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adriano miranda

Do sonho de Apichatpong Weerasethakul irrompe o pesadelo

Retrospectiva das instalações e vídeos do cineasta tailandês: a luz, o sonho e as memórias da história política da Tailândia no Núcleo de Arte - Oliva Creative Factory, em São João da Madeira.

Apichatpong Weerasethakul está inquieto. Percorre, a passo rápido, uma das salas do segundo piso do Núcleo de Arte - Oliva Creative Factory, em São João da Madeira, para falar com um técnico. Não está satisfeito com o som de um dos trabalhos de Serenidade da Loucura, uma retrospectiva do seu trabalho para lá do cinema. Sim, o espectador não vai encontrar aqui os protocolos e a duração dessa arte, mas instalações, vídeos. Obras que contagiam outras obras por meio da música e da luz, processos feitos objectos, peças que nasceram de filmes, mas que não são filmes, diários escritos por uma câmara de vídeo. Pese embora o problema com o som, o cineasta tailandês não parece desconfortável no meio deste ambiente. Palma de Ouro em Cannes, em 2010, com O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores), autor de longas-metragens como Febre Tropical Síndromas e um Século bem recebidos pela crítica, é alguém familiarizado com os trânsitos entre o cinema e os domínios mais experimentais do filme. Em meados dos anos 90 do século passado, estudou no Instituto de Arte de Chicago onde teve a oportunidade de conhecer a produção cinematográfica de Maya Deren, Andy Warhol ou Bruce Baillie (de quem seleccionou obras no contexto de um programa organizado em 2016 pela Cinemateca Portuguesa). 

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Fireworks e Phantoms, dois trabalhos da retrospectiva
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A liberdade total também pode ser aborrecida

Vale a pena especular se o seu interesse pelo sonho, por certos estados fisiológicos e mentais, que marcam o seu cinema, terá tido origem nesse período. “Talvez, não pensei muito nisso”, responde. “Mas o meu primeiro filme foi realizado em Chicago, em 1994. É um primeiro esboço da minha descoberta da luz. Usei uma pequena câmara vídeo e explorei os efeitos da luz e do tempo sobre o meu corpo”. O filme tem o título de Bullet e abre a exposição em que o visitante mais familiarizado com a obra de Apichatpong reconhecerá: rostos, paisagens, vozes e sons. Já o menos conhecedor, poderá deixar-se conduzir, ou não, por aquilo que a exposição oferece, aceitá-la como experiência. Como a melodia de guitarra do vídeo Sakda (Rousseau), vídeo que homenageia o filósofo Jean-Jacques Rosseau, ou as estranhas aparições de um cão que deambula pelas paredes da sala. Num e noutro trabalho, assomam tópicos que se associam ao universo de Weerasethakul. A relação entre o homem e natureza – a que o actor Sakda Kaewbuadee alude num monólogo inspirado no filósofo suíço – o animismo, a reencarnação. Ou o fantástico, a propósito da imagem do cão que, em termos formais, recorda a aparição de outro animal em Febre Tropical. “Sim, são duas animações, mas esta faz parte da instalação vídeo The Palace que apresentei em 2008 em resposta à colecção do Museu Nacional do Palácio de Taipé, em Taiwan. É uma colecção repleta de obras de arte e artefactos muitos antigos, a maioria trazidos da China pelo político e militar Chiang Kai-shek” [líder do governo nacionalista de Taiwan]. O cão, pintado de vermelho, que circula nas paredes, diz o cineasta, representa um ser indiferente ao valor que damos às coisas, mas sem o contexto do museu transforma-se, também, num fantasma, numa presença que desestabiliza o encontro com as outras obras. Chega mesmo a reflectir-se, a “entrar” em Windows (1999), um dos trabalhos emblemáticos de Serenidade da Loucura

Apichatpong não foi o primeiro cineasta, nem será o último, a abraçar as possibilidades oferecidas pela arte contemporânea. Depois das experiências no domínio do cinema experimental, deixou-se seduzir, no âmbito da cena artística tailandesa, pelos cruzamentos que aí se verificavam e dissolviam as fronteiras entre a sala de cinema e a galeria, o tempo linear do filme e a memória, mais precária, da experiência da instalação. “Essas fronteiras ainda estão lá”, sublinha, “mas vão-se tornando mais fluidas. Não procuro diferenciar os dois registos, mas, ao mesmo tempo, não quero abandonar as regras do cinema. Preciso delas, como também preciso, por vezes, de me libertar delas. A liberdade total, em termos artísticos também se pode tornar aborrecida. Não procuro um equilibro, não se trata disso, mas de um gosto por movimentos de avanço e de recuo. Ter uma sala de cinema, com uma certa lógica e as regras do tempo linear, continua a ser desafiador”. Devolva-se o desafio a Apichatpong Weerasethakul. Fará sentido descrever esta exposição como cinema? “Ah, não sei. Essa é uma pergunta para ficar no ar, sem resposta”.

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O título da exposição, Serenidade da Loucura, aponta no sentido de uma violência sublimada. Como se do sonho também irrompesse o pesadelo Adriano Miranda

No escuro, para experimentar a luz

Volte-se a Windows. O primeiro filme realizado em vídeo pelo artista, que captura um fenómeno natural observado entre uma janela, um ecrã de televisão e uma câmara. Há semelhanças formais com algum cinema experimental americano (por exemplo, Wavelength, Michael Snow), mas o que sobressai é a projecção da luz sobre o espaço e os corpos – adivinhava-se já chegada de Fever Room, espectáculo apresentado no Teatro São Luiz há dois anos no âmbito do festival Temps d'Images, em Lisboa – e a representação visual de experiências ou estados interiores como o sonho e alucinação. O sonho continua a ser um estado e uma experiência a que o cineasta regressa de modo recorrente. Descobrimo-lo evocado na projecção circular Memoria, Boy at Sea, trabalho inédito realizado no oeste da Colômbia com a participação do ator canadiano Connor Jessup, ou em One Water, vídeo em que a actriz inglesa Tilda Swinton recorda, diante da câmara, os seus sonhos. Num e noutro trabalho, vêem-se imagens, mensagens sobrepostas, superfícies em movimento, películas translúcidas que parecem perder qualquer relação com a realidade. As paisagens físicas mesclam-se com imagens inventadas pela tecnologia, os rostos desaparecem. É como se Apichatpong procurasse reificar, representar, tornar visíveis num espaço público experiências que são absolutamente privadas. “Sim, é isso que faço, mas com uma intenção específica e a partir da minha biografia. A meu ver, há um elo biológico entre o sonho e o cinema. Precisamos de estar no escuro para experimentar a luz. Por isso, necessitamos do cinema. Acredito que há um benefício biológico que retiramos dessa experiência. A relação entre o fogo e as sombras traz-nos um certo sossego, precisamos dela. Quando era mais jovem tinha dificuldades em distinguir os filmes dos sonhos. As luzes dos relâmpagos em filmes fantásticos, a luz do sol num dia chuva, as imagens de tempestades são coisas que ficaram na minha memória e que voltam aos meus trabalhos. Quando vejo filmes, noto que o meu antigo fascínio pela irrupção inesperada da luz não desapareceu”.

Trabalhar com as memórias dos outros

Há alguma violência sublimada neste fascínio, como se do sonho também irrompesse o pesadelo. O título da exposição, Serenidade da Loucura, fazendo a alusão a um dualismo composto de dois estados aparentemente contraditórios, aponta nesse sentido. Nas salas, os acordes da guitarra que saem de Sakda (Rousseau) concorrem com os sons de explosões, tiros, vozes dispersas. E a memória individual e a introspecção vão-se confrontando se com a memória colectiva e a realidade pública. A história política da Tailândia, com os traumas provocado pela repressão militar, introduz-se, conduzida por obras como Ashes, Nabua Song ou Fireworks (Archives). Este último é um dos trabalhos que melhor sintetiza a prática artística de Weerasethakul. Filmado no templo Wat Sala Kaew Ku em Nong Khai, pequena cidade na fronteira entre o Laos e a Tailândia, celebra a figura de Luang Pu Bunleua Sulilat, fundador do templo e o artista que fez as esculturas que o adornam, baseadas em fantasias, contos populares e mitos políticos. Acusado de ser comunista durante a Guerra Fria, Sulilt refugiou-se em Laos onde continuou a resistir, exponho as suas esculturas vernaculares, reflectindo sobre o amor e a vida, as lendas e a reincarnação. O cineasta lembra o artista popular, salvando do esquecimento as vítimas anónimas do regime militar, mas sem impor ao visitante qualquer tipo de teoria ou verdade. Sobre uma tela de transparente, a projecção liberta as imagens nas paredes, nos volumes da sala e nas silhuetas dos espectadores. O filme manifesta-se tridimensional e intangível no espaço, constituído pelos movimentos dos actores que durante noite passeiam pelo templo entre a luz e a sombra, sob as explosões do fogo-de-artifício. É um filme que habita, com fantasmas e mortos, aquela sala e que nos deixa entrar.

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A memória da Tailândia não se apaga, mesmo quando o cineasta afasta a possibilidade de um regresso ao país para fazer longas-metragens. “Para fazer curtas, pequenos projectos, sim, mas não para realizar filmes que impliquem outros meios de produção, equipas maiores. Não creio que haja condições para tal. Se a ditadura acabar, talvez volte. Entretanto, sinto-me bem na Colômbia, onde estou a escrever o guião para o meu próximo filme. É muito desafiante trabalhar com as memórias dos outros, lidar com a situação história de outro país, com seu quotidiano mais mundano. Escutar as suas histórias e pô-las em contacto com minhas”. O cineasta prefere não adiantar muito mais sobre o novo filme, em vez disso prefere apontar para Haiku, uma série de vídeo diários que realizou com a sua câmara digital portátil. Neles estão imagens que inspiraram, como estudos ou apontamentos visuais, uma boa parte da sua cinematografia. Desfilam alusões a Febre Tropical O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores. Estes diários não se reduzem a processos de um trabalho; com o auxílio do digital, materializam memórias de situações, experiências, viagens que o cineasta decidiu partilhar. Entre o pessoal e o colectivo, o fazer solitário e o mundo, Apichatpong Weerasethakul manipula a luz aproximando o cinema das experiências da mente e do corpo. Como se o cinema pudesse trazer à luz os seus sonhos, pesadelos e memórias.