Drones e aviões são solução para prevenir doença bacteriana que arrasa olivais

A bactéria em questão é a Xylella Fastidiosa e já foi responsável por destruir milhares de oliveiras um pouco por todo o mundo.

Xylella fastidiosa
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Os olivais são particularmente vulneráveis à doença Rui Gaudencio

A silenciosa bactéria Xylella Fastidiosa, responsável por devastar olivais um pouco por todo o mundo, poderá ser agora identificada antes de surgirem efeitos visíveis nas plantas infectadas. Esta identificação precoce será possível graças a imagens aéreas recolhidas através de aviões ou drones. A descoberta foi publicada, esta semana, na publicação científica Nature plants. "O nosso estudo descobriu que os efeitos da bactéria podem ser remotamente detectados, antes de ser visível qualquer sintoma nas plantas. Isto permitirá uma rápida identificação das oliveiras infectadas dentro de um olival", afirmou o professor Peter North da Universidade de Swansea, membro da equipa que efectuou o estudo.

A bactéria vive nos vasos que conduzem a água (xilema) das plantas e propaga-se através de insectos que se alimentam do xilema das árvores infectadas. Apesar das oliveiras serem particularmente vulneráveis a esta doença, a bactéria pode hospedar-se em outras espécies de plantas com impacto económico relevante, como por exemplo laranjeiras, pessegueiros e amendoeiras. A presença da Xylella Fastidiosa faz com que os ramos e galhos da árvore infectada sequem, causando, ainda, queimaduras na folhagem. 

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Oliveira infectada pela bactéria Xylella Fastidiosa DR

Xylella Fastidiosa apresenta uma taxa de crescimento reduzida e os sintomas revelam-se tardiamente, o que torna difícil a aplicação de medidas de controlo. Muitas plantas podem estar infectadas sem revelar sintomas, mas apesar de poderem ter a doença de forma dissimulada, esta é muito mortífera. Detectar precocemente a bactéria nas plantas infectadas permite que se crie um plano para combater eficazmente e atempadamente a doença, impedindo a propagação e reduzindo os impactos socioeconómicos de um eventual surto.

Não existindo nenhum medicamento que permita a cura da doença, a única forma de travar um alastramento da bactéria passa pela queima e consequente remoção das plantas que se encontrem infectadas. Para além desta medida, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária aponta para uma série de recomendações preventivas que passam pelo uso de cultivos resistentes e pela gestão dos insectos vectores nas zonas periféricas das plantações.

A solução vem do céu

Durante décadas pensou-se que a bactéria estaria circunscrita ao continente americano. Os Estados Unidos da América — de onde a bactéria é originária — debatem-se com a doença desde a década de 1940 do século passado, altura em que surgiram os primeiros surtos. A doença foi detectada pela primeira vez na Europa em 2013, devastando milhares de oliveiras na região de Apúlia, em Itália. Para além de Itália, segundo dados da Comissão Europeia, no continente europeu já foram registados surtos da doença, igualmente arrasadores, na Alemanha, Espanha e França. Como forma de prevenção, a União Europeia impôs que todos os seus Estados-membros realizassem prospecções anuais às plantas passíveis de hospedar a bactéria.

Até ao momento, para além dos países já identificados com casos registados da doença, o restante território europeu encontra-se livre da bactéria. Porém, segundo a Unidade Estratégica de Investigação e Serviços em Sistemas Agrários e Florestais e de Sanidade Vegetal, Portugal possui vários factores que facilitam a entrada da bactéria. A posição geográfica, as condições climatéricas (Inverno pouco rigoroso), a presença de plantas hospedeiras da bactéria (oliveira, vinha, citrinos, sobreiros e amendoeiras) e ainda a presença de insectos vectores são factores que aumentam o perigo da bactéria surgir em Portugal.

A equipa liderada pelo investigador Pablo Zarco-Tejada instalou câmaras modificadas numa pequena aeronave. Estes equipamentos recolheram imagens hiperespectrais e termais, que permitem observar todo o campo electromagnético, apontando, desta forma, as plantas que já se encontram infectadas.

A equipa recolheu os dados das observações aéreas, e de seguida, comparou-as com as análises retiradas no terreno às árvores que tinham sido identificadas pela equipa como hospedeiras da Xylella Fastidiosa. Os resultados recolhidos através das câmaras corresponderam com os recolhidos no terreno. Com o recurso a esta tecnologia, os cientistas chegaram à conclusão que os efeitos infecciosos da bactéria podem ser detectados antes de surgirem quaisquer sintomas visíveis. 

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Imagem aérea termal do olival retirada pela equipa de investigadores