Opinião

Quem estragou o “prado” da 24 de Julho?

É a rega que deixou de ser feita? São os jardineiros que não sabem tratar de jardins com plantas de prado e olham para tudo o que é verde como se estivessem num jardim do século XIX?

Quando o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles restaurou os “seus” jardins da Gulbenkian, uma encomenda para celebrar os 50 anos da fundação, fui surpreendida ao ouvi-lo falar do “prado” que ia plantar na subida para o edifício do museu — a entrada nobre. Estávamos em 2006.

Ontem, voltei a surpreender-me. Ao falar sobre o triste estado dos novos canteiros dos separadores da Avenida 24 de Julho, em Lisboa, do arquitecto paisagista Victor Beiramar Diniz, um amigo explicou-me que “foi o Ribeiro Telles que trouxe a ideia do prado quando fez o restauro dos jardins da Gulbenkian”. Há anos que Ribeiro Telles falava da importância do “prado” nos jardins da cidade, mas foi nessa obra, acabo de perceber, que tanto os discípulos paisagistas como cidadãos mais ignorantes como eu vimos pela primeira vez um “prado” num jardim formal e institucional — e percebemos exactamente o que Ribeiro Telles queria dizer. Um deles foi com certeza Victor Beiramar Diniz, seu antigo aluno. A terceira constatação do dia: aos 84 anos, o mestre continuava a experimentar ideias novas.

Dizer que Ribeiro Telles inventou o “prado” seria tão ridículo como dizer que Ribeiro Telles inventou a natureza. Mas tudo isto se passou antes de a High Line ter sido inaugurada em Manhattan e “comprada” como a ideia mais chique e moderna que alguém jamais poderia ter.

Sozinha ou com os meus filhos, percorro a 24 de Julho todas as manhãs. Ao longo de meses, tivemos a sorte de acompanhar a transformação dos novos canteiros dos separadores, notando as diferenças e o aparecimento das novas espécies. As plantas cresceram, as flores revelaram-se brancas, lilases e amarelas, a phila verde começou a dobrar os lancis, as espigas das gramíneas abriram, os tufos ficaram mais densos e ondulantes. À espera que o sinal abra, até os peões parecem mais bonitos e menos ensonados.

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Já sei que há coisas mais importantes para discutir, mas basta passar uma vez por aquela naturalidade aparentemente selvagem, como se não tivesse sido desenhada, para sentir a ilusão de que vivemos numa cidade moderna. A regra continua a ser a de importar as ideias más, tanto velhas como novas. Ainda não deixámos de copiar os jardins franceses neoclássicos do século XIX e já adoptámos os vasos no meio dos postes dos candeeiros públicos em todas as cidades de província (nunca percebi a ideia destas flores a meia-haste: será para anunciar a morte de algum pássaro?).

Foi assim até há duas semanas. Subitamente, o que parecia a mudança de ciclo de vida do “prado”, deu lugar a uma triste convicção: os canteiros estão a morrer. Rapados não se sabe bem como nem porquê, estão semicarecas e têm a terra e as mangueiras à vista.

Além de mais bonitos, estes jardins com plantas dos prados, são mais ecológicos. Exigem menos água e menos manutenção, seguramente menos do que os tradicionais jardins plantados em mosaico-cultura (o interminável planta flor-arranca, planta flor-arranca).

Mas exigem outra coisa: um pouco de cultura. Mesmo sabendo que as plantas usadas têm uma dormência particular — são camelos em versão flora —, precisam de algum cuidado. Nem a Câmara Municipal de Lisboa, nem a junta de freguesia da Estrela me ajudaram a perceber o que se passa nos separadores da 24 de Julho. Mas ao falar com três especialistas, lembrei-me de uma entrevista que fiz a Ribeiro Telles em 2003: “O problema é que hoje os técnicos, quando vêem um jardim que tem mata, prado, orlas de ligação de umas coisas às outras... aplicam-lhes as regras da manutenção de um jardim do século XIX.” Cortam o prado a pensar que são ervas daninhas.