Fotogaleria
Eduardo Munoz/Reuters
Fotogaleria
Os minhocários são fabricados com madeira não tratada. DR

A revolução das minhocas vai criar adubos naturais para reduzir lixo urbano

Projecto desenvolvido por equipa de Celorico de Basto quer reduzir a pegada ecológica associada ao lixo urbano. Como? Com recurso a minhocários

Um projecto para criação de fertilizantes naturais com recurso a minhocas está a ser desenvolvido por uma equipa de Celorico de Basto e visa produzir adubo de "alta qualidade" para reduzir a pegada ecológica associada ao lixo urbano.

"A nossa sociedade perdeu a ligação à terra. Não sabemos de onde vêm os nossos alimentos nem para onde vão os nossos desperdícios", disse à agência Lusa Pierre Del Cos, responsável pelo projecto Revolução das Minhocas (Worm Revolution), que, este mês, chegou à final nacional da ClimateLaunchpad, uma competição da Comissão Europeia que apoia ideias inovadoras com vista à redução do impacto ambiental e que decorreu no Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto (UPTEC).

Segundo o responsável, 99% dos alimentos consumidos provêm da agricultura convencional, química ou não orgânica, sendo produzidos com fertilizantes criados a partir de recursos minerais limitados. Além disso, "99% das coisas compradas vão para o lixo em menos de seis meses", acabando a "maior parte deles num aterro, sem reincorporar o ciclo", referiu.

Neste projecto, iniciado em Janeiro de 2018, Pierre Del Cos procura criar valor a partir dos resíduos, construindo, simultaneamente, "um futuro mais limpo", através do desenvolvimento da vermicompostagem (compostagem com minhocas) em Portugal. Para tal, a equipa está a desenvolver minhocários (casa das minhocas), com recurso a materiais naturais e reciclados, fertilizantes de minhoca e com as próprias minhocas, oferecendo "soluções locais para problemas globais".

Os minhocários são fabricados com madeira não tratada, não necessitando de pregos e de parafusos, assegurando, assim, "que o produto tem um fim de vida sustentável, sem criar mais lixo", que podem utilizados a nível doméstico ou por agricultores, referiu o empreendedor. "Não tratamos a madeira com produtos químicos, assim, em fim de vida, o minhocário pode ser compostado, reincorporando o ciclo", salientou.

As minhocas contidas nos minhocários, explicou, "ajudam a transformar a maior parte dos resíduos da cozinha em fertilizantes naturais, em casa, de maneira divertida e higiénica", o que permite "reduzir a pegada ecológica do lixo orgânico, cultivar alimentos saudáveis e a promover a agricultura sustentável".

Além disso, a compostagem com minhocas pode ser feita no interior, tendo a vantagem de ser adaptável ao meio urbano, esclareceu. Peirre Del Cos contou que, embora já existam minhocários no mercado, a grande maioria é de plástico e nenhum é fabricado em Portugal, não existindo ainda, no Norte do país, produção de minhocas.

No âmbito deste projecto está também a ser desenvolvido um sistema de saneamento com minhocas para casas, para criar valor a partir dos resíduos provenientes dos banhos, de forma "a reduzir o impacto negativo no ambiente, sem custo energético nenhum".

A equipa responsável organiza igualmente oficinas e actividades de educação ambiental para divulgar a agricultura sustentável e a compostagem com minhocas em escolas, em mercados e festivais, defendendo que "a educação é fundamental para um futuro mais sustentável".

A ideia para este projecto surgiu depois de Pierre Del Cos morar vários meses em quintas biológicas, "onde todos os recursos e resíduos são reaproveitados". Ao retornar para a cidade para trabalhar, contou, sentiu-se "desiludido ao ver a quantidade de lixo que aí é produzida", para além do facto de "ninguém conhecer bem as consequências" desses resíduos "nem para onde vão".

"Sabia que se podia aproveitar a maior parte para agricultura e já tinha visto um minhocário, então decidi começar a compostar os meus resíduos em casa, com minhocas", conseguindo obter resultados "mesmo positivos". Em Março, o projecto foi seleccionado para a Incubadora Regional de Impacto Social, em Amarante.

Sugerir correcção