O piercing não é só para rebeldes, mas antes há que falar com os pais

Nesta quinta-feira celebra-se o Dia Internacional do Piercing. A opinião pública tem mudado em relação a quem os põe.

Hannah Jeter, Microsoft Theater, American Music Awards de 2016, American Music Awards de 2015, Modelo
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Axelle/Bauer-Griffin/FilmMagic

Há alguns milénios que o ser humano faz piercings, tatuagens e outras modificações no corpo, de acordo com vestígios arqueológicos. Ao longo da história foram utilizados ora como forma de arte ora como símbolo de identificação cultural. São também uma forma de afirmação, sobretudo entre os mais novos. Há que falar com os pais e ter alguns cuidados antes de tomar a decisão, avisam os médicos ouvidos pelo PÚBLICO.

Nesta quinta-feira celebra-se o Dia Internacional do Piercing Corporal, segundo o KeepIn Calendar. É que 28 de Julho é a data de nascimento de uma figura que, embora pouco conhecida por quem hoje se dirige a uma loja de piercings e tatuagens, teve grande importância no desenvolvimento das técnicas modernas: James Mark "Jim" Ward. O norte-americano é o “avô do movimento moderno do piercing”, segundo o documentário de 2003 MTV News: The Social History of Piercing.

Apesar de serem escassos os números relativos à quantidade de pessoas a fazer piercings, é claro para vários profissionais, que está em ascensão. Binho Barduzzi, piercer desde 2003, sente que houve um grande aumento na procura sobretudo nos últimos dois anos. Na Família Amorim Tattoo Shop, em Lisboa, recebe sobretudo pessoas que querem fazer piercings na “cartilagem da orelha, septo, língua, umbigo e nariz”, enumera ao PÚBLICO.

A vontade de modificar o corpo – seja com piercings, tatuagens ou outro – começa, por vezes, na adolescência. Em caso de conflito de interesses em casa, pode facilmente tornar-se numa frustração para os filhos e uma dor de cabeça para os pais. Por isso, é importante que haja alguma auto-reflexão, propõe o pediatra Mário Cordeiro, que aconselha os jovens a pensarem sobre as razões pelas quais querem um piercing: “Se é porque acha que o seu corpo fica diferente para melhor; se não está a disfarçar alguma insatisfação ou mal-estar com o corpo ou com a mente; ou se apenas quer seguir a moda e a pressão dos colegas e pares.”

“Há que analisar os vários pontos” e ter uma conversa tranquila em que ambas as partes, pais e filhos, se escutam, aconselha o pediatra. “Se os pais querem apenas impor a sua ideia ou nem querem ouvir as razões que assistem ao filho, então é uma conversa de surdos”, aponta. Por outro lado, “o jovem não pode pensar que o seu percurso de autonomia é apenas 'chegar e vencer'". Se a conversa resultar num acordo, “excelente”, mas caso contrário “quem deve decidir são os pais”, defende.

Atenção à cartilagem

O dermatologista Miguel Peres Correia começa por apontar uma “verdade incontornável” sobre a pele: sendo o “órgão de barreira do nosso organismo”, explica, “tudo o que seja estabelecer soluções de continuidade na pele é de algum modo torná-lo menos eficiente”. 

Dito isto, no que toca a possíveis riscos, há que traçar uma linha entre as zonas do corpo com e sem cartilagem, comenta. É esse o principal factor que determina o nível de risco, de acordo com o médico. Nos raros casos que os piercings resultam em complicações muito graves, “a capacidade da pele de defender-se é notável”, assegura. Mas “o mesmo não se pode dizer da cartilagem”. Enquanto a pele tem capacidade de se regenerar mais facilmente, a destruição da cartilagem “é irreversível”, avisa.

Para quem decida efectivamente fazer um piercing, o profissional de dermatologia aconselha a que se informe, escolha um local onde as condições de “assepsia e esterilidade são respeitadas” e, se possível, evite as zonas de cartilagem, como o pavilhão auricular e o nariz. De resto, indica, “é estar atento”. Se passadas 24 a 48 horas se notar um inchaço, vermelhidão ou aparecimento de pus na zona de introdução do piercing, numa zona de cartilagem, não houver melhoria, aconselha que se procure imediatamente ajuda médica. “Não é ficar à espera que haja destruição da cartilagem”, avisa.

Já em zonas como o umbigo, refere que “a possibilidade de ter uma infecção grave é baixíssima”. Quanto a sinais de alerta, mesmo nessas zonas, indica que poderá tratar-se de uma infecção mais grave quando “há uma placa vermelha a crescer tendo como centro a zona do piercing, a pele está inchada, dói ou está quente” ou até quando surgem febre ou arrepios de frio. Mas trata-se de uma situação "rara", reitera.

Quanto a cuidados a ter depois da introdução do piercing, Binho Barduzzi indica a limpeza da zona em questão “duas a três vezes por dia, usando um produto estéril e natural”. No caso do piercing na orelha, “evitar dormir em cima do piercing nos primeiros dias”.

Algumas repercussões

Em 2016, com a ajuda de celebridades como Kendall Jenner, Rihanna e Bella Hadid, o piercing no mamilo tornou-se numa enorme tendência nos Estados Unidos e também noutros países – pela mesma altura em que o o movimento free the nipple atingia o auge de popularidade. "Os piercings no mamilo são definitivamente mais populares do que nunca", disse a piercer Cassie Lopez, em 2016, à publicação Mic. "São muito como os piercings do septo, no sentido em que serão populares durante um período de tempo, depois [a tendência] esmorece e regressa novamente, geralmente quando uma celebridade faz um."

Ao mesmo tempo que aumenta o número de pessoas com piercing, também a opinião pública em relação a este tem mudado. De acordo com um estudo da American Academy of Pedriatrics, Adolescent and Young Adult Tattooing, Piercing, and Scarification, publicado em Setembro de 2017, no passado “a modificação corporal estava frequentemente associada a comportamentos de risco em adolescentes”, como uso de drogas e distúrbios alimentares, mas hoje essa ligação é menos consistente.

Ainda assim, aponta o estudo, as modificações corporais podem ter – ainda que menos do que no passado – algumas repercussões na procura de emprego ou nas oportunidades de educação. Uma sondagem do site careerbuilder.com concluiu que o piercing era o principal atributo físico que faria um empregador menos propenso a contratar um candidato, seguido do mau hálito e tatuagem visível.