Entrevista

“Reduzir a dívida é como uma maratona, não se deve acelerar de repente”

Michael Burda, professor na Universidade de Humboldt de Berlim, teme o efeito de choque que uma subida dos juros na zona euro pode ter na economia, mas aconselha Portugal a manter o actual ritmo de redução da dívida.

Michael C. Burda, Universidade Humboldt de Berlim, Professor Doutor em Filosofia
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O economista norte-americano, actualmente a trabalhar na Alemanha, elogia os ganhos de competitividade conseguidos por Portugal e diz que, agora, a zona euro tinha a ganhar com um cenário de aumentos salariais e inflação mais altos na economia alemã, o que ajudaria dos países do Sul a crescer.

A crise parece já ter passado, tanto no mundo como aqui em Portugal, e a economia está outra vez crescer, mas os salários não estão a subir. Porquê?
Em Portugal, o desemprego ainda não está tão baixo como estava antes da crise, por isso ainda há recursos por utilizar na economia, mas a economia está a recuperar, sem dúvida. Eu tinha estado cá em 2010, quando as coisas estavam mesmo más e era óbvio que tinha de haver algum ajustamento, porque os salários tinham subido mais do que a produtividade, principalmente nos sectores de bens não transaccionáveis. Mas agora parece que isso já foi corrigido e a menos que haja uma grande instabilidade no resto do Mundo, penso que a situação é positiva.

Esta retoma parece-lhe sustentável?
Países como a Alemanha vão começar a comprar mais produtos a Portugal, porque o país está bem mais competitivo do que estava há 10 anos. E o ideal seria que o dólar ficasse mais forte face ao euro, o que permitiria que países como Portugal, Espanha e Itália aumentassem as suas exportações para países terceiros, fora da zona euro. Isso melhoraria a situação ao nível da procura, e ajudaria a que os salários começassem a crescer mais.

A estratégia de ganhos de competitividade por via da redução dos custos não se torna inviável se todos os países da zona euro seguirem essa mesma estratégia?
Sim, é verdade, se toda a gente o fizesse, os salários em termos relativos ficariam todos ao mesmo nível. Mas esta estratégia tem lógica se um país estiver numa grande união monetária e não tiver outra forma de ajustar e de se tornar mais barato do que os outros. Portugal já não tem o escudo, já não pode desvalorizar a sua divisa. Acontece o mesmo nos EUA, a Califórnia torna-se demasiado cara e perde competitividade. A diferença é que aí ninguém fala disso. O melhor para a Europa seria chegar-se a esse ponto em que as fronteiras nacionais já não interessavam, mas antes de chegar lá ainda é preciso muito tempo. A crise foi muito má para Portugal, a procura foi muito negativamente afectada e, aquilo que eu digo aos meus alunos, é que numa situação como essa, uma forma de se voltar a ser competitivo outra vez é conseguir que os preços dos bens não transaccionáveis caiam - isto é, coisas como restaurantes, táxis, rendas. Depois da crise penso que isso aconteceu em Portugal e acho que está a ter resultados.

Esta estratégia, a nível europeu, já está a enfrentar limites, como se vê pela reacção dos EUA aos excedentes comerciais europeus…
Há limites na forma como se pode garantir crescimento à custa dos vizinhos, neste caso não através da taxa de câmbio, mas da descida dos salários reais. E na Alemanha esses limites foram atingidos. E é por isso que aí os salários já estão a aumentar mais. E penso que podem crescer ainda mais rápido. Se a inflação na zona euro em média tem de ser 2% e a Alemanha representa um terço da economia da união monetária, o que isto significa é que a Alemanha tem de ter um crescimento dos preços dos bens não transaccionáveis e dos salários mais alto, não de 2% mas talvez de 4%. A Alemanha tem de ter uma taxa de inflação mais alta.

Na Alemanha não gostam de ouvir isso…
Não gostam. Mas numa união monetária não é possível ter todas as regiões a terem a mesma taxa de inflação, especialmente quando se tem grandes discrepâncias e choques muito diferentes na economia real. No início deste século, havia um grande fluxo de capitais do Norte para o Sul da Europa. E de repente esses fluxos pararam e agora estão a ir no sentido contrário e é preciso travar isso.

Como é que a Alemanha irá reagir a um banco central que não baixe a inflação se na Alemanha a inflação estiver acima de 2%?
A comunicação é importante. Mario Draghi e o seu sucessor vão ter de explicar muito claramente que isto faz parte do acordo estabelecido com a união monetária. Muitos alemães têm muito dinheiro no banco a taxas de juro actualmente muito baixas e não vão ficar satisfeitos, porque se a inflação chegar aos 3% ou 4%, os aforradores vão perder dinheiro. Temo que haja muitos protestos em relação a isto. Mas a verdade é que não se pode ter tudo. A Alemanha tem tido excelentes resultados, o emprego tem vindo a crescer muito, portanto o cenário positivo é toda a economia começar a crescer e assistir-se a um aumento dos salários mais alto na Alemanha, de forma a que as pessoas se sintam compensadas por esta inflação mais alta.

Parece haver uma relação entre a desvalorização interna que aconselha e um aumento da desigualdade…
Sim, existe. Se as pessoas que perdem os empregos têm baixas qualificações e depois se quer trazer essas pessoas de volta ao mercado de trabalho vai ser preciso pagar salários mais baixos, a não ser que o governo pague um subsídio. Se o salário mínimo estabelecido for demasiado elevado, essas pessoas não vão conseguir um emprego. A esperança é que se possa formar esses trabalhadores, dar-lhes novas qualificações. Demora tempo, mas se olharmos para a Escandinávia, não têm o mesmo tipo de problema de aumento da desigualdade e penso que isso acontece porque apostam muito na formação. Agora, a França, que não realizou uma desvalorização interna, registou realmente uma diminuição da desigualdade, mas em contrapartida tem um desemprego bem mais alto e isso cria uma série de outros problemas.

Acredita que se vai conseguir chegar a um acordo para a reforma da zona euro?
A Europa é complicada. Cada vez que dois países se juntam e chegam a acordo em relação a alguma coisa, os outros começam a pensar: “o que é que eles estão a fazer? O que é que querem?”. E eu acho que neste caso a Holanda e outros países do Norte vão dizer à Alemanha que não a acompanham se ela estiver a fazer isto só com a França. Mas por outro lado, se olharmos para a forma como a união monetária foi criada, foi com a Alemanha e a França a juntarem-se e a dizerem que iam estabelecer uma sistema de taxas de câmbio e que quem se quisesse juntar que podia. Claro que quase todos quiseram. Por isso tenho dúvidas sobre qual será o resultado neste caso.

Surpreendeu-o que Angela Merkel tivesse aceitado avançar para a criação de um orçamento da zona euro?
Angela Merkel está muito pressionada internamente e teve de o fazer. Em particular, ela precisa de apoio para a cimeira europeia na questão da migração. Merkel e os seus parceiros da CSU têm ideias muito diferentes sobre a forma como se deve resolver a questão das migrações. E no que diz respeito à zona euro, a CSU é um pouco mais conservadora e mais céptica relativamente a um orçamento comum, mas as diferenças não são tão marcadas. Macron sabe isto e usa-o para a negociação, dizendo a Merkel que a apoia na questão das migrações, mas que ela tem de o apoiar na reforma da zona euro. Foi o que aconteceu entre Kohl e Mitterrand quando o muro caiu. É assim que a Europa funciona.

A zona euro está melhor preparada agora para um choque?
Não, não me parece. Há uma enorme fragilidade e um dos principais focos é o sector bancário italiano. A dívida pública italiana é muito grande e se as taxas de juro voltam a subir, isto vai ser um problema. A Itália tem vindo a beneficiar de uma fase de taxas de juro baixas desde 2009, mas o problema é que a Itália não cresce e o rácio da dívida no PIB continua a subir. Tenho medo que a expansão gerada por Trump nos Estados Unidos fique tão quente que Jerome Powell [presidente da Fed] se veja forçado a subir as taxas de juro muitas vezes e depois os europeus tenham de lidar com isso.

O que é que o BCE deve fazer nesse cenário?
Penso que deixar cair o euro seria uma hipótese. Seria óptimo para os países do Sul como Portugal que poderiam exportar mais para fora da zona euro.

Mas a inflação subiria…
Exacto, e os alemães ficariam nervosos porque detestam a inflação. Eu acho que o euro ainda está sobrevalorizado, e que seria possível ir abaixo da paridade com o dólar, sem um efeito na inflação assim tão grande. Agora, se o BCE subir as taxas, com a dívida que tem, a Itália tem um problema.

Portugal pode ter o mesmo tipo de problema. Deveríamos estar a fazer um esforço para cortar mais a dívida agora?
Isso poderia ser um erro. O que devem fazer é consolidar. Se têm crescimento agora, o que têm de tentar fazer é conseguir mantê-lo, garantindo do lado orçamental um ligeiro excedente primário. Assim, o rácio da dívida vai cair por si próprio. Reduzir a dívida é como correr uma maratona, não se pode estar a acelerar de repente porque depois para-se. É preciso continuar a correr durante várias horas. E penso que é possível. O que é necessário é ser consistente, não fazer coisas inesperadas, não surpreender os mercados. E Portugal tem conseguido fazer isso.

A reestruturação da dívida na Grécia pode abrir uma porta para outros países?
Os alemães dizem que se se faz uma vez, vão querer outra a seguir. E os portugueses provavelmente ficam com motivos para dizer que se fazem com os gregos, então também deveriam fazer para outros países. O que a Europa precisa é de uma grande conferência onde se possa chegar a um entendimento sobre este assunto. O que é verdade é que, neste momento, toda esta dívida é uma corda à volta do pescoço. É difícil pôr a economia a crescer sem fazer isso. Agora, o que se tem que fazer é aceitar que os países podem ir à falência. Isso já aconteceu em Estados norte-americanos, onde essa ideia é natural. Na Europa não aconteceu. Se uma falência fosse possível, os mercados teriam logo penalizado a Grécia mais cedo, quando começaram a gerir mal as contas públicas e o impacto sobre o país teria sido muito menor.