A população quis gerir o Parque das Serras do Porto e deu-lhe vida

A primeira edição dos Encontros com o Parque realiza-se este sábado no Parque das Serras do Porto. A iniciativa decorre das propostas dos cidadãos que nos últimos quatro meses se envolveram na elaboração do plano de gestão desta área protegida.

Parque das Serras do Porto, Gondomar, Portugal
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Este sábado, o Parque das Serras do Porto recebe trinta actividades propostas pela comunidade. Marco Duarte

Sábado é um dia de festa para o Parque das Serras do Porto. Os visitantes podem começar o dia com uma caminhada de 10km pelo antigo caminho de Midões ou até a limpar a margem do Rio Sousa. Durante a tarde, são convidados a assistir à recriação do trabalho mineiro de S. Pedro da Cova, a participar numa degustação de mel ou a conhecer o dia-a-dia da aldeia de Couce. Às 17h, o ponto de encontro é o Parque de Lazer de Santa Justa, para um momento de convívio, assinatura de acordos de compromisso e apresentação do hino ao parque pelas vozes dos alunos do Centro Escolar de Recarei.

Trinta actividades, propostas pela comunidade, vão decorrer este sábado entre as 8h e as 20h em diferentes locais dos três concelhos abrangidos pelo Parque das Serras do Porto, preenchendo, desta forma, a primeira edição do evento Encontros com o Parque. A iniciativa tem como objectivo testar alguns dos contributos dos cidadãos, bem como agradecer a participação dos mesmos num processo participativo que durou quatro meses e a partir do qual se recolheram também propostas para o plano de gestão destes seis mil hectares recém-classificados.

Desde Fevereiro, e até 15 de Junho, foram realizadas seis sessões de trabalho abertas à comunidade, nas quais participaram cerca de 400 pessoas, e nem a estreia portuguesa no Mundial de Futebol afastou os interessados da última sessão. As primeiras três consistiram na “discussão da agenda comum”, isto é, na identificação dos principais recursos e necessidades do parque, afirma Teresa Andresen, coordenadora do projecto.

A segunda fase centrou-se na “definição da acção comum”, que se traduziu na elaboração de propostas de intervenção na área protegida – caminhadas pelos trilhos, visitas às aldeias e casas-pátio, jogos tradicionais, concursos de fotografia, visitas às minas, acções de limpeza de rios, margens e percursos, acções de plantação com crianças, de sensibilização para o combate aos incêndios, entre outras. Muitas delas serão “ensaiadas e experimentadas pela primeira vez no próximo sábado”, nota Teresa Andresen. As iniciativas são gratuitas, mas de inscrição obrigatória.

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“Consideramos que [as sessões] foram um grande sucesso, pela persistente e continuada participação e também pela atitude da população, pelo compromisso, pela diversidade de pessoas que estiveram presentes, o papel dos professores, das educadoras, o papel das associações sociais, recreativas, ambientalistas, a presença dos proprietários e gestores florestais. Foi um processo de um grande envolvimento e sempre com uma grande participação política, quer dos executivos camarários, quer das Juntas de Freguesias”, descreve a arquitecta paisagista, que prevê que o plano de gestão esteja concluído até ao final deste ano.

A ideia de transformar as serras de Santa Justa, Pias, Castiçal, Flores, Santa Iria e Banjas num parque regional faz parte de uma história com mais de sete décadas. Há dois anos, os municípios de Gondomar, Paredes e Valongo decidiram unir-se na criação da Associação de Municípios Parque das Serras do Porto, para uma gestão integrada e participativa deste território. O Parque das Serras do Porto foi criado e classificado como Paisagem Protegida Regional a 15 de Março do ano passado.

Este é "um processo inovador"

O projecto, que conta com o alto patrocínio do Presidente da República, visa salvaguardar a paisagem e o património do parque, respeitando a propriedade privada, bem como as necessidades das pessoas que ali residem ou trabalham. Nesse sentido, as três autarquias têm vindo a promover um amplo processo participativo, com vista à conservação, valorização e utilização sustentada do território.

José Manuel Ribeiro, presidente da Câmara Municipal de Valongo, faz um balanço "extremamente positivo" desta acção. "Estamos a construir uma infra-estrutura verde de âmbito metropolitano num processo inovador no país, que serve a Área Metropolitana do Porto, a Região Norte e Portugal. De facto, mostramos que é possível concretizar um sonho com muitas décadas de existência", nota.

O autarca, que actualmente preside ao Conselho Executivo da associação intermunicipal, garante que os três municípios estão totalmente engajados neste projecto. "Toda a estrutura que dirige o parque é constituída por funcionários das três Câmaras Municipais, portanto o envolvimento das três autarquias é total. Este processo é inovador, nós estamos a mostrar que é possível três municípios juntarem-se, criarem uma área de Paisagem Protegida, através dos recursos das próprias câmaras, que financiam a associação através de uma quotização anual de 50 mil euros", sublinha José Manuel Ribeiro.

A associação realizou estudos prévios, dos quais resultaram seis relatórios sectoriais, que se debruçaram sobre áreas como a mineração, a ocupação do solo e evolução da floresta, a defesa da floresta contra incêndios, o património natural e cultural e a história do parque. Este material será articulado com os contributos da população no processo de elaboração do plano de gestão, que vai ser finalizado no próximo semestre.

Nos últimos meses, os municípios têm também apresentado candidaturas a fundos nacionais e europeus. No âmbito das sessões participativas, a Associação Alto Relevo, ligada às serras do Porto há mais de 20 anos, submeteu uma candidatura ao Orçamento Participativo Portugal. O projecto, denominado “Desvendar as Minas Romanas do Parque das Serras do Porto”, pretende criar condições que possibilitem a visita às minas romanas, permitindo aos visitantes desvendar este património “único” a nível mundial.

“O Parque das Serras do Porto tem neste momento o maior complexo de mineração subterrânea do Império Romano, património que tem mais de vinte séculos de existência, que está excelentemente preservado e que testemunha a grandeza a importância dos trabalhos que ocorreram ao longo dos anos”, afirma o vice-presidente da associação, João Moutinho. Este sábado, os visitantes vão poder experimentar técnicas associadas à mineração romana, numa actividade promovida pela Associação Alto Relevo e pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

Texto editado por Abel Coentrão