte intolerância para com os imigrantes, revelou-se muito mais grave do que os Viktor Orbán de Leste. Dizem alguns diplomatas europeus que o primeiro-ministro Giuseppe Conte jogou um "às" de trunfos, quando precisava apenas de jogar um valete ou uma dama. Mas, para Roma, tratava-se também de provar de que o Governo italiano tencionava marcar a diferença. O Presidente francês teve um papel crucial para negociar uma solução aceitável. O seu governo já aprovou leis sobre a imigração e o asilo suficientemente duras para dissuadir uma vaga inesperada. “Há 300 mil requerentes de asilo na Alemanha e um milhão de migrantes na Líbia que apenas esperam um sinal de abertura para vir para França”, diz um dos seus próximos, citado pelo Monde. Num discurso recente, Macron advertiu “os que estão sempre a dar lições” sem pensar nas consequências. O novo governo de Espanha desempenhou um papel activo e construtivo. As conclusões são demasiado vagas e ainda podem revelar-se um fracasso. Quem é que se vai oferecer voluntariamente para criar “centros de controlo” em território europeu?

2. A imprensa de referência americana interrogava-se sobre as razões para este drama europeu, precisamente quando as entradas e os pedidos de asilo tinham caído drasticamente. Wolfgang Schauble, que preside hoje ao Bundestag (e de quem se chegou a falar como o potencial substituto de Merkel, caso a crise com a Baviera a derrubasse), lembrava na quinta-feira passada que, na década de 90, as guerras na ex-Jugoslávia tinham levado mais de 500 mil refugiados, sobretudo bósnios, para a Alemanha, que soube lidar com eles. Hoje, já regressaram ao seu país. Berlim também endureceu as leis que regem o asilo. Diz a imprensa alemã que hoje está a ser negado o estatuto de refugiado a muitos afegãos, alegando que o seu país já os pode receber de volta, o que é altamente duvidoso. Porquê então agora? Por razões ideológicas e não apenas pragmáticas ou de puro bom senso sobre a capacidade das democracias europeias de os integrar. Fica, portanto, a questão da natureza política da própria integração europeia. A Europa foi criada para abolir fronteiras e para se abrir ao mundo. Uma Europa fortaleza, com arame farpado ou muros à moda americana, seria fatal, no médio prazo, para os próprios europeus. A imigração descontrolada também não é uma solução. Mas o futuro da Europa, como disse a chanceler no Bundestag, depende em boa medida da forma como resolverá este desafio. As forças nacionalistas parecem estar na mó de cima. É preciso reverter a situação. Esta cimeira ainda não foi suficiente.

3. Entretanto, começam a ser mais claras as reacções de “pânico” geradas por outra cimeira, a do G7, que não vieram a público imediatamente. A segurança e a defesa são hoje uma prioridade para a Europa, que está expressa nas conclusões deste Conselho Europeu. A cimeira da NATO está marcada para 11 e 12 de Julho. O que os líderes europeus presentes no G7 (Merkel, Macron, May, Conte, Juncker e Tusk) ouviram de Trump foi tudo menos tranquilizador. O Presidente americano chegou a comparar a NATO à NAFTA, o acordo de livre comércio com o México e o Canadá, que aliás pôs em causa logo que chegou à Casa Branca. Outra frase fatal: “A Crimeia é da Rússia”. Trump terá o seu primeiro encontro formal com Vladimir Putin quatro dias depois, na Finlândia, um país neutral. O verdadeiro pesadelo de muitos governos europeus é a possibilidade de um acordo entre ambos por cima das suas cabeças.